Autor ignora a raiz cínica da sociedade contemporânea

Martínez Selva revela a face psicológico-individual e oculta a face político-coletiva em 'A Grande Mentira'

Rodrigo Petronio, Especial para O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2014 | 19h29

Como continuação de sua obra Psicologia da Mentira, José María Martínez Selva traz à luz A Grande Mentira, uma análise psicológica dos mais famosos fabuladores da modernidade. Distingue dois tipos: os fabuladores, donos de uma imaginação rara, e os trapaceiros, que criam suas vidas em torno de uma mentira para angariar proveitos. Selva concentra-se mais no primeiro tipo. 

Empreende então uma análise dos principais protagonistas de uma odisseia moderna de falsificação. Começa com a análise de grande mentirosos. Em seguida, em seções específicas, analisa-os em seus habitats de atuação: política, jornalismo, ciência, economia, esporte. Até fechar seu percurso com o reino das mentiras nos novos sistemas de informação globalizados e com as teorias da conspiração. 

A caracterização de grande mentira dada por Selva segue alguns critérios: precisa tratar de assunto importante, trazer consequências, produzir danos, ser reiterada e envolver um grande número de pessoas. A estrutura psicológica que move os fabuladores é muito bem diagnosticada. 

Mitomania, síndrome de Münchhausen, duplas personalidades, camaleões e transtornos de personalidade. A sociedade moderna caracteriza-se por uma indistinção entre ser e parecer. Essa indefinição ontológica produz patologias, nas quais os sujeitos, sem acessos aos bens de valor, criam atalhos para conquistá-los a qualquer custo. 

Selva concentra-se em trapaceiros econômicos clássicos, como os autores de esquemas piramidais e a sucessão de escândalos e delitos empresariais entre 2001 e 2006. A mentira na política e na economia parece ser mais esperada. Isso a torna mais sensível e surpreendente na ciência e no jornalismo. 

Na ciência, Selva aborda as milionárias manipulações de dados do norueguês Jon Subdo, em torno da pesquisa sobre o câncer, e do coreano Hwang Woo-Suk, sobre as células-tronco. No campo do jornalismo, os conhecidos casos de Stephen Glass e de Jayson Blair. Com métodos e intenções distintas, ambos falsificaram dezenas de artigos para a The New Republic e o New York Times

O apagamento da fronteira ser-parecer produz uma “enorme ambiguidade moral” em relação à mentira. Pode-se dizer que vivemos em uma sociedade, em maior ou menor grau, enraizada na mentira. Ao mesmo tempo, essa sociedade cria mecanismos para bloquear o acesso dos falsificadores ao reino de aparências que ela mesma produz, fato descrito no filme Bling Ring: A Gangue de Hollywood, de Sofia Coppola.

Isso é correto, à medida que eles transgridem os limites legais do jogo social. Entretanto, Selva vale-se de adjetivos morais para qualificar os mentirosos: vigarista, trambiqueiro, trapaceiro, esperto, delinquente. Nesse julgamento individual, minimiza a rede complexa de motivações que concorrem para o fenômeno da falsidade. Revela a face psicológico-individual e oculta a face político-coletiva do problema. Ou seja, ignora a raiz cínica de toda sociedade contemporânea. 

O antropólogo Ernest Becker define a capacidade de mentir como um dos alicerces da civilização. Mentindo, o homem produz a “negação da morte”. Para além de picaretas e charlatães, isso demonstra que a origem da mentira é um problema central da consciência humana. E um dos maiores problemas éticos humanos. Torna-se ainda maior no mundo atual, onde a aparência começa a se transformar em simulacro e o simulado passa a ser vendido como real. 

A obra de Selva é de grande valor para compreendermos esse fenômeno. Porém, não devemos abordá-lo apenas pelo aspecto psicológico que compete a cada um de nós. Devemos compreendê-lo em suas motivações sociológicas e culturais, ou seja, eminentemente políticas. 

RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO  

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