Autor de parábolas segue a trilha herética de scorsese

Ao argumentar que São Paulo influenciou os evangelistas com a ideia de que Jesus era Deus, defendendo que o santo era um gênio literário com uma imaginação extraordinária, o escritor Philip Pullman comprou a antipatia dos fundamentalistas que hoje o perseguem como se fosse o Anticristo, especialmente porque O Bom Jesus e o Infame Cristo foi publicado na Inglaterra pela editora Canongate dentro de uma coleção chamada Mitos. É a mesma coleção que publicou uma versão da Odisseia de Homero, em que Margaret Atwood, num lance feminista, faz Penélope assumir a narração do poema épico.

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

Ao revisitar os evangelhos, Pullman não foi menos irreverente. Jesus é dividido em dois como um esquizofrênico que só os corpos de gêmeos humanos podem comportar. Essa síndrome de médico e monstro, que tanto marcou a cultura literária inglesa desde Stevenson, está presente em quase toda a obra do escritor, consagrado com a série Fronteiras do Universo, da qual faz parte seu livro mais popular, A Bússola de Ouro (1995), transformado em filme de sucesso pelo diretor Chris Weitz.

Nesse filme, lançado há três anos, um órfão vive num mundo paralelo semelhante ao nosso em tudo - inclusive na existência de um poder supremo, uma organização religiosa e dogmática chamada Magisterium. Nesse mundo, crianças são raptadas e desaparecem nas mãos de seres terríveis, atacadas por lobos e mercenários tártaros. Também nessa realidade paralela, a alma de uma pessoa vive fora de seu corpo como se fosse um "demônio". Como se vê, um filme sob medida para um roteirista como Tom Stoppard, cujo trabalho foi rejeitado pelos produtores, que não gastariam milhões de dólares para fazer um filme anticlerical - daí a observação de Pullman de que um dia veremos a versão do diretor em sua mais esplêndida forma, sem os cortes exigidos pelos homens do dinheiro.

Talvez por cansar de parábolas para crianças, Pullman tenha resolvido dedicar O Bom Jesus e o Infame Cristo aos adultos, contando essa história de gêmeos de personalidades distintas e hábitos ainda mais díspares. O ponto alto do livro é a conversa entre um anjo e Cristo enquanto os dois bebem vinho no quarto. Cristo tem um informante, que o mantém a par da pregação de Jesus a fim de que possa transcrever suas palavras. O anjo vem para comunicar a Cristo qual será seu papel nessa história: o de entregar Jesus às autoridades.

Scorsese, em sua versão cinematográfica de Kazantzakis, também sugeriu que outro teria morrido no lugar de Jesus, provocando escândalo com a humanização do Messias, que delira na cruz sem cumprir sua missão (ele casa e tem filhos como qualquer mortal). Pullman foi além: para ele, tudo não passou de uma bela invenção.

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