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Autor de 'O Museu Desaparecido' fala de obras levadas por nazistas que ainda não voltaram a seus donos

Cerca de 50 mil trabalhos ainda não foram recuperados, diz o escritor Hector Feliciano

Marilia Kodic - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

08 de novembro de 2013 | 21h57

Quem passa pelo famoso quadro O Astrônomo (1668), de Vermeer, no Museu do Louvre, não suspeita que a obra-prima fez parte da coleção de Adolf Hitler. Se ao menos fosse permitido observar o verso da tela, o visitante encontraria uma pequena suástica, marcada pelos historiadores nazistas em 1940, quando foi confiscada a comando do Führer para integrar o museu que pretendia construir em Linz, cidade onde cresceu. Ao fim da Segunda Guerra, a pintura foi restituída a seus donos originais, a família de banqueiros judeus Rothschild, antes de ser doada ao museu em 1983.

Infelizmente, milhares de outras obras não tiveram o mesmo destino. Em seu livro O Museu Desaparecido, que chega ao Brasil pela Martins Fontes, o jornalista porto-riquenho Hector Feliciano descreve o trajeto de muitas delas e estima que, das 100 mil roubadas, metade ainda está desaparecida – e, dentre as recuperadas, 16 mil nunca foram reclamadas pelos proprietários.

Estejam em situação de empréstimo em museus como Louvre, Orsay e Pompidou, estejam escondidas em cofres-fortes sob as permissivas leis suíças, trata-se de Picassos, Matisses, Monets, Renoirs, Cézannes e Degas, entre outros, eternamente à espera de seus donos. De Porto Rico, Hector Feliciano conversou por telefone com o Estado.

Quantas obras foram confiscadas durante a 2ª Guerra Mundial e quantas foram recuperadas?

Na França – naquela época, o centro mundial da arte e, por isso, a maior vítima –, foram cerca de 100 mil. Por obras de arte, me refiro a uma pintura, um ovo Fabergé, um móvel, todo tipo de objeto. Para ter uma ideia do que são 100 mil obras, pense que a coleção nuclear do MoMa tem 2.500. Então 100 mil é algo gigante. Ao todo, foram recuperadas em torno de 50 mil – 20 mil desde que saiu o livro pela primeira vez. Então falta metade.

À época de sua pesquisa, os museus e governos negavam acesso ao inventário de obras confiscadas. Hoje é fácil encontrar essas informações?

Sim. Muito mais fácil. Quando fui aos Estados Unidos, eram confidenciais, e tudo o que havia eram 13 milhões de obras sem índice. Hoje, as listas estão disponíveis, está tudo indexado, e muita coisa está na internet, o que facilita o trabalho – lembre-se que o fiz pouco antes de a internet ser universal.

Quando compra um quadro roubado sem sabê-lo, você é obrigado a devolvê-lo ao herdeiro caso este o reclame?

Depende da jurisprudência de cada país. As leis tendem a favorecer a vítima, mas não existe uma lei internacional sobre saques de guerra, nem sempre você tem que automaticamente restituir a obra. Pessoalmente, penso que obras que foram roubadas de indivíduos a eles devam ser devolvidas. Deve haver acordos, mas de maneira que as duas partes, sobretudo a vítima, fiquem satisfeitas.

A família Rosenberg, que recuperou estimados US$ 39 milhões em obras, não cumpriu o acordo verbal de compensá-lo por ter ajudado a achá-las. Como se sente com isso?

Não sinto nada, é passado. Trata-se de gente que não cumpriu sua palavra, acabou.

A importância que a comunidade artística dá à questão da procedência das obras mudou desde que o livro foi publicado?

Sim. Quando publiquei o livro, à ideia de procedência não se dava nenhuma importância. Só se a obra havia pertencido ao Príncipe de Gales, à Rainha da Inglaterra, ou algo assim. Hoje, os historiadores dão muito mais atenção a isso. Em países como França e Estados Unidos, foram criados comitês de restituição de obras. A jurisprudência internacional também se transformou. Claro que sempre há os que são contra qualquer mudança.

Como a Rússia, que em 1990 criou leis visando conservar os bens culturais de que o Exército Vermelho se apoderara na Europa, certo? Até hoje o país se recusa a devolver os bens?

Sim. A Rússia os declarou patrimônio nacional, dizendo aos alemães: “Vocês destruíram mais ou menos 300 mil monumentos e obras. Se não restituírem o que destruíram, não devolveremos as obras”. São vendetas históricas.

A Suíça foi um dos países que mais recebeu as obras confiscadas, graças às leis permissivas de sigilo e posse. Acredita que há um grande número de obras escondidas em coleções privadas e em cofres nos bancos?

Penso que sim, embora não saiba se em grandes quantidades. Quando uma comissão Suíça tentou buscar obras, as encontrou, então penso que deve haver mais.

No livro, você critica a posição passiva dos museus que, em vez de investigar a procedência das obras, esperavam que os donos aparecessem.

A princípio, a atitude dos museus foi de certa negação. Depois da pressão da opinião pública, começaram a admitir. Mas, realmente, há muito poucos museus que fizeram um trabalho verdadeiro e profundo de busca dos donos das obras, muito poucos mesmo.

A repercussão do tema despertou interesse sobre outros saques históricos, como, por exemplo, os frisos do Partenon expostos em Londres, ou os artefatos pré-colombianos de Machu Picchu expostos nos EUA?

Sim. Pouco a pouco pesquisadores começam a remoer outros temas de patrimônio, como o de Machu Picchu e toda a arte colonial da América e América do Sul. São questões muito importantes.

Ao longo dos oito anos de investigação para o livro, mais os 18 passados desde a publicação, qual considera a descoberta mais impressionante?

O caso da obra La Femme en Rouge et Vert, de Fernand Léger, que encontrei no Centro Pompidou. Vi uma foto em um livro que mostrava a parte de trás do Jeu de Paume (museu parisiense) usado pelos nazistas para armazenar obras confiscadas, e lá estava ela na parede. Esse tipo de descoberta é maravilhosa, provavelmente esta foi a mais importante.

Algum dia o livro terá terminado?

Creio que esse é um dos capítulos inconclusos da 2.ª Guerra Mundial, que ficará sempre aberto. Só desaparecerá com o fim das nossas memórias. Cada vez que o livro é publicado em algum país, causa novas investigações e mudanças no modo de comprar e vender arte.

O Museu Desaparecido

Autor: Hector Feliciano

Tradução: Silvana Cobucci Leite

Editora: WMF Martins Fontes (432 págs., preço não divulgado)

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