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Em nova peça, Newton Moreno experimenta processo de criação coletiva

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h09

Para Newton Moreno 2012 carrega certa aura de ineditismo. Em agosto, o dramaturgo estreia Terra de Santo, título provisório de seu próximo trabalho à frente da companhia Fofos Encenam. A obra demarca mais um passo em um território que ele conhece bem: o Nordeste e as relações patriarcais que moldaram o comportamento dos brasileiros. Porém, também sinaliza um novo momento em seu teatro: será a primeira vez que Moreno vai dirigir um texto gestado junto com seu grupo.

Mais festejado autor de sua geração, Newton Moreno firmou-se escrevendo textos encenados por outros coletivos e diretores. Em 2004, sua peça Agreste, levada à cena por Marcio Aurélio, dava indícios de um novo momento da dramaturgia brasileira. Provocava assombro pela forma com a qual perscrutava um Brasil profundo, arcaico. Sem, contudo, abrir mão de um teatro conectado à contemporaneidade. A seguir, conquistou acolhida semelhante com o lançamento de As Centenárias, montagem protagonizada por Marieta Severo e Andrea Beltrão, sob a orquestração de Aderbal Freire-Filho.

Mas não foi apenas como dramaturgo que o pernambucano conquistou seu espaço na cena teatral da cidade. Ao longo da trajetória da Fofos Encenam, Moreno também já deu mostras de seu talento como diretor. Assinou montagens como Assombrações do Recife Velho em 2005. E, quatro anos depois, revelou o inspirado Memória da Cana. Curiosamente, em ambos, o artista deixava de lado seu pendor de ficcionista e se valeu da adaptação de outros autores: Gilberto Freyre e Nelson Rodrigues.

Daí a novidade de Terra de Santo, um texto que não toma outra obra como apoio. E surge, portanto, a partir de um argumento original. Também parece curioso notar que a próxima peça nasce a partir de um método novo para o grupo. Não será concebida apenas por Moreno, mas como resultado das investigações e contribuições de todos os integrantes da cia. "Estamos trabalhando desde março de 2011", comenta o autor. Além de estudos, palestras e improvisações, o processo envolveu duas viagens: uma para Piracicaba e outra para Pernambuco. Neste ano, diretor e grupo voltaram à sala de ensaio e, agora, trabalham para alinhavar a pesquisa. "Terra de Santo nasceu de Memória da Cana. Assim como Memória é um desdobramento de Assombrações", pontua Newton Moreno.

A princípio, a peça leva adiante aquelas investigações que eles começaram a fazer em 2008: debruçados sobre a sociedade patriarcal canavieira, influenciados pelo universo delineado por Gilberto Freyre. Sua principal matéria-prima, porém, deve ser justamente aquilo que ficou de fora do espetáculo anterior. "Aquele processo, que também incluiu uma série de viagens, nos colocou diante de vivências muito fortes, experiências que escutamos", comenta o autor. "Ficou a vontade de produzirmos uma dramaturgia juntos a partir de tudo isso. O que, na verdade, nunca fizemos. Jamais trabalhei desse jeito."

Nas obras que vieram antes, Moreno relata um processo mais solitário. "Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada (2001) é um texto meu, encenado pelos Fofos. Mas já cheguei com tudo escrito." Agora, a autoria é conjunta.

Além das famílias patriarcais, existe a intenção de acercar-se de uma outra temática. "Queríamos chegar mais perto do sagrado. As festas, as relações de sacralidade, de fé", comenta ele. Outro título possível para a montagem é Pentateuco.

Não deixa de ser outra via para aprofundar uma investigação que sempre esteve no horizonte do criador: o processo de formação do povo brasileiro. Para Moreno, "esse caldeirão de etnias é também uma fusão de crenças. Acho que, com essa peça, estamos fechando um ciclo".

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