Timo Berger/Divulgação
Timo Berger/Divulgação

Autor argentino discute infância e passagem à vida adulta em coletânea de contos

Em 'Os Lemmings e Outros', Fabián Casas recupera história de seu país

Wilson Alves-Bezerra, Especial para o Estado de S. Paulo

14 de março de 2014 | 20h59

Após quase dez anos de sua publicação, chega ao Brasil a tradução de Os Lemmings e Outros, livro de contos do argentino Fabián Casas. É um livro sobre a infância ou sobre o infantil que persiste ao longo da vida. A epígrafe ao primeiro conto é um fragmento de Schopenhauer, que traz uma imagem a partir da qual se pode ler todo o livro: os porcos espinhos no inverno têm que achar a justa medida para poderem sobreviver – precisam do calor uns dos outros, mas não podem se aninhar, pois se ferem ao se espetar involuntariamente. Uma metáfora eloquente sobre a convivência que, segundo Casas, se urde a partir da infância.

A pergunta que parece perpassar a obra é: qual é o preço para se viver e sobreviver em sociedade? O questionamento se apresenta a partir de um grupo de garotos, na faixa dos 11 anos de idade, e irá ressurgindo ao longo do livro, em diferentes momentos da vida de tais personagens. Todos vivem no bairro portenho de Boedo, na passagem dos anos 70 aos 80. É um bairro de periferia, como qualquer outro, porém inflado no discurso dos narradores pelo fervor quase patriótico que lhe dá contornos únicos. O pano de fundo é a ditadura argentina, que surge incidentalmente.

Outros escritores latino-americanos recentemente têm lançado mão do mesmo expediente: fazer uso da época histórica da infância e adolescência para a construção narrativa: como o colombiano Juan Gabriel Vázquez – em O Ruído das Coisas ao Cair - e o mexicano Juan Pablo Villalobos – em Festa no Covil e Se Vivêssemos em um Lugar Normal. Entretanto, eles miram da história a dimensão do narcotráfico, da política e da sociedade. Assim, os personagens que se movem em suas obras são pretextos para a construção do grande edifício histórico. Em Fabián Casas, ocorre o contrário: capta-se de modo sutil a atmosfera da época, pelo modo de se relacionar dos casais (em Os Quatro Fabulosos), pela rebeldia e anseios difusos dos garotos. Deste modo, a história surge como um componente que nunca toma o primeiro plano, mas que está sempre presente, de uma forma ou de outra: “A ditadura foi a disco music. Estava no lugar errado no momento errado” (p. 11); “Para que se entenda qual era o sinal que estava tatuado naquele céu cinza de fins dos 70 (se de fato querem escutar outra história de amor com final mortal) aí vai.” (p. 12). É razoável dizer que o discurso sobre a história em Casas se aproxima mais de Alan Pauls do que de Ricardo Piglia, para usar dois exemplos argentinos.

Aparece nos contos de Os Lemmings a dimensão afetiva dos objetos que construíram aquela época: o xarope Talasa que os moleques usavam como entorpecente, os cadernos Gloria, os alfajores Jorgito, a vitrola e os discos dos pais, as figurinhas. Aparecem ainda referências culturais populares como The Platters, Led Zeppelin, Spinetta, Xuxa e Pablo Conejo, “um mexicano que escreve livros de autoajuda que vendem como coca-cola” (p. 63). A alta cultura fica por conta do narrador, já adulto.

O livro começa com um conto – Os Lemmings – em que o tema é a sociabilidade dos meninos: como estar no grupo de amigos, como se aproximar de uma garota interessante, como ser respeitado por todos? As perguntas vão se atualizando vertiginosamente. O texto seguinte – Quatro Fantásticos – é sobre os sucessivos namorados da mãe recém-separada e o que eles podem legar ao garoto em formação. Em O Bosque Maneiro, conta-se a história de Máximo Disfrute, o garoto pobre que ensinará aos colegas as artes da masturbação, das drogas e do estilo, e que será o agregador da gangue que então ganha corpo. “O relator” traz o que há de infância e fragilidade na velhice: um homem deve narrar, no estádio, a partida de futebol para seu velho pai, que ficou sem óculos no dia da final do campeonato. Os personagens do livro colocam em cena o que Freud chamou de pulsão de morte, a tendência de todo corpo vivo buscar sua aniquilação. Tal máxima surge já nas primeiras páginas, na imagem dos animais que dão nome ao livro: “os Lemmings, uns animaizinhos parecidos com as lontras (...) que viviam em tocas no Ártico e, de repente e sem motivo, se jogavam de cabeça pelas escarpas, suicidando-se...” (p. 27). 

A imagem é mais uma vez bastante adequada aos arroubos juvenis, ao impulso ao crime, à loucura e à morte que movem os ternos e solitários personagens deste livro em meio a dias duros e a uma existência difícil. Fabián Casas capturou – ou inventou – um espírito de uma época que, sendo argentino ou não, certamente não fica restrito à sua paróquia. Porque consegue dar conta de um movimento singular: da agregação dos garotos na infância à sua desagregação na idade adulta, tanto como grupo como quanto sujeitos. A loucura, o fracasso e a morte se impõem à potência juvenil: “Quando vejo esses bandos de pássaros fazer o V no céu, penso como sabem onde cada um tem de estar, não é? Quem diz ao outro, ei, você fica aí e você lá. Mas da terra parecem majestosos. E assim a gente era. Até que este país de porcaria nos cagou de porrada.” (pp.144-5). A palavra final do livro – a culpa é da porcaria do país – dá o que pensar. O que vale dizer, finalmente, é que se trata de um livro que de fato lança perguntas sobre o homem (ou a criança) no mundo e que não se conforma com o já dito.

WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR

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OS LEMMINGS E OUTROS

Autor: Fabián Casas

Tradução: Jorge Wolff

Editora: Rocco (160 págs., R$ 29,50)

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