Autor angolano fala de letras com Caetano em Paraty

Eis a estória de um vendedor incomum. Félix Ventura ´cria´ passados para novos-ricos em Luanda, Angola. Uma noite recebe a visita de um misterioso estrangeiro disposto a comprar um passado angolano. Félix constrói-lhe esse passado e então, de repente, tudo aquilo que tinha imaginado começa a acontecer. O passado invade o presente. "A ficção apossa-se da realidade", comenta o escritor José Eduardo Agualusa, autor de O Vendedor de Passados (Gryphus, 208 págs., R$ 32), livro com o qual vai participar, convidado pela Portugal Telecom, da Festa Literária Internacional de Paraty, ao lado de Caetano Veloso e Cacá Diegues.estadao.com.br - As ex-colônias de Portugal são nações sem passado? José Eduardo Agualusa - Passado temos todos, por curto que seja, podemos é não conhecer esse passado. Em Angola tem havido nos últimos anos um relativo progresso nas disciplinas ligadas à história, à memória, com algumas boas surpresas editoriais, ensaios, romances históricos, biografias, autobiografias, recolhas de correspondência, etc., mas ainda há imenso por fazer. A história da guerra civil, por exemplo, um tema vastíssimo, extraordinariamente interessante, porque é essencial para a compreensão do que foi a guerra fria, do que foi o conflito entre o bloco socialista e o mundo ocidental, isso está por escrever. Espero que haja historiadores brasileiros interessados nesse tema. Por outro lado, Angola é um país com poucos jornais, poucas bibliotecas e arquivos, e com uma esperança de vida muito reduzida. A memória perde-se rapidamente. É uma vertigem. A função do escritor seria, portanto, preservar a memória? Sim, em particular num país como Angola. Noutros países não existe essa urgência. Em Angola, a sensação que tenho, todos os dias, é a de que há imensas histórias ao meu redor, histórias interessantíssimas, que nunca ninguém escreverá. Os novos-ricos sem passado são comuns em diversos países, mas, em Angola, a situação é mais acentuada? Em Angola, à semelhança do que aconteceu na extinta União Soviética e noutros países do leste da Europa, passou-se de um dia para o outro de um regime comunista, sem propriedade privada, para o mais selvagem e descontrolado sistema capitalista. Porém, ao contrário do que aconteceu nos países do leste da Europa, em Angola não houve uma mudança de dirigentes. Os homens que dirigiam o país durante o regime comunista são hoje fervorosos capitalistas, estreitamente ligados aos interesses americanos na área do petróleo. Algumas dessas pessoas acumularam muito dinheiro, têm pois o futuro assegurado, e o que pretendem agora é um bom passado. Muitos são de origem rural, filhos de camponeses, e gostariam de ascender ao círculo estreito da velha aristocracia urbana de Luanda e de Benguela. Esses estariam dispostos a comprar um outro passado. Além da homenagem, por que Jorge Luis Borges aparece no romance na figura de uma osga, que é uma espécie de lagartixa? Borges disse numa entrevista que não gostaria de reencarnar, mas que se isso acontecesse, preferiria reencarnar num país distante. Eu lhe fiz a vontade. Fiz com que reencarnasse num país distante, e sob uma forma viva também um pouco distante da nossa. No romance, ele interroga-se sobre as razões por que isso lhe sucedeu. Ainda assim despertou entre livros, num velho sebo, o que para ele era uma imagem do paraíso. Você se sente bem nos países de língua portuguesa. O que nos une, além da língua comum? A memória comum. Você encontra a memória de Angola no Brasil, no samba ou na capoeira, na macumba ou no gingar de uma mulata. Mas também na culinária ou na arte popular. Você encontra a memória do Brasil em Portugal, no fado. Em Angola, encontra essa memória na atual música urbana. Luandino Vieira, o nosso maior escritor, é um filho legítimo de Guimarães Rosa. Eu descendo de Eça de Queirós, mas também de Machado, de Rubem Fonseca, de Chico Buarque e Caetano Veloso. Estamos ligados de mil formas. Algumas são evidentes. Outras são invisíveis. Estas são as mais fortes. Por que você gosta tanto de lidar com a memória? Nós somos aquilo de que nos lembramos. Um homem sem memória é um homem sem personalidade. Todavia, muitas das nossas memórias são falsas. Lembramo-nos de coisas que nunca aconteceram. Vou-lhe dar um exemplo: num dos meus romances mais conhecidos, Estação das Chuvas, falo da repressão contra os pequenos partidos de esquerda logo após a independência de Angola. Muitos amigos meus ligados a uma organização comunista, próxima do PC do B, estiveram presos, e um dos capítulos do livro passa-se na prisão. Algumas coisas de que falo aconteceram realmente. Outras são pura ficção. Imaginei a estória de um preso que para se entreter pinta estrelas, constelações, no teto da sua cela. Algumas pessoas que leram o livro, e que estiveram presas, me vieram dizer que se lembram disso. Elas lembram-se de algo que não aconteceu. Lembram-se porque eu misturei a ficção com fatos reais e a ficção preencheu os espaços vazios na sua memória. Acho isso extraordinário e ao mesmo tempo muito perturbador. A idéia que também nós somos uma ficção. O meu livro procura refletir sobre tudo isso. Como analisa a literatura que hoje é produzida em língua portuguesa, desde Portugal até suas ex-colônias? Portugal está a viver um grande momento. Tem a melhor seleção. Isso é resultado direto de 30 anos de democracia e de investimento sério na cultura e na educação. Os portugueses dispõem de excelentes bibliotecas públicas, muito freqüentadas, sobretudo por crianças e jovens. O Brasil não tem ainda uma literatura à medida da sua imensidão e da sua diversidade, mas está a caminho disso. Todos os anos surgem novos escritores. Os países africanos, e Timor Leste, esses permanecem prisioneiros do subdesenvolvimento. Tenho esperança de que a situação se altere à medida que a democracia se afirmar em todos esses países. No geral, temos uma literatura vigorosa e em crescimento. Estamos em pleno salto. Que recordações você guarda dos tempos em que morou no Brasil? Fui muito feliz enquanto vivi no Recife e no Rio de Janeiro. Sei que isto é um lugar-comum, mas acho realmente que a maior virtude dos brasileiros é a cordialidade e a simpatia. O Brasil é, além disso, um país extremamente acolhedor. Por isso é tão fácil alguém se fazer brasileiro. Um japonês nasce nos Estados Unidos e continua a ser japonês. Um japonês nasce no Brasil e é brasileiro. Eu espero um dia reencarnar carioca, ou pernambucano, embora não na pele de uma osga. Modéstia à parte, eu daria um bom carioca. Levo jeito. E o encontro com Caetano Veloso? Em primeiro lugar, representa uma oportunidade única de conversar com o Caetano. Já estive com ele várias vezes, é claro, Caetano no palco, e eu no público, ouvindo-o cantar, mas nunca tive antes a oportunidade de conversar com ele. Caetano, além de ser um extraordinário compositor, é também um homem de pensamento, polêmico, irreverente, com um conhecimento muito profundo sobre a cultura popular e, em particular, sobre tudo o que diz respeito à contribuição africana para a construção do Brasil.

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