Autor alia sucesso à falta de magia

O sucesso da coleção Desventurasem Série, segundo o próprio autor Daniel Handler, estájustamente na ausência de magia. Se Harry Potter pode escapardas garras de um monstro graças a um simples toque de varinhamágica, os irmãos Baudelaire precisam se virar apenas com suaesperteza e uma certa dose de sorte. O uso da inteligência,aliás, é o melhor recurso e Handler faz questão de tambémincentivar o raciocínio de seus leitores. É o caso, por exemplo, de um trecho do primeiro volume,ironicamente chamado Mau Começo, em que os Baudelaires ficamdesapontados ao descobrir que não podem usufruir a herançadeixada pelos pais e, pior, deverão ficar sob a tutela domaldoso conde Olaf. "É muito útil, quando se é jovem, saber adiferença entre ´literal´ e ´figurado´. Se alguma coisa aconteceno sentido literal, acontece de verdade; se acontece no sentidofigurado, dá a impressão de estar acontecendo", afirma onarrador que, em seguida, conta como os irmãos passam o resto datarde se divertindo lendo livros e, assim, escapam"figuradamente" da maldade do conde. As referências literárias também marcam o texto e servempara executar o plano de Handler de habituar os jovens leitoresa nomes marcantes da literatura mundial. A citação mais óbviaestá no sobrenome dos irmãos órfãos, referência ao poeta francêsCharles Baudelaire. Antes do início de cada história, aliás,surge a primeira homenagem: todos os livros são dedicados aBeatrice "querida, adorada, morta", o mesmo nome da musa dopoeta italiano Dante Alighieri. E outro personagem deimportância vital na história é o banqueiro Poe, responsávelpela guarda da fortuna e cujo sobrenome é o mesmo do escritorEdgar Allan Poe. Charadas - Daniel Handler diverte-se ainda ao proporpequenas charadas, que não passam despercebidas pelos queconhecem literatura com uma certa profundidade. É o caso dahistória sobre o poder da hipnose, contada pelo narrador, de umamulher semi-analfabeta que se transformou em renomada escritorasimplesmente ao ouvir a palavra "Bloomsbury" - uma referênciaa um variado círculo de artistas e pensadores, como VirginiaWoolf que, no início do século passado, reunia-se em uma casalocalizada no bairro do mesmo nome, em Londres. Bloomsbury étambém o nome da editora que publica os livros de Harry Potter,ou seja, o principal rival dos irmãos Baudelaire. Handleraproveita também para homenagear criadores contemporâneos de suaadmiração, como o dramaturgo David Ives. Na pele de Lemony Snicket, Handler aventurou-se pelarica e tradicional literatura inglesa para crianças, que semprebuscou caminhos distintos do sentimentalismo americano. Há umacerta lógica nonsense que lembra Lewis Carroll, além de umaatmosfera à la Dickens, que mistura carros e carruagens,computadores e telégrafos antigos. A escolha do pseudônimo, aliás, surgiu a partir de umabrincadeira entre amigos. Anos atrás, Handler participava deorganizações da ala conservadora e de grupos religiosos, quandopercebeu que nada daquilo realmente o interessava. "Issoaconteceu no exato momento em que eu encomendava, por telefone,uma porção de livros religiosos e a pessoa do outro da linhaperguntou meu nome", contou o escritor em entrevista à imprensaamericana. "Fiz um pequeno silêncio e, não sei por qual motivo,respondi Lemony Snicket." No mesmo dia, ao fazer reserva em um restaurante ondejantaria com amigos, Handler utilizou o mesmo nome. Um tempodepois, encomendou cartões de visita para se apresentar comoLemony Snicket. Até um drinque ele inventou e batizou com seupseudônimo, à base de rum, hortelã, açúcar e, claro, suco delimão. "Eu vinha escrevendo um romance gótico e já acumulavacem páginas quando, depois de algumas adaptações, cheguei àsérie dos irmãos Baudelaire." Desventuras em Série despertou atenção não apenaspelas suas qualidades literárias, rapidamente aceitas pelosadolescentes, mas também por uma engraçada polêmica, iniciada nopróprio departamento de divulgação de sua editora: as mulheresque têm filhos ficaram horrorizadas com um momento da história,em que a bebê Sunny é colocada em uma gaiola e pendurada no altode uma torre. Para que a cena não parecesse por demais violenta,o ilustrador Brett Helquist, responsável por todos os desenhosda série, conseguiu registrá-la de forma discreta, evidenciandomais a torre que a própria gaiola. E, seguindo o mesmo destino de Harry Potter, asdesventuras dos Baudelaire deverão acabar no cinema: a produtoraNickelodeon já comprou os direitos.

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