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Lúcia Guimarães
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Autocensura

O s convidados foram saltando de táxis num píer nova-iorquino. Não sabíamos o que esperar porque o noivo tinha família em outro estado. Mas a tarde prometia ser interessante, o noivo conhecia músicos, escritores, gente ligada às artes.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 Março 2015 | 02h08

Uma festa de casamento em terra firme já é um desafio. Há chance de estranhamento entre dois grupos de parentes e amigos que vão se encontrar pela primeira vez. Se o casamento já é o segundo e os noivos estão na meia idade, então, as facções ficam mais entrincheiradas em seus costumes e opiniões liberadas pelo álcool. Mas a falta de passado com as duas famílias nos fez encarar a ocasião - casamento e festa a bordo de um barco que dá a volta em Manhattan - com curiosidade divertida.

Enquanto nos agrupávamos para uma pessoa conferir nossos nomes, reconheci um rosto e acho que, na agitação, belisquei uma amiga, por estar impedida de falar o nome em voz alta. A amiga musicista não tinha minha memória treinada para catalogar rostos de figuras públicas e demorou a reconhecer o homem. Eu movia os lábios na pronúncia muda do nome. Quando ela entendeu, fiquei aliviada porque soltou o holy shit! inevitável em voz baixa.

Resolvemos compartilhar a descoberta com outra amiga que, além de não poder vir a Nova York para a festa, ficaria igualmente chocada. Passei a fingir que fazia fotos da minha amiga com o East River no fundo quando, de fato, a colocava no canto da tela e registrava a presença do homem.

Embarcamos e fomos dirigidas a uma mesa com jornalistas e músicos.

O homem sentou-se com um grupo de conservadores menos proeminentes do que ele. Uau. O amigo que tanto me iluminara musicalmente, com quem tinha compartilhado noites memoráveis de concertos, queria se casar em companhia deste dinossauro.

Crescendo na ditadura militar, os conservadores com quem convivi usavam verde oliva. Dificilmente me encontraria numa festa carioca em que um convidado fosse o equivalente àquela figura, representante do pior da direita norte-americana - mediocridade intelectual, ressentimento e obscurantismo.

Meu carinho pelo anfitrião não foi envenenado. Mas admito que, desde então, nosso convívio, menos frequente porque seu emprego atual e o casamento o afastam de Nova York, é marcado por uma língua franca restrita ao território das artes ou das histórias de vida pessoal. Obama e Bill de Blasio estão exilados do nosso papo, hospitaleiro a Miles Davis ou Tony Kushner.

A memória daquela tarde voltou, forte, nesta passagem pelo Rio, de onde escrevo a caminho de Nova York. Não me lembro de polarização semelhante, antes ou depois de partir, exatos 11 dias antes da eleição indireta de Tancredo Neves. Sou acusada de votar no Aécio. Sou acusada de votar na Dilma. Evito pronunciar estes dois nomes até com parentes próximos porque ouço o ruído de um motor roncando, o carro do rancor em ponto morto, esperando para engatar uma primeira e me levar para um lugar que não frequento. Se disser que o sol nasceu às 5:40 da manhã, arrisco ouvir que é propaganda da imprensa golpista.

Estamos nos tornando a caricatura dos norte-americanos que negam a mudança climática. Temos até um Ministro de Ciência e Tecnologia que faria o maior sucesso no Kansas ou na Florida. É como se a familiaridade de décadas tivesse sido apagada. Mas há uma diferença na minha autocensura entre os objetos do meu afeto no Brasil. O noivo americano não hesitou em colocar literalmente num mesmo barco o homem público com cargo vitalício e artistas e boêmios. Sabe que os que brindavam à sua felicidade na minha mesa sentem profunda consternação com o legado do homem cuja boa saúde deve mantê-lo em atividade por muito tempo. Meu amigo prefere viver no complicado território em que seu voto aparenta contradizer sua produção intelectual. Mas não cede à tentação do stalinismo afetivo.

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