Autobiografia do papa tem tradução vetada

A tradução brasileira da autobiografia do papa João Paulo II, que deveria chegar hoje às livrarias, simultaneamente ao lançamento na Itália, Polônia, Espanha, Alemanha e França, foi vetada pelo Vaticano. A obra, que comemora os 84 anos do pontífice, teve alterado seu título - Levantem-se! Vamos! - e foram sugeridas modificações na tradução. O livro já estava na gráfica, no fim de semana, quando a editora Planeta do Brasil recebeu o comunicado da Igreja. Ele será lançado na próxima semana como Levantai-vos! Vamos!, tratamento formal mais sintonizado com o espírito conservador do Vaticano. O tradutor Marcelo Gomes revela que adotou a Bíblia pastoral - menos formal que a de Jerusalém -, mas o Vaticano preferiu a última. O Vaticano não vê a mensagem de Jesus (aos discípulos Pedro, Tiago e João no Getsêmani) como dirigida à plebe, mas aos eleitos. "Levantai-vos" é bem diferente de "levantem-se", convite que o papa, no livro escrito em 2003, faz de modo particular aos bispos, num "tempo cheio de provações". "Levantem-se" tem apelo universal. "Levantai-vos", além de mais formal, restringe esse universo a eruditos. Na passagem bíblica em que Jesus, ao chegar sua hora, chama discípulos para a luta (Evangelho de São Marcos, 14,42), a convocação é geral. Ele espera que os discípulos levantem-se e caminhem na mesma direção. O Vaticano quer a Igreja andando na mesma estrada, mas o fato é que o modo autoritário como o papa tem conduzido o rebanho levou muitas ovelhas a procurar formas mais contemporâneas de viver. No livro, o papa enfatiza que participou do Concílio Vaticano II, "impulso muito forte" para a atividade pastoral. Mas não assume que foi contra várias mudanças introduzidas. Diz que não lhe agrada o termo "massa", o que, de imediato, explica a distância do ideário de João XXIII. O papa dos anos 60 imaginava a Igreja participativa, lutando contra injustiças sociais e falando a língua dos fiéis. João Paulo II prefere o termo "multidão", que se aplica tanto às centenas de fiéis que seguiam Jesus como à platéia do teatro que abandonou jovem - um promissor talento, como ele reconhece sem modéstia. Mas a autobiografia é discreta. Karol Wojtyla adorava teatro e chegou a escrever uma peça para um amigo. Também gostava de canoagem, mas ela não combinava muito com o cargo de bispo auxiliar em Cracóvia, que o fez desistir do esporte e dedicar-se à leitura (Hemingway, especialmente). Sobre política, o livro reserva grandes bordoadas para nazistas alemães e comunistas poloneses. O papa dedica ainda bom espaço às relações com a comunidade científica (ótimas, segundo ele; péssimas, segundo os cientistas). Para concluir, revela como fez da Polônia um país de abençoados. De fato, nesses 26 anos de liderança, o papa reconheceu mais de 500 santos (muitos poloneses) e nomeou 226 cardeais. Um recorde em qualquer século.

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