AUTOBIOGRAFIA DO OLHAR

Produção integral da artista carioca Wanda Pimentel, a partir da década de 1960, é apresentada em amplo livro

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h09

"Autobiografia do olhar" é uma expressão cunhada há anos pelo crítico de arte Frederico Morais para falar da obra de Wanda Pimentel. Conhecedor íntimo da produção da artista desde 1966, ele identificou nas pinturas e objetos criados pela carioca uma matriz temática na qual ela está sempre a lidar com a própria "presença-ausência", emoldurando visões de um mundo interior em relação com o exterior.

Em grande parte de suas obras, numa determinada época, a artista "se impessoaliza em fragmentos de seu corpo, mas realizando o que chamei de uma autobiografia do olhar", escreve Morais no texto Cor e Linha, presente no livro Wanda Pimentel (Silvia Roesler Edições de Arte), lançado na semana passada. Entretanto, ao longo de sua trajetória, a criadora abriu-se ainda a outras formulações.

É uma publicação de fôlego, que apresenta e analisa a produção intimista de Wanda Pimentel dos anos 1960 até hoje. Além do extenso texto de Frederico Morais, que vai alinhavando cronologicamente as questões presentes nas pinturas e objetos da artista, o que permite ao leitor estabelecer significações sobre o percurso da criadora, há também uma entrevista realizada este ano com Wanda Pimentel pelo crítico. Mais ainda, a curadora e professora de História da Arte da Uerj Vera Beatriz Siqueira assina uma biografia da artista, na qual define que "na lírica silenciosa, na combinação de delicadeza, intensidade e rigor do gesto criativo, na singeleza poética de suas imagens, na elegância discreta de sua crítica", Wanda Pimentel marca sua importância na arte brasileira. As análises e uma cronologia são ricamente ilustradas com mais de 270 reproduções das obras da carioca, presentes nesta edição bilíngue (português/inglês).

Como conta Frederico Morais, Wanda Pimentel tinha 20 anos e era secretária de um presidente de um pequeno banco quando decidiu, em 1964, frequentar as aulas de pintura de Ivan Serpa no Museu de Arte Moderna do Rio. A instituição "fervilhava" até o início dos anos 70, diz a artista, da mesma geração de criadores como Raymundo Colares, Rubens Gerchman, Cildo Meireles e Antonio Dias.

Interiores. Quando uma vertente pop - diretamente política no contexto da ditadura militar - também se fazia presente no Brasil, Wanda Pimentel criou, a partir dos anos 60, pinturas e obras sobre papel em cores vivas - ou em preto e branco - e com uma figuração chapada que remetia à linguagem pop e irônica do inglês Patrick Caufield, como já foi analisado sobre a obra da artista. Entretanto, a temática dos trabalhos de Wanda sempre foi muito específica e íntima - algumas vezes expressamente fazendo menção a sentimentos de tédio e solidão numa obra autorreferencial.

Inicialmente, interiores de casa, com seus aparatos, "móveis e máquinas que constituem qualquer interior doméstico numa sociedade de consumo", define Morais, são colocados na composição pictórica pelo ângulo de visão de uma mulher - a própria artista -, que também faz parte da cena, representada nos cantos apenas por meio de suas pernas ou pés. "Meu trabalho sempre foi muito rígido, duro. Lembro-me que nunca pintei com alegria. Tudo o que fiz foi de forma dolorosa. Quem sabe, por aí, havia alguma relação com a situação política que vivíamos", afirma a artista na entrevista publicada no livro sobre a criação dos trabalhos de uma de suas mais emblemáticas séries, intitulada Envolvimento.

De certa forma, a relação com a casa (mundo interior) ou com a rua (mundo exterior) foram a tônica das obras que a artista desenvolveu até meados dos anos 1990. Além dos interiores domésticos (vistos de dentro ou da porta da casa) e registros de paisagens pela janela de casa, ela criou obras escultóricas com referência a objetos de chão que fazem parte do espaço urbano, como tampas de bueiros.

Mais adiante em sua trajetória, Wanda Pimentel dedicou-se à criação de pinturas de uma figuração feita com uma pureza densa de linhas e com a limpeza de cores. Sobre fundo preto, a série Invólucro, do fim da década de 1990, remete ao ato de abrir e fechar composições, com menções ao zíper ou a portões. Outro conjunto mais recente, Linha, tem como mote as escadas.

Já agora, em sua obra mais atual, Wanda Pimentel se lançou à Memória, trabalho em que se apropria de objetos e os compõe em caixas, repletos de significações. "Série-relicário", é de "forte componente emocional".

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