Autobiografia de Grass está quase esgotada

A primeira edição da obra "Beim Haeutender Zwiebel" (Descascando Cebolas), autobiografia do escritor alemão Günter Grass, está quase esgotada um dia depois de seu lançamento, em meio à polêmica provocada pela confissão do autor de que fez parte da Waffen-SS, o corpo de elite militar do regime nazista, pouco antes do fim da 2.ª Guerra Mundial.Segundo fontes da editora Steidl, cerca de 130 mil dos 150 milexemplares da primeira edição, colocada à venda na quarta-feira, jáforam vendidos, e uma nova tiragem de 100 mil está prestes a sair.Em entrevista ao "Frankfurter Allgemeine" no sábado, Grass disseque fala pela primeira vez no livro sobre o período de alguns meses que passou na força hitlerista, aos 17 anos.A revelação provocou surpresa, já que até agora nas biografias doPrêmio Nobel de Literatura e Príncipe de Astúrias em 1999 constavaque Grass tinha servido como auxiliar de artilharia no Exército.Polêmica: o ataque de Lech WalesaA confissão despertou opiniões sobre os motivos pelos quais oescritor, considerado a consciência moral da Alemanha, teria secalado por tanto tempo e por que só decidiu falar agora, 60 anosdepois.Em meio à polêmica, chegou-se a pensar na possibilidade de Grassperder algumas de suas distinções, como o Nobel de Literatura. A Fundação Nobel descartou a possibilidade, depois de afirmar queum título nunca foi retirado e não está previsto que possaAcontecer. Da mesma forma a prefeitura de Gdansk também não planeja anular o título de filho predileto da cidade polonesa concedido ao escritor.A sugestão partiu de outro detentor do mesmo título, o ex-presidente da Polônia e prêmio Nobel da Paz em 1983, Lech Walesa. Hoje, ele disse não descartar a hipótese de convidar Günter Grass para visitar Gdansk, cidade natal do escritor alemão. "Poderia convidá-lo para visitar o túmulo do meu pai em Gdansk", disse Walesa. "Não quero condenar Grass pelo que fez quando era jovem e menos ainda devido às coisas boas que fez mais tarde, mas não vejo o porquê do silêncio que manteve por tantos anos, enquanto escondeu o que fez no final da guerra", disse Walesa à emissora de rádio "TOK FM".Salman Rushdie defente GrassO escritor anglo-indiano Salmon Rushdie declarou que considera o Prêmio Nobel de Literatura Günter Grass um dos grandes escritores vivos, em uma atitude de defesa ao escritor alemão, que vem recebendo muitas críticas após sua entrevista publicada pelo jornal "Frankfurter Allgemeine Zeitung", na última sexta-feira.Rushdie disse ao programa "Today" da "BBC Radio 4" que o fato de Grass ter integrado a Waffen-SS é "decepcionante", mas acredita que o trabalho do escritor não deve ser invalidado em conseqüência de um erro cometido na juventude.Alemanha pesquisa credibilidade do escritorPara dois em cada três alemães, a credibilidade de Günter Grass não ficou abalada após a polêmica declaração do autor de "O Tambor" de ter feito parte da Waffen-SS nazista. Pesquisa realizada pelo instituto Forsa para a rede de televisão alemã de notícias N-TV, mostra que 68% dos entrevistados não mudaram a imagem que tinham do escritor, enquanto para 12% ele perdeu credibilidade. O autor, considerado uma consciência política da Alemanha, tem sido apontado agora como "apóstolo de dupla moral".A maioria dos entrevistados (51%) considera que Grass deveria ter contado antes, 29% acreditam que sua confissão chega em momento certo, enquanto para 8% ele deveria ter mantido silêncio sobre este polêmico capítulo de sua biografia.A rigor, não seria uma confissão, pois Grass já teria declarado aos aliados norte-americanos que tinha sido soldado da Waffen-SS no período em que foi prisioneiro de guerra, após a capitulação alemã.As atas do caso estavam abertas à consulta pública nos arquivos da Wehrmacht, em Berlim, mas ao que tudo indica ninguém havia reparado até agora nesses documentos, nem o autor havia falado publicamente sobre o assunto até esta autobiografia.Muitos na Alemanha vêem a confissão de Grass como uma campanha publicitária para promover sua autobiografia, que, a julgar pelas vendas, está dando resultado.

Agencia Estado,

17 de agosto de 2006 | 16h56

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.