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Auto de desistência

Nunca é tarde para começar a aprender coisas diferentes, ainda mais com um ano novo à espreita, mas é também necessário reconhecer a derrota quando ela se apresenta em toda a sua glória. Segue uma lista provisória de Coisas Que Nunca Vou Saber Fazer Direito, Ainda Que Continue Tentando. São elas: 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

28 de dezembro de 2015 | 02h00

1. Nadar. Aos 5 anos, entrei para uma escola de natação, mas me recusava a enfiar o rosto na água (não me parecia um comportamento razoável). Imbuída das melhores intenções pedagógicas, a professora resolveu que me daria um caldo à força. O trauma se faz presente até hoje, ainda que eu saiba o suficiente para não morrer afogada e ficar boiando de costas, à espera de um helicóptero de resgate. 

Aos 25 anos, me inscrevi em aulas de natação numa escola mandaquiense com piscina de 12,5 metros de comprimento, numa turma vespertina que vinha logo após o horário infantil. Tanto a minha falta de fôlego quanto a ausência generalizada de coordenação – e o fato de eu ficar para trás ao apostar corrida com um senhor de 65 anos – me convenceram, enfim, de que nunca serei capaz de realizar a travessia do Canal da Mancha. 

2. Falar francês. E inglês. E, para todos os efeitos, me comunicar com fluência aceitável em português. Certas pessoas simplesmente não possuem os dons mais elementares de oratória e estão fadadas a passar vergonha nas mais diversas situações sociais. É tempo de reconhecer essa realidade e pressionar pela volta dos embates epistolares. 

3. Dirigir. Jamais vou entender por que diabos botaram o breque no meio, tão perto do acelerador. Me recuso a compactuar com tamanho disparate. 

4. Fazer contas de cabeça. Depois que saí da escola, dediquei-me com afinco a apagar da lembrança todo conhecimento matemático e capacidade de abstração que me permitiam resolver contas de cabeça com mais de dois dígitos. Cabe dizer que ainda sei fazer regra de três, mas só no papel. 

5. Sapatear. Sempre me vejo obrigada a estudar exaustivamente as sequências de passos durante a semana, com vistas a fazer apenas má figura no horário de aula. Contudo, quando descobri que o sapateado está praticamente extinto da Broadway, perdi um pouco o estímulo para buscar o estrelato. 

6. A curva para a direita ao andar de bicicleta. Não tenho problemas em fazer conversões à esquerda, mas a situação piora de forma exponencial quando se trata do lado oposto, sobretudo se é necessário fazer uma volta de 180 ou 360 graus. Crianças pequenas choram por solidariedade quando me veem levar tombos nos parques. 

7. Reconhecer estrelas. Sempre que preciso impressionar alguém com minha sabedoria quase indígena de reconhecimento de objetos celestes, a maldita Arcturus some da abóbada e sou obrigada a apontar as Três Marias. 

8. A regra do hífen. Minha revisora pediu que eu incluísse este item, que achei ‘contra-producente’.

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