Auster e Margaret Atwood, a caminho do Brasil

O futuro parece preocupar os escritores Margaret Atwood e Paul Auster - em seu romance Oryx e Crake, recentemente lançado pela Rocco, a autora canadense faz pesadas profecias, em que a Terra é dominada por animais híbridos criados por experiências domésticas - o único ser racional é um "homem das neves". Já o americano, em Noite do Oráculo, que a Companhia das Letras distribuiu nesta semana às livrarias, criou a figura de um escritor que, ao retomar o trabalho depois de um período de convalescença, suspeita que as narrativas que passa a criar contêm uma relação secreta e inexplicável com sua vida e com o futuro e o passado das pessoas que lhe são mais próximas. "Não acho que seja possível prever o futuro", comenta Margaret em entrevista ao Estado. "Esse exercício de futurologia não é função do escritor." Ela admite, porém, que a escrita de George Orwell, que previu o mundo do futuro em seu 1984, sempre esteve presente em sua escrita, especialmente a tirania dos porcos revelada na alegoria A Revolução dos Bichos. Auster, por sua vez, sente a proximidade da própria velhice como fonte de inspiração. "Sinto, neste momento da vida, um inesperado senso de invasão da mortalidade", disse ele, que também conversou com o Estado. Em Noite do Oráculo, Auster cria um habilidoso jogo de perspectivas, em que o leitor acompanha tanto a descrição da rotina de seu escritor como o relato que este cria, impossibilitando detectar com precisão se as histórias acontecem no passado, presente ou futuro. Margaret Atwood e Paul Auster são apenas dois nomes de uma lista de escritores estelares que estarão em Paraty entre 7 e 11 de julho, período que vai durar a 2.ª Festa Literária. Além deles, virão também Martin Amis, Ian McEwan, Miguel Sousa Tavares, Pierre Michon, Colm Tóibín, Jonathan Coe, Jeffrey Eugenides, José Eduardo Agualusa e os nacionais Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro e Luis Fernando Verissimo, entre outros. Paul Auster fala sobre seu novo livro: Estado - Como em seu livro anterior, Livro das Ilusões, Noite do Oráculo trata também da recuperação do ser humano. Por que você decidiu escrever sobre homens que vivem um momento de debilitação? Paul Auster - Bom, primeiro preciso esclarecer que não foi proposital - nos dois casos, a história veio até mim. Livros são como sonhos: não sabemos realmente de onde eles vêm. Eles respondem a uma necessidade profunda, acredito. No meu caso, comecei a pensar: Bem, já não sou mais jovem, começo a ter problemas físicos, futuramente virão as dificuldades de pensamentos e, como não sei exatamente o que fazer, criei esse personagem que também descobre um súbito reconhecimento da proximidade da morte. Em suas histórias, é possível descobrir, nos personagens, aspectos que fazem lembrar você. Em Noite do Oráculo, por exemplo, o velho amigo de Sidney Orr chama-se Trause, que é um anagrama de seu sobrenome. Como isso acontece? Sim, é um anagrama do meu nome mas não sou eu (ri). Trause pertence a uma geração mais velha que a minha e se trata de um personagem totalmente diferente de mim. Ele é um homem nascido nos anos 1920, que lutou na 2.ª Guerra Mundial. Sidney também não se aproxima de mim e não apenas por ser mais jovem. O que me interessou neles, e o que incentivou a explorar suas personalidades, foram suas diferentes trajetórias em dois momentos distintos da vida. Nesse sentido, posso dizer que eles se aproximam de mim, ou seja, meu olhar sobre um homem de 30 anos, ou seja, o que já fui, e outro sobre um homem com seus 60, idade da qual me aproximo. Mas essas pessoas que escolhi para me representar têm uma trajetória imaginária: nada em suas vidas se relacionam com a minha própria. Isso é curioso especialmente em relação a Sidney e à sua mulher, Grace. Apesar de pensar que a conhece bem, ele é surpreendido por fatos inesperados provocados por ela. Isso significa que, no amor, não há certezas? Provavelmente, não. A vida é uma ação contínua, com várias modificações o tempo todo. Isso é um grande mistério. No caso de qualquer tipo de relacionamento, é preciso estar preparado para tudo. É um processo e, por conta disso, os sentimentos mudam. O que o levou a se inspirar na obra de Dashiel Hammett, "O Falcão Maltês"? Trata-se de uma história que sempre me interessou muito. Mas há uma explicação específica. Anos atrás, em 1990, recebi uma carta do diretor alemão Wim Wenders em que confessava admiração pelo meu trabalho e sugeria uma colaboração minha em um filme que ele preparava sobre Hammett. Fiquei interessado na idéia e começamos a trocar idéias. Certo dia, ele disse: "Por que você não se inspira no personagem Flitcroft, de O Falcão Maltês, e cria uma grande história?" Realmente, era esse detalhe que mais me interessava na obra do Hammett. Lamentavelmente, o dinheiro prometido pelo produtor não apareceu e filme não pôde ser realizado. A idéia ficou arquivada na minha escrivaninha até Noite do Oráculo, em que Sidney é movido pelo mesmo impulso e cria Nick, homem que trabalha em uma grande editora de Nova York e que, subitamente, larga tudo em troca de uma nova vida. Bem, essa é a história. Nunca pensei que escreveria um livro com uma trama sugerida por outra pessoa. Alguns críticos gostam de classificar sua obra como "meta-fição". O que pensa disso? Oh, não penso nada. Críticos, jornalistas, estudiosos, todos adoram criar definições e assim taxar obras. Não acredito que minhas histórias sejam fruto de uma análise do exterior, mas, ao contrário, mas algo orgânico. Histórias que emergem do meu inconsciente e determinam para mim qual forma pretendem ter. Elas me dizem como querem que sejam escritas. Daí a diferença entre meus livros, alguns mais complexos em sua forma, outros mais lineares. É verdade que você escreveu a letra de uma música sobre a guerra do Iraque, dias depois que o governo americano entrou no conflito? Sim, é verdade. Chama-se King George´s Blues e a escrevi cerca de um semana depois de iniciada a guerra do Iraque. Eu estava muito revoltado com a situação e não sabia como expressar minha revolta com aquela estupidez. E, na minha frustração sobre a impossibilidade de expressar minha revolta contra a atitude de George W. Bush, escrevi essa letra, que simples e irônica e que acabou musicada por um amigo músico. Era o mínimo que eu podia fazer. 2.ª Festa Literária de Paraty - Mais informações para compra de ingressos podem ser obtidas pelo site www.ticketmaster.com.br ou pelo telefone (0--11) 6846-6000.

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