Ausências sentidas

Detentores dos direitos de Cecília Meireles e Manuel Bandeira não liberaram poemas

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2013 | 02h18

Entre tantos autores selecionados, Adriana Calcanhotto não conseguiu contar com alguns de extrema importância: Cecília Meireles e Manuel Bandeira, cujos direitos de publicação não foram liberados pelos atuais detentores, e Guimarães Rosa, autor de dois poemas escolhidos por ela, mas cuja utilização exigiria um valor financeiro muito alto. "Inviabilizaria a edição do livro", queixa-se.

Dos três, Adriana lamenta menos a ausência de Rosa, por ser conhecido mais como prosador que poeta - Cecília e Bandeira são faltas mais sentidas, ainda que Adriana ofereça um aperitivo na introdução da antologia, em que cita alguns versos de cada um.

Já o trabalho de seleção foi um prazer puro. "Não segui a ordem cronológica, preferindo emendar um poeta no outro", conta ela, totalmente imersa na tarefa. "Fiquei tomada por esse projeto, a ponto de acordar à noite sobressaltada, por não ter incluído nada do Murilo Mendes e Jorge de Lima, por exemplo."

Os processos de escolha foram variados - primeiro, Adriana seguia sua predileção. Depois, fazia uma avaliação oral, quando lia os poemas em voz alta. "Se sentisse falta de ritmo (o que aconteceu com três ou quatro poemas), acabava descartando", explica. "Como sabia que os versos seriam lidos para crianças que ainda não leem, a sonoridade era importante. Mas troquei apenas os poemas, não os poetas."

Outro critério de seleção foram os desenhos para cada poesia, todos feitos a lápis, canetas de mangá e aquarelas pela própria Adriana. Se a leitura não inspirasse sua imaginação pictórica, não era possível incluir o poema na antologia. Foi o caso de um poema de Cassiano Ricardo, que Adriana considerou lindo e que faz referência a um vaso marajoara. "Seria fácil desenhar esse objeto, mas, como eu não queria o óbvio e não me veio nenhuma inspiração, troquei por outro", justifica.

Mesmo utilizando a sensação provocada pela leitura como ponto de partida para iniciar o traço, a compositora confessa que a figura de alguns poetas acabaram se impondo. Foi o caso de Antonio Cicero, representado pelo poema Guardar e cuja ilustração é a de um retrato imaginário que Adriana fez dele. Ou ainda do adorado Mario Quintana, presente com dois trabalhos (Biografia e Canção da Aia Para o Filho do Rei) e representado por um menino com uma meia de cada cor, lembrança que guardou do poeta ao vê-lo quando criança, em Porto Alegre.

"Também criei um divertido furacão pensando no Waly Salomão, que passava essa imagem por ser muito ativo", diverte-se ela, para quem o exercício também é terapêutico. "Desenhar me sossega dos sons da música, me relaxa do trabalho profissional, especialmente quando reproduzo uma criança."

O processo de seleção contou, por fim, com auxílio dos próprios homenageados. Foi o caso de Francisco Alvim, que sugeriu o poema (Zé) incluído no livro - o mesmo aconteceu com Ivan Junqueira (Haicai). "As opções deles eram muito melhores", acredita Adriana, também surpresa com o lirismo da poesia do humorista Gregório Duvivier. "Seus versos conversam bem com as crianças."

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