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Ausência presente

O carnaval deste ano vem carregado de memórias especiais, e não foi preciso ir muito longe para evocá-las

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

30 de janeiro de 2020 | 03h00

Vem aí outro carnaval, trazendo lembranças de outros carnavais, que trazem lembranças de outros, que lembram outros que, por sua vez, lembram outros, e assim por diante - ou para trás, até o primeiro tamborim. O carnaval deste ano vem carregado de memórias especiais, e não foi preciso ir muito longe para evocá-las. Basta lembrar a Mangueira do ano passado, a Mangueira do belo samba-enredo História para Ninar Gente Grande, da Manu da Cuíca e do Luiz Carlos Máximo, e do inesquecível clipe do samba gravado para a TV pela Cacá Nascimento. A Mangueira política, a Mangueira campeã. O começo - imaginaria você - de um levante, ou coisa parecida, contra o esquecimento que ameaçava apagar a Marielle Franco da memória nacional, não como um estorvo, mas como alguém que nunca existiu. 

O samba-enredo da Mangueira de 2019 citava Marielle entre outras guerreiras brasileiras, mas uma das alas do desfile incluía grandes retratos dela, aplaudidos pelo público. Não se espera que uma escola de samba tenha o poder de denunciar assassinos e cobrar justiça a céu aberto, mesmo com um samba empolgante, mas o que desfilou na avenida aquele dia foi a ausência da Marielle, ao som de “Marielle presente” gritado da arquibancada. A ausência presente de Marielle já dura muito. Dura desde o outro carnaval! 

Quem matou Marielle? Quem mandou matar Marielle? Doutor Moro, é com você. Como vai a investigação sobre a morte de Marielle? Alguém sabe? Alguém se interessa em saber? Não é uma vergonha para a nação esse grande silêncio em meio à batucada? Já ouvi o samba da Mangueira deste ano. Fala de um Jesus favelado. É bom, é forte, já está dando briga. Só espero que ninguém se esqueça de, volta e meia, dizer “Marielle presente”. Talvez só o que esteja faltando nas manifestações da avenida seja a insistência.

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