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Aurora dos zumbis

'Guerra Mundial Z' e 'Juan dos Mortos' veem a riqueza metafórica dos filmes de gênero

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2013 | 02h08

Há uma metáfora política em Guerra Mundial Z, o thriller internacionalista produzido e estrelado por Brad Pitt que toma hoje de assalto centenas de salas do País. Em sua busca pela origem do vírus que infecta a humanidade, o agente da ONU (Pitt) vai parar em Israel, que construiu um muro para isolar seus cidadãos. Mas justamente o fervor com que os israelenses entoam cânticos para celebrar seu Deus produz um som que atiça os mortos-vivos e eles formam massas para penetrar na fortaleza inexpugnável. Não existem muros tão altos que não possam ser escalados - e a política de Israel tem sido construir esses muros para segregar os palestinos.

Há uma metáfora social em Juan dos Mortos e o thriller escrito e dirigido por Alejandro Brugués não deixa de ser também internacionalista, senão no conceito - a família que Pitt defende não é só a de sangue, mas inclui um garoto chicano integrado ao grupo -, pelo menos na produção. O Juan do título é um cubano à deriva e, nesse sentido, é o retrato de uma sociedade estagnada.

Quando uma praga infecta a população de Havana e todos começam a virar zumbis, Juan tira proveito da situação - o jeitinho 'cubano' - e monta um negócio para exterminar 'entes queridos'. É um dos tormentos também de Guerra Mundial Z, porque quando Brad Pitt diz ao pesquisador que ele não tem família para defender, o outro responde que não tem porque viu a mulher, ou o que restou dela, atacar o próprio filho.

O horror, o horror. Existe uma diferença de escala e até de objetivos entre Guerra Mundial Z e Juan dos Mortos. O filme de Marc Forster com Brad Pitt ocupa um largo circuito, já o de Brugués - argentino radicado em Cuba - está em cartaz em algumas salas. O americano é o mais caro filme de zumbis da história, US$ 200 milhões. O orçamento fugiu ao controle devido às mudanças de roteiro e à decisão do diretor e do astro de refilmar cenas espetaculares.

A Paramount acreditava ter nas mãos um abacaxi, mas Guerra Mundial Z estreou em primeiro lugar e teve a maior abertura de um filme com Brad Pitt nos EUA. A consequência é que a empresa já anuncia uma Guerra Mundial Z 2. No caso do filme cubano, que também foi estouro no seu país, a realização só foi possível porque a Espanha investiu 2 milhões na produção.

Por mais que a cotação do euro seja superior à do dólar, Juan dos Mortos custou uma pequena fração de Z. Só que os filmes chegam juntos ao cartaz, e com diferentes abordagens da mesma situação. O melhor de Guerra Mundial está no começo, na maneira como o diretor acompanha Brad Pitt na saída de casa com a mulher e as filhas. Existem na TV indicadores de perigo, mas parece um dia comum. Bastam algumas cenas e 15 minutos para que a família se lance ao caos, a um inferno digno de Hieronymus Bosch, inspiração visual para Forster. Há outras boas cenas - a do muro, em Jerusalém, e a do laboratório, com o confronto entre Pitt, o belo, e o zumbi monstruoso. Mas a metáfora do filme apresenta problemas - como a solução encontrada por Pitt de 'camuflar' a humanidade para enfrentar o perigo. O interessante é que há uma internacionalização do conflito, que não fica na velha paranoia da 'América'.

A metáfora social do filme cubano passa pelo humor. É o jeitinho 'cubano', de novo. Numa entrevista por telefone, Alejandro Brugués disse uma coisa relevante - que não pode direcionar o olhar do espectador mais do que já fez em suas escolhas de direção. Ou seja, não pode lhe dizer como ver Juan dos Mortos, mas deixa claro que seu objetivo nunca foi somar sua voz à dos que, nos últimos 50 anos (ou mais), sonham com a derrocada do regime cubano, como se fosse um câncer que é preciso exterminar. Juan dos Mortos nasceu como brincadeira. Ele andava com seu produtor por Havana, olhando as pessoas, todas preocupadas, porque a sobrevivência não anda fácil na ilha. Observou, meio por piada, que seria possível fazer um filme de mortos-vivos com aquela gente, sem gastar muito. E por que não fazemos, perguntou o produtor?

Brugués escreveu o filme sem nenhuma censura, inspirando-se na realidade social à volta. "Transformava os problemas reais em soluções fictícias para o filme." Com o dinheiro vieram especialistas espanhóis em efeitos e maquiadores mexicanos. "Nós nos divertimos muito filmando." Uma metáfora da dificuldade de viver em Cuba? Só se for social - "A menos que você me diga que George Romero, fazendo aqueles filmes, também quer a derrocada dos EUA". Brugués está louco para ver Guerra Mundial. Ele adora o livro de Max Brooks que inspirou Marc Forster e Brad Pitt. O livro não tem um herói nem um ponto de vista, são relatos superpostos, por meio de flashbacks e o tom é de paródia. Brugués sabe que o filme dos gringos não tem muito a ver com o livro, mas não faz mal. Ele adora um morto-vivo. O público, pelo visto, também.

GUERRA MUNDIAL Z

Título original: World War Z.

Direção: Marc Forster

Gênero: Terror (EUA/2013, 116 minutos).

Classificação: 12 anos.

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