Aurora das discussões

Tiradentes inicia com homenagem a Selton Mello a mostra mais autoral do País

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2012 | 03h07

Tiradentes foi muito atingida pelas chuvas que se abateram sobre Minas nas últimas semanas. Houve deslizamentos na cidade histórica, mas hoje, ainda lambendo suas feridas, a cidade se engalana para sediar sua mostra de cinema brasileiro. Um catálogo será lançado para lembrar estes 15 anos de história. Uma década e meia parece pouco numa cidade - e região - que tem séculos de existência, mas Tiradentes já marcou seu espaço no cinema brasileiro contemporâneo.

A festa de hoje à noite é especial. A 15.ª Mostra de Tiradentes será inaugurada com uma homenagem especial a Selton Mello, o ator que deu uma cara ao cinema brasileiro da Retomada. Mas o filme selecionado para a homenagem não é O Palhaço, que Selton dirigiu e interpreta e com o qual provou que a terceira via é possível no cinema do País. Não só o cinema miúra, de autor, e o blockbuster descerebrado. Há público para um cinema brasileiro autoral, sensível.

Essa defesa da terceira via - que Pascale Ferran já havia feito na França, ao receber o César, o Oscar francês, por Lady Chatterley - foi formulada por Selton Mello no set de Billi Pig. Justamente o novo longa de José Eduardo Belmonte, que ele interpreta, foi o filme escolhido para a abertura de Tiradentes, 2012.

Aqui, cabe destacar uma coisa. Existem outros festivais importantes de cinema brasileiro. Os de Brasília e Gramado competem não apenas em longevidade, mas também pelo perfil político de um e pela preocupação (restaurada) do outro de sediar a produção autoral brasileira e latino-americana. Recife tem aquele namoro com o público. E Tiradentes? É o festival da crítica.

A mostra é parte de um tripé armado pela empresa mineira Universo Produção. Em janeiro, Tiradentes - e, dentro da programação, a Mostra Aurora - pretende ser a vitrine da produção autoral mais radical (alternativa?), abrigando debates que se referem não só aos filmes e seus autores, mas ao papel da própria crítica. Mais para o fim do ano, a Mostra Cine BH abre-se mais para o mercado, e inclusive para a possibilidade de inserção do cinemas que Tiradentes celebra. Entre ambas, no meio do ano, no inverno, a Mostra de Ouro Preto privilegia a memória do cinema.

Tudo pronto - e já se sabe que este ano estarão em Minas importantes olheiros de festivais internacionais. Anne Delseth, que integra o Comitê de seleção da Quinzena dos Realizadores, do Festival de Cannes; Paolo Moretti, do Festival de Veneza; Federico Veiroj, do Festival de San Sebastián, etc. Não será nenhuma surpresa se saírem das grotas mineiras filmes que agitarão a Croisette, o Lido. Mesmo que isso não ocorra, já serão agraciados com os debates (e o bochincho) que vão provocar em Tiradentes.

São diversas mostras - a Aurora, com curadoria de Cléber Eduardo, no Cine-Tenda, é a mais importante, mas existem também as mostras Olhares e Vertentes. A primeira é de pré-estreias, a segunda contempla filmes já exibidos (e até premiados) em outros eventos; a terceira faz um mix e este ano exibe o longa póstumo de Alberto Salvá, Na Carne e na Alma. Simultaneamente, ocorrem as exibições mais populares do cinema na praça e o tripé de Tiradentes se completa com o Cine-Teatro, onde ocorrem os encontros, as discussões e algumas projeções (em geral, dos filmes de homenageados). O tema geral da 15.ª edição é O Ator em Expansão. Ninguém melhor para ilustrá-lo do que Selton Mello, o homenageado de hoje.

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