Auréola de santo é furtada da Mostra Brasil +500

A Mostra do Redescobrimento, exibida em três pavilhões do Parque do Ibirapuera, ganhou um componente inesperado. Um mistério: quem furtou o resplendor de prata da imagem de São João Evangelista? O resplendor, que faz as vezes da auréola, é uma peça acessória e provavelmente não era original. Seu valor é baixo: de R$ 400 a R$ 900, pela estimativa da própria direção do evento. O peso maior de sua ausência está em outra pergunta que fica no ar: a mostra é segura? A direção diz que sim. A segurança tem que ser exercida de acordo com as exigências contratuais de quem está emprestando a obra. Isso inclui câmeras expostas, câmaras ocultas, censores eletrônicos, homens "e outros recursos que não podemos revelar". Quanto ao último item, pessoal de imprensa constatou que certo número de seguranças e até bombeiros vêm sendo dispensados. O porta-voz da direção não viu problemas: "Tudo está de acordo com as exigências." No entanto, admitiu que a segurança terá "reforço e readequações". "Para já." "Tínhamos tudo o que devíamos ter, mas assim mesmo saiu o resplendor." Se saiu o resplendor, não poderia sair uma imagem (não a de São João Evangelista, que tem perto de 60 cm)? O porta-voz cita ataques a obras, como a tinta que uma mulher jogou em um Renoir, no Museu de Arte de São Paulo, Masp, como "o imponderável". Quanto ao campo das probabilidades, avalia como "praticamente impossível" uma obra ser levada da mostra. Auréola barroca - O resplendor está para os santos barrocos como a auréola para outros santos. Mas ele não faz parte da imagem. É colocado sobre ela - , sobre a cabeça do santo - quando este fica exposto, por exemplo em igrejas. No caso em questão, o resplendor era um pouco maior do que a cabeça do São João Evangelista, trazido do Museu Mineiro, do governo de Minas. Colocou-se um pouco de cera, para ajustá-lo. Mas era uma peça facilmente removível. O espaço destinado à arte barroca, onde estava exposta, fica no térreo do prédio da Bienal. É um lugar onde grandes zonas escuras se alternam com áreas bem iluminadas. O santo com o resplendor estava em uma dessas faixas de sombra, bem perto da entrada. O que também significa bem perto da saída. Um oportunista poderia empalmá-lo num gesto rápido, escondê-lo em uma bolsa (ou sob as roupas) e sair. Ontem, quando o JT esteve lá, havia três guardas em lugares distintos do espaço e um quarto à porta, do lado de fora. Fitas nada mostram - A direção da mostra já viu as fitas gravadas pelas câmaras de segurança, mas não encontrou a cena do furto. O sumiço do resplendor foi notado no sábado, pela equipe de manutenção. Ontem à tarde, voltou a surgir uma possibilidade, a de que a peça tivesse sida apenas retirada pela equipe de restauro. Houve uma certa agitação, que terminou quando a perita responsável restaurou o mistério: o resplendor chegou à mostra separado de seu santo, mas recebeu a cera e foi colocado na imagem. A polícia, no entanto, não foi chamada para este caso. A direção da mostra abriu um inquérito admistrativo e diz que isto satisfaz às exigências da empresa que segurou a peça. Um novo resplendor está sendo procurado, para repor a perda. O porta-voz da direção diz que não há preocupação em termos de valor histórico, porque os resplendores acabam sendo substituídos ao longo do tempo.

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