Aumenta que isso aqui é ouvido de macho!

''O heavy metal, por exemplo, você só curte realmente se for peludo, tatuado e, de preferência, quando estiver junto a outras centenas de peludos tatuados''

Helio de La Peña, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

Você está se preparando para encontrar uma gata. Toma banho, se arruma e separa os CDs que vai ouvir no carro. Até chegar à casa da menina, está livre para curtir o que bem entender. Pode ser Metallica, Megadeath ou um hip hop bem escatológico, cheio de baixarias. O problema é selecionar o que vai colocar no aparelho quando ela abrir a porta do carona. Você sabe que se mantiver a mesma trilha no mesmo volume, vai voltar pra casa sozinho para ouvir suas zoeiras na companhia do elenco do Sexy Hot, que nunca reclama de nada.

Já repararam como é difícil flagrar uma mulher ouvindo música em alto volume num carro? Ela pode estar sozinha num engarrafamento que não a vemos balançando a cabeça freneticamente, com a veia do pescoço saltando. Talvez até façam isso, mas basta a gente olhar que elas rapidamente põem o CD da Norah Jones pra tocar bem baixinho e embalam suavemente a cabeça, de olhos semicerrados.

A "música de macho" é incompreensível para as fêmeas. O heavy metal, por exemplo, é música de alto grau de testosterona, que você só curte realmente se for peludo, tatuado e, de preferência, quando está junto de outras centenas de peludos tatuados. Não é o tipo de música que se use para atrair uma mocinha perfumada. Você pode até encontrar uma mulher igualmente tatuada interessada na sonzeira mas, ao invés de ir pra cama, ela pode ficar mais inclinada a aceitar um convite pra te encher de porrada num tatame. Nada contra, tudo é uma questão de momento.

Outro som difícil de convencer sua namorada a curtir com você é o daquelas bandas dos anos 70, tipo Yes, Emerson Lake & Palmer, Rush ou Pink Floyd, antes da fase mais comercial. Hoje podem ser representadas pela Dream Theater ou pelo impronunciável Yngwie Malmsteen. Costumam tocar músicas de no mínimo vinte e cinco minutos de duração, cheias de longos solos com o maior número de notas que o virtuoso tecladista ou guitarrista conseguir entulhar num único compasso. O sonho das mulheres é que, num surto de romantismo, você consiga se ater às preliminares num tempo equivalente ao solo da sua banda predileta. Sem ter que ouvir a sua banda predileta!

O hip hop, usado com moderação pode ser tolerado por uma mulher. Desde, é claro, que ela não saiba o que o 50 Cent ou o Snoopy Doggy Dog estão falando. Aliás, determinadas letras, se traduzidas, podem provocar a ira de feministas talibãs e resultar num espancamento sumário do inocente apreciador de rap.

Você também não vai fazer muito sucesso ao convidar uma mina pra ouvir sua coleção de CDs dos Racionais MC''s. Tem horas na vida que as questões sociais da sociedade opressora devem ser deixadas de lado, ou vai acabar varando a madrugada enchendo a cara numa birosca com "os mano".

As mulheres, por seu lado, também devem colaborar. Se ao conhecer um garotão ela apertar o "play" do seu I-Pod e obrigá-lo a uma sequência de Back Street Boys, Jonas Brothers e Michael Bolton, a chance de desencalhar naquela noite vai por água abaixo. Ele pode achar que se trata de um teste e tirar o time de campo. Ou pode realmente servir de teste. Caso ele se empolgue, tire a camisa e comece a girar sobre a cabeça, é o sinal para você dar uma desculpa, lembrar que tem que voltar correndo pra casa porque esqueceu de botar comida pros peixinhos do seu aquário.

Existem algumas ciladas musicais. Escolhas que podem dar certo com um tipo de garota ou ser um equívoco completo com outras. Roberto Carlos na hora h, por exemplo. Muitas vezes soa perfeito, um clássico que abrevia a cantada. Assim como pode parecer total falta de imaginação. Uma seleção de baladas dos anos 80 já fez muito sucesso quando você tinha vinte e poucos, trinta anos. Hoje pode comprovar um atraso sexual de uns vinte e poucos, trinta anos. Um CD do Bob Marley pode afugentar uma gatinha careta: "O que esse cara andou fumando?"

Um amigo meu me contou que tinha um set list infalível. Mesclou João Gilberto, Jack Johnson, Marvin Gaye, Marisa Monte e Curtis Mayfield. Tudo na medida certa, variando e mantendo o clima, alternando poucas manjadas entre achados raríssimos. Não tinha como dar errado. Até que um dia...

Sua namorada chegou no seu apê de surpresa. Ao sair do elevador, reconheceu a trilha já em andamento. Nem bateu na porta. Sumiu de vez. Deixou apenas um recado: "Olha, nunca cobrei nada de você, muito menos exclusividade. Mas usar o nosso set list com uma mulher qualquer é traição imperdoável."

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