Aulinha com Faustão

Apresentador quer estimular público da TV aberta a se interessar pela arte

João Fernando, de O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2012 | 02h11

  

 

Claude Monet, Vincent van Gogh e Tarsila do Amaral jamais teriam imaginado que, um dia, dividiriam o mesmo espaço com Michel Teló, Gaby Amarantos e outros cantores populares. Fã de arte refinada, Fausto Silva, de 62 anos, promoveu o 'encontro' inusitado. Há mais de dois anos, ele mostra no telão do Domingão do Faustão pinturas de artistas consagrados e até jovens como Osgemeos e ensina o público quem são eles. Em conversa com o Estado, no qual foi repórter de esportes, o apresentador fala pela primeira vez sobre a iniciativa, conta como escolhe o figurino que chama tanta atenção e revela que faz sucesso na alta sociedade.

Por que mostrar quadros de artistas clássicos no telão?

O Domingão foi o primeiro programa a ter um vídeo wall (telão). Já houve a tentativa de exibirmos imagens do Brasil para resgatar a autoestima do País. O lema aqui é renovação constante e satisfação permanente. Se você não tem isso, não consegue durar tanto tempo, principalmente com o retorno publicitário que tem o programa. Em uma conversa com o (ex-diretor) Ulysses Cruz, resolvemos mostrar livros. Com isso, conseguimos despertar nas pessoas o interesse pela literatura em um programa popular. Falamos que precisávamos fazer algo de arte no telão.

Você precisa ser didático?

Claro que não vou fazer dissertação sobre impressionismo nem os estilos e as fases. Isso você joga em doses homeopáticas para despertar o interesse. No site, há mais informações. Sempre puxamos alguma coisa da história de cada um. Estamos vendo como fazer com esculturas.

Você também já fez número de música clássica. Vai retomar?

Fizemos um número do Tchaikovsky com os meninos de Paraisópolis. Nós nos baseamos na história (do artista), pois, geralmente, é um cara de origem humilde ou alguém que consegue superar uma adversidade.

Como é a escolha das obras?

Há um crivo para não virar ação entre amigos. Os herdeiros têm interesse em mostrar a arte para o maior número de pessoas. O (diretor) Adriano Ricco tem a humildade de pedir ajuda a críticos de arte. Se conseguirmos 10% do público com interesse de ir a uma exposição ou a um museu, já valeu.

Já ouviu bons comentários após o projeto?

Existe preconceito. Eu já fui cult no Perdidos (na Noite). Agora, eu sou gerente de supermercado.

Os artistas que cantam no programa comentam?

Eu não tenho contato com eles fora. Até hoje, não teve um que olhou para trás e falou.

No momento da arte, a audiência importa?

Meu estilo não tem a ver com o dos concorrentes. Não tenho por que ver o concorrente, pois não devo, não quero e não posso fazer o que o concorrente faz.

O fato de você ter boa audiência o deixa acomodado?

Não. Essa história de que em time que está ganhando não se mexe é errada. Você tem de se mexer, tem de atender todas as classes e idades, ainda mais no domingo, um dia complicado. A TV é chata no domingo, é para quem não tem dinheiro nem o que fazer. Eu trabalho no domingo por isso. O domingo é chato. Para quem pode viajar e passear, o domingo é maravilhoso.

Nas férias, você vê televisão aos domingos?

De jeito nenhum. Faço 52 domingos, sendo 12 gravados. É a chance que tenho para viajar. Eu ando também para ficar com este corpinho, só a operação (de redução do estômago) não dá.

Está com restrições?

Não. Como nunca bebi nem fumei, para mim foi menos difícil. Quem gosta de comer mesmo e bebe tem de pensar muito. Tem muito garoto de 25 anos indo para a cirurgia. Ela é para pessoas com mais de 50 anos que já tentaram (emagrecer). Tem gente que acha que vai emagrecer e ficar lindo. O médico faz operação no estômago. Milagre, não. Para a minha saúde foi ótimo, fiquei com mais disposição. Eu como de tudo.

Seus amigos são das classes mais altas. Eles te assistem?

Todo mundo assiste e comenta. O preconceito é geral. A Globo é voltada para a dramaturgia. A linha de shows segue porque dá muito faturamento, além de audiência. Mas é o primo pobre. Quando saí do Perdidos, sabia que iria enfrentar isso. O Perdidos era cult, meio marginal.

Você gosta dos artistas que cantam no Domingão?

Meu gosto musical não é o que apresento. Eu faço programas para eles (público), não faço para mim. Esse é o segredo. Tem gente que faz programa em função do próprio ego. Eu sou o intermediário.

As camisas que você usa no ar geram muitos comentários. É você que escolhe?

Só uso camisas que vão chegar aqui daqui a anos. Tem um tal de Angelo Galasso, o maior nome da moda masculina, mas ninguém sabe. Já usei camisa xadrez, listrada, polo, jeans, florida... Eu uso e acabou. Se você não tiver um mínimo de segurança para isso, não vai se expor em um programa de TV. Não estou nem aí. Antes, eu usava calça 58, hoje uso 44. Uso o que gosto. Eu trago moda de Londres, por exemplo. Os caras daqui têm preconceito, é só cinza e preto, moda funerária. Eu passei a vida inteira sonhando em usar roupas assim, mas não serviam. Todo gordinho sabe do que estou falando.

Você traz as suas roupas?

Falo o que vem à cabeça e não uso ponto eletrônico. A roupa é minha e o sapato é meu. A Globo não gasta nada. O bom ou mau gosto, para quem achar, é meu. Tem amigo da alta (sociedade) que pergunta onde comprei.

Com 62 anos você não tem nenhum fio branco na cabeça.

Não foi a natureza, foram os laboratórios. Hormônio eu não tomo, depois engorda. É uma tintura para não ficar aquela graúna preta nem aquele acaju de mico-leão dourado.

Agora, suas bailarinas não dançam apenas.

Elas não só falam, mas participam de ações comerciais e cantam. Elas dão opinião. Quase 90% têm curso superior. Temos algumas de nível internacional, que passaram pelo Bolshoi. Para minha surpresa, algumas já dançaram no Teatro Municipal e outras em Viena.

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