Leo Aversa/Divulgação
Leo Aversa/Divulgação

Aulas de fofoca típica do século 18

Em tom de comédia, A Escola do Escândalo, escrita em 1777, faz dura crítica à sociedade e a seus valores frágeis

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2011 | 00h00

Quando ainda estudava Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Miguel Falabella se deparou com um texto que julgou incrível, escrito em 1777, mas atemporal: a comédia de costumes A Escola do Escândalo, do dramaturgo irlandês Richard Brinsley Sheridan, crítico duro da sociedade impregnada de valores frágeis em que viveu. Eram cinco atos, 23 personagens, e ainda assim o jovem se aventurou a traduzi-lo.

Ele se tornou ator, autor de teatro e TV, diretor, mas o texto continuou na gaveta. "Sempre tive pudor de montá-lo. Mas é muito melhor ouvir Sheridan do que não ouvir", acredita Falabella, que, agora com 30 anos de sucessos a lhe respaldar, estreia o espetáculo nesta sexta-feira, no Teatro Tom Jobim, no Rio, onde deu entrevista, na semana passada.

"A peça mostra que não evoluímos tanto no costume social. A maledicência e a avacalhação continuam aí. É um privilégio poder fazer esse texto, a essa altura da vida, com esse grupo de amigos. Estamos resgatando a mística do teatro, que se perdeu com o tempo. O teatro tem que ser encantador." Ele assina a tradução, a adaptação e a direção. Os amigos são Maria Padilha, Ney Latorraca, Jacqueline Laurence, entre outros.

É a primeira encenação no Brasil de uma peça que nunca foi esquecida nos países de língua inglesa - em maio, ganha o Barbican Theatre, em Londres. A iniciativa começou com um desejo de Maria Padilha de voltar a fazer teatro com Falabella - seu primeiro parceiro profissional, um amigo desde o fim dos anos 70 -, e de estar mais uma vez ao lado com Ney, trazido aos palcos depois de um intervalo de sete anos, que vive seu marido.

Os três se associaram e viraram produtores da peça, que tem ares grandiosos: figurino (de Emília Duncan) e visagismo (Rose Verçosa) caprichados, com muitas saias rodadas, perucas e maquiagens carregadas, e cenários (Linha Renha) elaborados, em que se destacam três espelhos de três metros de altura por 1,2 metro de largura, nos quais o público também consegue se enxergar, além de dois suntuosos lustres.

"Fomos absolutamente impecáveis com relação ao século 18. É o nosso tableau vivant", apresenta Falabella. "Ele tinha medo, porque é uma peça muito cara. Mas conseguimos baratear, pegamos móveis em consignação, fizemos permuta com fábricas de tecido. Esse é um jeito muito bom de fazer teatro", vibra Maria, que inicialmente pensara ser interessante estrear em 2009, quando se completaram 30 anos do primeiro trabalho dos dois.

Seu personagem é Rosália, uma nova rica, mulher fútil e deslumbrada que sai do campo para a corte e só quer saber de gastar o dinheiro do marido, o comendador Pedro Atiça (Ney), com toda sorte de bobagem feminina. Heroína da história, ela acaba por perceber que tudo aquilo não a levará a lugar algum. "Mas não é uma peça moral", ressalva Maria, que falou ao Estado em meio à prova de maquiagem e peruca.

O comendador é o único que não cultiva o hábito da fofoca - é o homem de caráter que difere dos demais por não sucumbir à maldade. É tio de Maria (Bianca Comparato), cuja mão é disputada por um jovem bom, Carlos (Armando Babaioff) e outro mau caráter, José, seu irmão (Bruno Garcia). Dona Benferina (Rita Elmôr), tia dos dois, se dedica a acabar com a reputação de Carlos, com a ajuda de outros personagens que adoram intriga, como Dona Cândida (Jacqueline Laurence).

"Maledicência, meus caros, não se aprende na escola. Mais difícil é ensinar um menino a jogar bola!", Sheridan já anuncia no prólogo. "Uma palavra dita, uma reputação morta!", reclama o comendador.

Adaptação. Os tipos são os que frequentavam a Londres do fim do século 18. Falabella não localizou geograficamente a peça. "Poderia ser num arraiá aqui no Brasil." Ele lembra que resolveu dedicar-se à tradução, na faculdade, porque via a preguiça dos outros diante do calhamaço em um inglês ultrapassado. A ideia de montá-lo adormeceu - "um dia, quem sabe..." À época, já escrevia compulsivamente. Guardava tudo em pastas de cores diferentes. "Eu tinha um Window antes de o Window existir...", ri.

Os cinco atos foram reduzidos a três, os personagens, a dez. Para Ney, é uma deliciosa volta a seu lugar preferido - o último espetáculo havia sido também com Falabella, Capitanias Hereditárias. "Eu nunca tive essa preocupação com quantidade de montagens. Nesses sete anos, cuidei de mim, parei de fumar, mudei de casa. Estou me sentindo como se estivesse saindo agora da Escola de Arte Dramática de São Paulo. Teatro não tem gentalha", diz o ator. "A qualidade do teatro é ser imortal, e esse texto é muito atual, no mundo de fofoca e celebridades em que vivemos. Não por acaso está estreando também em teatros de Londres."

Os ensaios vêm de janeiro, e atropelaram o carnaval. O processo mostrou que teatro é a maior diversão: as risadas começaram já nas leituras. "Somos ratos de teatro. As pessoas com que se trabalha são o mais importante. Você pode ter os espetáculos no currículo, mas o que fica na sua vida é Miguel, Padilha, Jacqueline", emociona-se Ney.

QUEM É

RICHARD SHERIDAN

DRAMATURGO, POETA E POLÍTICO IRLANDÊS

De família teatral, nascido em Dublin (1751-1816) e criado em Londres desde os 7 anos, tornou-se dono do Teatro Drury Lane. Lá, estreou, aos 25 anos, The School for Scandal, uma de suas peças mais remontadas desde então. Foi membro do Parlamento. Sua obra é comparada à de Molière e Oscar Wilde.

A ESCOLA DO ESCÂNDALO

Teatro Tom Jobim. Rua Jardim Botânico, 1.008, tel. (21) 2274-7012. 6ª e sáb., 20h30; dom., 20 h. R$ 80. Até 6/6.

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