Aula magna de Charles Lloyd

No recente CD Mirror, ele visita praticamente todas as linguagens afro-americanas, com toques orientais

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

A meditação transcendental entrou em sua vida nos anos 70. Quando tocou por um tempo com os Beach Boys na iluminada Califórnia dos anos 70, todo mundo pensou que o saxofonista Charles Lloyd deixara definitivamente o mundo do jazz e abraçara rotas mais comerciais, após revelar ao mundo, na década anterior, dois formidáveis músicos como o pianista Keith Jarrett e o baterista Jack DeJohnette (ambos integrantes de seu quarteto). Lloyd, porém, retirou-se de repente da cena jazzística e passou a sobreviver espartanamente das aulas de meditação transcendental.

Houve quem dissesse que a opção não fora assim tão espiritualista. A aposentadoria precoce teria ocorrido por consumo excessivo de drogas. É possível. O fato é que ele só ressurgiu musicalmente no fim dos anos 80, quando retornou a Nova York e gravou seu primeiro CD para a ECM de Manfred Eicher, por indicação de seu ex-pianista Keith Jarrett, já então alçado à condição de superestrela da gravadora alemã.

Hoje, aos 72 anos e cerca de duas décadas depois, acumula uma imponente plataforma de gravações e shows por todo o mundo. Jamais negou a influência esmagadora de John Coltrane em seu toque; mas foi dos poucos a não fazer clonagem e sim uma forma de libertação. De Coltrane, Lloyd importou o gosto pela espiritualidade, o interesse pela música modal, até cacoetes ao improvisar, como as famosas guirlandas de notas e os "trêmolos" do mestre. O tom religioso, ritualístico, de algumas composições roça em traços, sutilmente é claro, a obra-prima contracena My Favorite Things. Também adora explorar sobretudo a região aguda do instrumento, aproximando-o o máximo possível do sax-soprano.

O retrato de Lloyd só fica completo, porém, se se acrescentar que ele tem um faro incrível para detectar pianistas raros. Depois de "descobrir" Jarrett, também teve em seu quarteto tecladistas do quilate de Bobo Stenson (excepcional pianista sueco que também grava atualmente para a ECM), Brad Mehldau e Geri Allen. E, imaginem, o atual pianista do seu quarteto atende por Jason Moran - simplesmente o responsável pelo melhor CD de trio-jazz de 2010 (Ten, Blue Note). No contrabaixo está Reuben Rogers (ex-Wynton Marsalis, Joshua Redman, Nicholas Payton, entre outros). E na bateria, Eric Herland (ex-McCoy Tyner, Terence Blanchard e Dave Holland, entre outros), que também é pastor batista.

Mirror, o mais recente CD desse quarteto liderado por Charles Lloyd para a ECM, é uma autêntica aula de meditação jazzística, com direito a requintes surpreendentes. O líder apascenta seus comandados, todos na casa dos 30 anos, e os leva a visitar praticamente todas as linguagens da música afro-americana, sem esquecer pitadas orientalizantes.

Um crítico detectou que Lloyd sempre refaz a cada gravação ou show sua autobiografia musical. Tem razão. Mirror não foge à regra. Estão lá dois spirituals célebres. Primeiro, Go Down Moses, com cheiro de música tribal no começo só com sax secundado pelas baquetas de Harland; depois, Lift Every Voice and Sing, o hino nacional negro nos EUA desde 1905, quando foi cantado por 500 alunos negros numa escola segregada para celebrar o aniversário de Abraham Lincoln. Tocá-la ou cantá-la é até hoje um ato de fé na liberdade. Pois a versão de Lloyd, se começa limpinha, mergulha em seguida no caos do improviso coletivo, contradizendo a letra.

Improvisos. O guru de Moran, Thelonious Monk, assina outras duas canções. Em Monk"s Mood e Ruby, My Dear, o pianista, nascido e crescido monkiano, faz improvisos distantes de seu guru - e consegue a proeza de internalizar o espírito de ousadia e liberdade de Monk, sem se prender a cacoetes ou clichês. Magnífico Moran.

A fase de Lloyd não é, entretanto, de grandes comemorações. Ele injeta doses maciças de nostalgia na leve e originalmente ensolarada Caroline, No, que os Beach Boys gravaram quando ele andou tocando com os meninos pop californianos nos anos 70. E assina a também soturna, mas bela Desolation Sound.

A aula magna só poderia terminar com um toque indiano. Em Tagi, o próprio Lloyd recita um longo poema do Bhagavad-Gita sobre floreios místicos do piano e do contrabaixo tocado com arco, além de um profundo zumbido vocal não-identificado emitido por Harland. A música dura pouco mais de nove minutos - metade é consumida pelo tedioso poema; a outra metade é só pomposa. Esotérico - mas totalmente dispensável.

CHARLES LLOYD QUARTET

MIRROR

R$ 70,40

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.