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Aula de história

Precisamos da ajuda de Napoleão para nos livrarmos da obrigação de estudar em Coimbra

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2019 | 02h00

O professor de história entra, sorridente, na sala de aula, deposita uma pasta sobre a mesa e vai direto para o que no seu tempo de estudante chamavam de quadro-negro e agora é verde. Sem hífen, quadro negro são duas palavras separadas, um substantivo e um adjetivo, usadas para qualificar uma situação ruim, que tanto pode ser a saúde periclitante de alguém, a economia do Brasil ou apenas uma pintura de Romero Britto. 

Na também chamada lousa o professor escreve, com um toco de giz, oito números, verticalmente enfileirados: 1538, 1551, 1580, 1586, 1621, 1678, 1721 e 1723.

“Estes números são datas, anos”, explica. “Em cada um desses anos, criou-se uma universidade na América Latina. Às vezes, duas, como ocorreu em 1551, quando surgiram as primeiras universidades de Lima, no Peru, e da Cidade do México, e em 1721, quando foram fundadas as universidades de Havana, em Cuba, e Caracas, na Venezuela.” Apontando para o ano de 1538, o professor ensina: “A primeira de todo o continente foi construída na ilha de São Domingos, no Caribe, ao lado de Cuba”.

Aí deu uma pausa, logo retomando a lição: “Dez capitais da América Espanhola tiveram universidades antes do Brasil. Além das citadas, Bogotá, Quito, Santiago, Guatemala e Assunção. Quase um século depois da última desta lista, a paraguaia, é que ganhamos nossa primeira organização de ensino superior, a Academia Real Militar, dois anos após a chegada da corte portuguesa ao Rio, em 1808. Ou seja, precisamos da ajuda de Napoleão para nos livrarmos da obrigação de estudar em Coimbra”.

Antes que algum aluno lhe perguntasse se Bonaparte financiara a construção do pioneiro estabelecimento acadêmico real e militar, o professor explicou: “Como vocês sabem ou deveriam saber, d. João VI e sua corte fugiram para o Brasil por medo da invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas. Foi nessas circunstâncias que ganhamos nossos primeiros cursos superiores. Mas antes de uma universidade igual às das capitais latino-americanas vizinhas, tivemos uma academia militar e uma escola de cirurgia, na Bahia.”

Algum aluno mais perspicaz poderia ter argumentado que, apesar da demora no aprimoramento do ensino nestas paragens, afinal criamos universidades de reconhecida excelência, como a USP, por exemplo, e nenhum país do sul do continente tornou-se uma potência cultural e científica por ter construído universidades antes de nós.

Mas como ninguém na turma levantou essas questões, ficou no ar a impressão, não de todo equivocada, de que nossa educação nunca se recuperou direito do atraso com que foi implantada sem a canga jesuítica.

“Nosso atraso não se restringe ao campo do ensino”, prosseguiu o professor. “Demoramos a tomar providências necessárias num bocado de coisas. Somos uma nação com vocação para o atraso, uma nação atrasada.”

De volta ao quadro, o professor apagou as dez datas ali arroladas e, no mesmo espaço, acrescentou duas: 1794 e 1888. E, já de frente para os alunos, falou: “Poderia acrescentar mais uma dúzia de datas, pois entre estas duas aqui quase 20 países americanos aboliram a escravidão, alguns quase simultaneamente. Haiti deu a partida, em 1794, no bojo de uma revolução anticolonialista e antiescravocrata deflagrada e vencida por sua população negra. Ou seja, os haitianos não se livraram da escravidão por um decreto lavrado pela elite branca da ilha, mas lutando por sua independência do domínio francês”.

Enquanto dirigia o olhar de volta ao quadro, acrescentou: “A última data se refere à nossa Lei Áurea e identifica o último país do Novo Mundo a libertar seus escravos. Outro atraso em relação a todas as repúblicas ao redor de nosso solitário império”.

Apagando a lousa, o professor começou a explicar por que juntara os dois atrasos, o da educação e o do fim da escravidão. Ambos, segundo ele, explicariam o Brasil, nosso passado e nosso presente, nosso arraigado racismo e tantas outras mazelas.

“Um sujeito nascido na Espanha, depois naturalizado americano, George Santayana, disse, há mais de um século, uma das frases mais bonitas e verdadeiras que já li: ‘Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la’, frase que eu, aliás, não me canso de repetir.”

Tirando de sua pasta um livro de quase 300 páginas, continuou: “Por acaso reencontrei essa frase do Santayana numa das epígrafes deste livro aqui. Anotem seu título: Sobre o Autoritarismo Brasileiro. Foi escrito pela historiadora Lilia Moritz Schwarcz e acaba de ser lançado. Adotei-o como nossa leitura do mês, quem sabe do semestre, pois se encaixa à perfeição nos objetivos do nosso curso”.

Com uma rápida folheada até a página 223, o professor detém-se na epígrafe que abre o último capítulo, dedicado aos nossos fantasmas do presente, e a lê, sem disfarçar seu deleite: “O Brasil tem um enorme passado pela frente’. Esta é do Millôr Fernandes e resume tão bem as intenções do livro quanto a do Santayana”.

As raízes de nosso racismo, de nosso mandonismo, de nosso patrimonialismo, da corrupção, desigualdade social, violência e intolerância que diariamente testemunhamos – enumera o professor, percorrendo com o dedo o sumário – “estão todas neste livro, examinadas e historiadas pela autora. Embora ela faça frequentes e procedentes alusões ao tenebroso tempo presente, os nomes dos poderosos do momento permanecem escrupulosamente ocultos por elipse em suas páginas”.

Ao vislumbrar um aluno de celular em punho, no fundo da sala, o professor suspirou com ar de enfado e, dirigindo-se ao pupilo, disse: “Não se esqueça de me enviar uma cópia por e-mail”.

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