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Aula de democracia

No momento em que escrevo, já são mais de 70 escolas estaduais ocupadas por estudantes em protesto contra a reorganização imposta pelo governo de São Paulo, que promete fechar 93 escolas e instaurar o ciclo único em 754 unidades, forçando a transferência dos alunos. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2015 | 02h00

Muitos reclamam que as condições já são precárias e que as salas de aula possuem de 40 a 55 estudantes, o que apenas iria piorar com o fechamento de escolas e o remanejamento (compulsório) de alunos para outras unidades, também superlotadas. Para piorar, o esquema foi imposto pela Secretaria da Educação, que não o discutiu antes com a comunidade e nem sequer tem sido receptiva às críticas dos estudantes.

Estive na semana passada em cinco dessas ocupações, em diferentes regiões. Em todas, vi um grande cuidado com as instalações escolares. Há preocupação em dizer que o movimento é pacífico e não tem intuito de depredar o patrimônio, que ademais é dos próprios alunos. A ideia é justamente mantê-lo. 

Na Escola Estadual Castro Alves, no Lauzane, zona norte, os alunos cuidaram de tirar fotos das condições já precárias do local para não serem depois acusados de vandalismo. Na E.E. Raul Fonseca, na Saúde, zona sul, há comissões de limpeza, alimentação e segurança. Lá, o calendário de atividades é extenso: no sábado, estavam marcados um debate sobre legalização do aborto e um campeonato de futebol feminino, além de sessões de cinema, oficinas e aulas livres. Pais e professores se revezam no apoio.

Em muitos lugares, ouvi relatos de autoritarismo e arbitrariedade dos diretores. Numa escola da zona sul, a diretora chamou a Rota, a Ronda Escolar e mais cinco viaturas de polícia no meio de uma assembleia estudantil. Em outra unidade, o diretor arrancou os chuveiros e chamou a Ronda para intimidar os alunos dentro da própria escola. Há relatos de que esse mesmo diretor só conversa com os estudantes na presença de um policial de prontidão, com a mão na arma. “Estão nos tratando como bandidos”, disseram. Em outra escola, o diretor mandou a ficha dos estudantes da ocupação para a polícia. Alunos de 15 e 16 anos estão sendo acusados de desacato e invasão; os pais receberam telefonemas para ir à delegacia. 

Na quinta-feira passada, eu estava na E.E. Shinquichi Agari, no Itaim Paulista, quando o jornal Folha de S.Paulo noticiou que a gestão Alckmin teria suspendido o fechamento e reorganização de escolas em 2016. A informação irradiou no pátio feito caxumba e o presidente do grêmio, Wellington Dias, 17, interrompeu um show de rap para anunciá-la ao microfone. Todos se abraçaram e o professor de história Rodrigo Servilha caiu no choro. O vice-diretor, Sérgio Luis de Almeida, um dos poucos corajosos a apoiar o movimento, também se emocionou e disse que provavelmente perderia o emprego na segunda-feira, mas estava orgulhoso dos seus alunos.

Só que a notícia não era verdadeira: o secretário afirmou que não pretende recuar.

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