Augusto dos Anjos usa Pau D'Arco em todas as datas

Mas o amor do escritor por sua terra não tem quase ressonância em sua obra

Jotabê Medeiros, enviado especial,

08 de setembro de 2007 | 18h39

Quando o poeta diz "meta", pode estar querendo dizer o inatingível. A letra de Gilberto Gil poderia ajudar a clarear, mas não a compreender, a relação entre o berço e a obra do poeta Augusto dos Anjos (1884-1914). E outros mistérios: como é que ele, tendo nascido no bucólico Engenho de Pau D’Arco, no sertão paraibano, se afeiçoou a uma árvore, um reles pé de tamarindo de 200 anos, e a um lago de superfície prateada? São estes os únicos resquícios de seu tempo ali, além da casa de sua ama-de-leite Guilhermina e do sino, da pia batismal e do frontispício da igrejinha local.    Areia, terra de José Américo e de Pedro Américo Os engenhos hoje arrasados da literatura de José Lins do Rego Engenhos literários   O amor de Augusto pelo Pau D’Arco não tem quase ressonância em sua obra. "Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques/E o animal inferior que urra nos bosques/É com certeza meu irmão mais velho!", escreveu o poeta em Monólogo de Uma Sombra. Localizado no município de Sapé, a cerca de 50 km de João Pessoa, o Engenho Pau D’Arco foi engolido pela Usina Santa Helena, que foi derrubada pela falência, e cujos escombros vão ficando cada vez mais finos - os tijolos vão sendo levados pelos órfãos da usina, que compõem o pequeno vilarejo onde está a terra natal de Augusto dos Anjos.   As paredes do que resta guardam ironias finas, que deliciariam o irônico poeta. Por exemplo: o salão principal da usina tem uma inscrição na fachada que diz assim: Centro Esportivo e Recreativo Augusto dos Anjos.   Tudo que o poeta de Psicologia de Um Vencido ("Eu, filho do carbono e do amoníaco, monstro de escuridão e rutilância") não era: esportivo e recreativo. "Um tipo excêntrico de pássaro molhado", disse dele Orris Soares. Em um auto-retrato literário, Augusto pergunta a si mesmo: "O que sente de anormal quando está produzindo?" E responde: "Uma série indescritível de fenômenos nervosos, acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar."   "O Pau D’Arco é uma sombra do passado, escurecido em impagáveis hipotecas", escreveu o autor, que publicou o único livro, Eu, em 1912, custeado pelo irmão Odilon, que gastou 550 mil réis para mandar imprimir mil exemplares de uma das mais singulares obras da literatura nacional. O colega José Lins do Rego notou que ele, Augusto, mesmo no Recife ou no Rio de Janeiro, assinava todos os poemas como se estivesse ainda no Pau D’Arco e os datava assim: Pau D’Arco, 1907, Pau D’Arco, 1903. "Ele tem orgulho do seu engenho", disse Lins do Rego.   O orgulho não foi suficiente para que os restos mortais de Augusto dos Anjos fossem trazidos de Minas Gerais, onde morreu, para sua terra. Os filhos proibiram, magoados com o tratamento que a família Dos Anjos recebeu dos conterrâneos. "Ele foi discriminado na Paraíba, mas na verdade ele amava a Paraíba, tanto que criou os filhos aqui", rebate Verônica Maria da Silva, que trabalha como guia no Memorial Augusto dos Anjos.   "Admiro muito ele. Ter saído daqui e ido tão longe! É uma honra trabalhar com ele", diz Verônica, guardiã das coisas do poeta no casarão da ama-de-leite Guilhermina, restaurado há um ano pelo governo paraibano, a uns 200 metros da antiga usina. "A ama-de-leite furtava as moedas que o Doutor me dava, mas eu furtei mais, porque furtei o peito que dava leite para sua filha", diz o poema de Augusto. Dois dias antes de morrer, ditou ao farmacêutico o poema O Último Número, que diz assim: "Bradei: que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número, atroz e subterrâneo, parecia dizer-me: É tarde, amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza nunca vibrou em tua língua presa. Não te abandono mais! Morro contigo."   No agradável memorial plantado no meio do nada, displays e retratos do artista doados por pintores locais, além de poemas, ocupam as paredes; no centro da sala, uma TV grande e um auditório; na entrada, uma lojinha que vende o Licor do Poeta, licor de tamarindo feito pelos assentados do MST que vivem ali nas terras. O pé de tamarindo que Augusto dos Anjos venerava está lá, majestoso, habitado por duas colméias, num quintal de terra preta dominado por um casal de perus e galinhas de pescoço pelado, a famosa galinha gogó-de-sola.

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