Augusto de Campos se encontra com os enigmas de Rilke

Tradução recria com requinte a obra do poeta alemão em uma de suas mais ricas e vibrantes coletâneas

MARIANA IANELLI, ESPECIAL PARA O ESTADO, MARIANA IANELLI É POETA, AUTORA DE O AMOR, DEPOIS (ILUMINURAS), ENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h18

Para o poeta Augusto de Campos, o desafio de traduzir Rilke vem de longa data. Com Rilke: Poesia-Coisa (1994), começou a ganhar forma o corpus de suas transposições, buscando colocar em relevo, para além do misticismo de Rilke, seu trabalho com a linguagem. Às 20 peças selecionadas para esse primeiro volume, somaram-se 35 em Coisas e Anjos de Rilke (2001), agora de volta às livrarias em segunda edição revista e ampliada, com um total de 130 poemas. A ênfase na materialidade e nos aspectos visuais, sobretudo dos Novos Poemas (1907 e 1908), que se configurava no projeto inicial de Campos como a apresentação de um "novo Rilke" aos brasileiros, ganha agora perspectiva mais ampla.

A coletânea abrange 22 anos de criação deste que foi um dos maiores poetas de língua alemã, de O Livro das Imagens aos Sonetos a Orfeu e Quatro Poemas Esparsos, ocupando importância central a seleção dos Novos Poemas. Dar forma ao informe é o que permite iluminar a outra face, concreta, de um autor geralmente mais conhecido por seu caráter órfico. Mas, se na coletânea de 2001 Augusto de Campos procurou "desrilkizar" o poeta enigmático, nesta nova versão seu propósito é reverter esse processo e reconsiderar o poeta em seus enigmas, trasladar o visível e o invisível. Assim, no mesmo ensejo de ampliar perspectivas, somam-se às influências de Rodin e de Cézanne sobre a poesia de Rilke as inevitáveis associações com a pintura do simbolista Odilon Redon, não apenas em O nascimento de Vênus, Buda, Leda e o Cisne, mas particularmente numa tela de Redon, de 1890, intitulada Olhos Fechados.

A iconicidade dos poemas do livro, recriada com requinte por Augusto de Campos, remete tanto a um espelhamento de linguagem quanto às projeções de imagens umas sobre as outras, num duplo sentido de reflexão, a exemplo dos palácios de vidro do poema Fim de Outono em Veneza, que "emitem um sonido / mais quebradiço aos olhos". Voltados para o mundo, olhos de todo tipo se multiplicam: os olhos doridos de São Sebastião, o olhar do peregrino diante de uma escultura de Buda, os olhos do alquimista, a pupila da pantera se abrindo em silêncio, o âmbar do olho-pedra de um gato preto, os olhos derreados dos mendigos, o olho torpe de Deus. São, no entanto, olhos cegos, ou ainda aqueles que veem melhor quando se fecham, como em O Porta-Bandeira, o signo desse permanente trânsito entre exterior e interior, entre coisas e anjos.

O Leitor é outro poema que joga exemplarmente com esse espelhamento. Vê-se o leitor, "servo da sombra", refletido no rosto que "mergulha de si mesmo em outras vidas", antes de levantar "o olhar pesado de tudo o que no livro se contém". A doação é mútua entre o imaginário e as coisas, "cada imagem imersa num instante, / em cada forma a forma transformada". Operam-se, assim, reflexões, alquimias, interanimações, metamorfoses. Rilke fala do poeta ao falar do alquimista que tem estrelas na mente e "sabe o que é preciso ter em vista / para a venerável massa / concretizar-se". Seu canto, porém, mais do que tudo o que pode ser materializado, é também "um outro alento. / Ar para nada. Arfar em deus. Um vento".

Sabendo desse mais além, fugidio e por vezes impenetrável, sobretudo nos Sonetos a Orfeu, Augusto de Campos, para penetrá-lo, antes se distanciou da figura do poeta místico para dela se reaproximar depois de explorado o rigor de sua linguagem num arsenal de concretude e plasticidade. Dessa maneira, percorreu o caminho mais exigente (e menos óbvio) do pensamento poético, tal e qual o alquimista de Rilke, que precisa de anos para elaborar seu ouro. O fruto desse trabalho é sem dúvida uma das mais ricas e vibrantes coletâneas de Rilke em edição brasileira, "escuro e claridade / livro e flor".

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