Atrizes no pesadelo do tempo

Ellen Barkin conta por que, aos 56 anos, fica atrás das câmeras

Elaine Guerini, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2010 | 00h00

 

 

Shit Year. "É a personagem mais próxima de mim. Eu me senti nua diante da câmera", afirma a atriz nova-iorquina

 

 

   Até pisar no set de filmagem de Shit Year, Ellen Barkin não sabia o que era interpretar a si mesma nas telas. "De toda a minha carreira, a reclusa Colleen West é a personagem mais próxima de mim. Eu me senti totalmente nua diante da câmera", diz a atriz nova-iorquina, referindo-se ao seu papel da estrela de cinema decadente no filme de Cam Archer. Exibido no recente Festival de Cannes, na Quinzaine de Réalisateurs, o drama dá a dimensão exata da atual fase de Ellen, aos 56 anos, que ela chama de "o pesadelo de envelhecer em Hollywood".

"A falta de papéis para mulheres maduras já me deixou seis anos sem trabalhar", conta a atriz, convidada nos últimos anos mais para pontas. Como em Treze Homens e Um Novo Segredo (2007), de Steven Soderbergh, e Elas Me Odeiam Mas me Querem (2004), de Spike Lee. A exemplo da protagonista no novo filme, uma produção com aura experimental rodada em branco e preto, Ellen já pensou em desistir. "Mas seria triste uma aposentadoria involuntária, como a de Colleen. Ela só sai de cena porque não a convidam mais, ainda que tente dar a impressão de que a decisão foi sua."

Por serem raros os filmes como Shit Year (ainda sem data de lançamento no Brasil), com mulheres beirando os 60 anos à frente do elenco, Ellen foi obrigada a pensar num plano B. Mais lembrada por Vítimas de Uma Paixão (1989), em que contracenou com Al Pacino, e por Despertar de Um Homem (1993), vivendo a mulher de Robert De Niro, a atriz já busca uma carreira atrás das câmeras, como produtora, além de desenvolver um piloto de série para TV, "no qual felizmente mulheres como Holly Hunter (de Saving Grace) e Edie Falco (de Nurse Jackie) ainda são valorizadas nos EUA".

Sua estreia como produtora foi no set de Cartas para Julieta, que estreou sexta no Brasil. A comédia romântica segue os passos de jovem (Amanda Seyfried) num grupo de conselheiros sentimentais na Itália. "Nosso desafio foi ajustar o orçamento a uma nova realidade. O que eles faziam com US$ 80 milhões, fizemos com US$ 30 milhões. A indústria não comporta mais tanto desperdício."

A convivência com Seyfried forçou a produtora a ver a nova geração de atrizes de outra perspectiva. "Hollywood não é tão generosa com elas quanto eu imaginava." Quando Ellen tinha 20 e poucos anos, o trajeto de uma atriz era traçado aos poucos, "com um pequeno papel atrás do outro". "Agora não. Elas viram estrelas da noite para o dia e, com a mesma velocidade, podem descer. Nem elas se sentem seguras."

Por pertencer a uma indústria em que "aparência e jovialidade contam mais que o talento", Ellen procura manter-se em forma, indo à academia cinco vezes por semana. "Se me descuidar, aí sim estou acabada", diz, acrescentando que hoje se arrepende de não ter feito cirurgia plástica no nariz. E por que não fez? "Minha mãe queria muito. E na época, apesar de achar meu nariz esquisito, eu era rebelde demais para ouvi-la", lembra, rindo.

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