Atrizes em alta - Um trabalhador intelectual

Depois da chilena Paulina Garcia, é a vez da romena Luminita Gheorghiu roubar a cena em A Child's Pose Morto na sexta, o jornalista e tradutor Geraldo Galvão Ferraz era movido pela curiosidade, alheio a modismos

O Estado de S.Paulo

12 Fevereiro 2013 | 02h06

É sempre temerário fazer prognósticos antecipados num festival que ainda está no meio e Berlim não é a exceção. A chilena Paulina Garcia surgiu como fortíssima candidata ao prêmio de interpretação feminina e é possível continuar torcendo por ela, no belo filme de Sebastian Lelio, Gloria. Ontem, num breve encontro no palácio do festival, quando o repórter esperava para entrevistar o russo Boris Khlebnikov, de A Long and Happy Life, o próprio Lelio disse estar surpreso com a receptividade a seu filme. "Sempre achei que a história que queria contar valia a pena, mas o carinho das pessoas por Gloria superou minha expectativa." Paulina continua uma forte candidata a melhor atriz, mas ontem foi a vez da romena Luminita Gheorghiu dar seu show.

A Romênia foi uma das cinematografias que se impuseram nos anos 2000, nos grandes eventos internacionais de cinema. Seus autores ainda não acabaram de nos surpreender, mas é Luminita quem domina Child's Pose, de Calin Peter Netzer, no papel de uma mãe dominadora que tenta proteger o filho que matou um garoto num acidente carro. Logo no começo do filme, Luminita, fumando sem parar, queixa-se para a cunhada da desatenção do filho, que se recusa a vê-la mesmo em seu aniversário. A recepção, a seguir, reúne políticos, artistas, toda a classe dirigente romena. São vulgares, prepotentes. E aí, ocorre a tragédia. A leoa, cutucada, reage. Luminita passa como um trator sobre policiais, a família da criança morta. Só o que lhe interessa é o filho, mesmo que ele a odeie. É uma personagem detestável, própria para outra representação misantrópica da sociedade e do mundo.

E, então, as coisas começam a mudar e ela se humaniza. Duas cenas são exemplares - o diálogo, enfim, com o filho, e a visita à família do morto. Despida da sua capa de arrogância, ela termina chorando com a mãe do menino. E quando começa a falar no filho, é como se ele também tivesse morrido - para ela. Child's Pose foi um dos melhores filmes até agora, com o chileno e o russo. Há outro acidente de carro, com morte, em Layla Fourie, da sul-africana Pia Marais. Apesar de todas as mudanças na sociedade do país, um resquício de racismo ainda permanece e aflora, por toques, quando uma mulher negra atropela um homem (branco) na estrada e tenta socorre-lo. Quando ele morre, Layla tenta esconder o crime, lançando o cadáver no lixo. Ela viaja com o filho, um garoto a quem cria sozinha. E ocorre de, em seguida, a protagonista se envolver com o filho da vítima. Que situação, hein?

Pia tinha um material forte, mas o excesso de coincidência e o fato de querer abordar muitos temas ao mesmo tempo termina por diluir o que poderia e até deveria ser o impacto de seu filme. O romeno Netzer vai mais direto ao ponto. Explora conflitos familiares, sociais. De repente, a divisão de classes de seu filme tem alguma coisa de A Separação, de Asghar Farhadi, que iniciou aqui mesmo em Berlim, há dois anos, sua escalada internacional. Mas as atriz que faz Layla, Rayna Campbell, é muito boa - a Berlinale de 2013 arrisca-se a entrar para a história por suas atrizes (e mulheres) fortes.

Tem havido muitas histórias ou, pelo menos, situações de lesbianismo. No drama franco-canadense Vic + Flo Saw a Bear, de Denis Cote, Pierrette Robitaille e Romaine Bohringer conheceram-se na cadeia e agora Pierrette, a Victoire, vai para esta cabana na floresta, onde morava o tio. Florence (Romaine) chega para desestabilizar a tentativa da outra de se estabelecer, porque ela é bissex e também gosta de homens, mas principalmente porque atrás de Flo também vem a bandida da historia. O filme possui certa originalidade, mas não é nem uma experiencia estética radical nem o tipo de filme a que se pode ter prazer assistindo.

O estado do mundo não era melhor no século 18, retratado na nova versão de A Religiosa, de Denis Diderot. Nos anos 1966, Jacques Rivette fez sua versão com Anna Karina e ela não apenas ficou famosa pela qualidade como também porque, na época, foi alvo de censura na Franca, gerando um árduo debate sobre a liberdade de expressão. A nova versão é assinada por Guillaume Nicklous e revela uma jovem atriz talentosíssima, Pauline Etienne, mas se você já tem duvidas quanto a Igreja, não há de ser esse filme que vai renovar sua fé. Simone Simonin, a religiosa, vira noviça contra a vontade. No convento, é submetida a todo tipo de brutalidade física. Simone sobrevive e é enviada para outro convento, onde a madre superiora, desta vez, a enche de favores, esperando retribuição. Lesbianismo de novo. Isabelle Huppert faz a madre. O papel é relativamente pequeno, mas a grande lição de Isabelle é de que não existem papéis menores para grandes atrizes.

Geraldo Galvão Ferraz, o Kiko, falecido sexta-feira passada em São Sebastião, aos 71 anos, pertenceu a uma tradição jornalística sempre ameaçada de extinção. Era o repórter, o redator, o editor, o crítico de formação sólida, conhecedor de diversos idiomas e que se colocava na vida como um trabalhador intelectual, com tudo o que isso implica.

Apaixonado por literatura, ele se tornou um tradutor brilhante - sem apelar para teorias de bolso que transformam a tradução em mistificação - da poesia e prosa castelhana, francesa, inglesa, italiana. Sem pose, sem arrogância, navegava com desembaraço pelo pop e o erudito. Sério, mas sem perder o humor no trato das coisas. Pelo entusiasmo na execução das tarefas e no convívio, levado por uma inteligência aguda, irreverente e bem humorada, mantendo um distanciamento esperto de antigo sábio chinês, devia se divertir com tudo isso - aí talvez esteja o segredo de seu sucesso profissional e humano.

Ele começou sua carreira profissional nos anos 1960, na Tribuna de Santos, como tradutor de autores do naipe de Paul Valéry e André Breton, e divulgando jovens escritores brasileiros, como lembra sua ex-mulher Leda Rita Cintra. Depois passou a trabalhar no Jornal da Tarde, dando prosseguimento ao trabalho iniciado na Baixada.

Um de seus principais focos era a literatura produzida no País e suas novidades. Atentou para Raduan Nassar, Charles Kieffer, Orides Fontella e Ana Cristina César, na função de editor de cultura daquela histórica publicação do Grupo Estado. Passou por vários jornais e revistas, como a Playboy, Folha da Tarde, IstoÉ, Cláudia, Estadinho, Caderno 2 e revista Cult. Foi jurado de diversos concursos literários e em 2003 acabou se transferindo para Nova York, onde atuou como crítico de cinema.

Era tão versátil quanto livre em sua atuação jornalística e literária, o que refletia a formação num ambiente familiar impregnado de cultura em suas diversas modalidades. Filho do romancista e jornalista Geraldo Ferraz (Doramundo), e da também escritora Patrícia Galvão, Pagu, ele se revelaria um jornalista para quem a atividade profissional é uma expansão óbvia de sua personalidade. Era movido pela curiosidade intelectual sobretudo, sem se preocupar com modismos e tendências de momento. Se teve inimigos foi certamente por causa do seu talento.

Pop. Lia e curtia de Agatha Christie a William Faulkner e Stephen King, sem nenhum tipo de afetação e sem pretender impor suas idiossincrasias aos leitores. Navegava pelo pop e pela chamada alta literatura sem maiores problemas. Simenon e Asimov, Neruda e ficção científica, que conhecia muito bem.

Era também notável seu interesse e conhecimento em matéria de quadrinhos. Nessa última área foi editor do Grilo, nos anos 1980, onde publicou Robert Crumb, Guido Crepax, Wolinsky, Hugo Pratt e Phillipe Druillet, mais Will Eisner, o gênio do Spirit. Se isso é o que se chama inquietação intelectual, acrescente-se que, como tradutor, verteu para o português de Stephen King a Dee Brown, autor de Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, a respeito do extermínio de índios nos Estados Unidos, o que lhe valeu um Prêmio Jabuti.

Ex-colega de redação e amiga, Terciane Alves fala de Ferraz da seguinte maneira:  "Kiko repudiava o egocentrismo profissional, era generoso com os mais jovens focas. Como raros poderiam ser. Tinha asco de eventos sociais. Gostava mesmo é de sentar à mesa com estagiários e falar de receitas culinárias, acepipes, como dizia. Kiko amava a juventude, se refazia nela."

E se atualizava com o mesmo entusiasmo que lia, via filmes e ouvia músicas (também gostava de jogos de botão, preparar sanduíches, tomar vinho e tocar bongô nos momentos de descontração). Terciane observa que "nos anos 2000, com mais de 60 anos, ele foi trabalhar com internet, ficou fascinado com programas de edição on-line. E foi editor do portal O Site na fase da bolha da internet."

Além disso dedicou-se a pesquisar a obra de sua mãe, chegando a descobrir que ela também tinha sido King Sheldon, pseudônimo adotado para assinar histórias policiais. Junto com Maria Lúcia Teixeira Furlani, publicou a fotobiografia de Pagu - foi a última vez que seu nome apareceu num volume impresso. Junto com Furlani, mantinha o site Pagu. Além de Leda, Geraldo Galvão Ferraz deixa os filhos Alexandre e Antônio Eduardo.

Com o agravamento do diabetes, ele passou os últimos meses de vida em São Sebastião, no litoral paulista, onde faleceu e foi sepultado. No próximo dia 16, sábado, será celebrada uma missa em sua homenagem na Igreja São Gabriel (Avenida São Gabriel, 108, no Itaim, em São Paulo), às 17 horas.

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