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Atriz Tonia Carrero completa 90 anos, com uma história de talento e personalidade

Ao contrário dos que chegam aos 90, atriz faz questão da casa cheia de parentes e velhos amigos

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h13

Pense numa mulher feliz: acarinhada pela família - filho, quatro netos, cinco bisnetos - e os amigos da vida toda, com uma carreira gloriosa de seis décadas, trabalhos memoráveis no teatro, na TV e no cinema. É Tonia Carrero, que recebe hoje à tarde para uma festa por seus 90 anos em casa, no Leblon.

A data é quinta-feira, dia 23. Diferentemente da maioria dos que chegam a essa idade, Tonia quis a celebração, a casa cheia, o cabeleireiro em domicílio. Não é uma mulher comum. Mais: nunca houve uma mulher como Tonia. "Ela sempre gostou de festa. Está animada e bem-humorada, mesmo com as limitações que a vida trouxe: tem dificuldade de falar e andar. A cabeça é exemplar", conta Cecil Thiré, o filho único que penou por ter a mãe mais bonita do Brasil.

Entre os convidados, Nathalia Timberg, Jacqueline Laurence, Eva Wilma, Eva Todor, Camila Amado, atrizes com quem ela dividiu momentos que fazem parte da vida do brasileiro adulto. Fãs que se apaixonaram pelos cabelos dourados e os olhos "espantosamente azuis", como um dia escreveu Ronaldo Bôscoli, mas também pelo talento dramático, a dignidade como caminho, a transparência.

Quando fez 80, admitiu que se ver no espelho era "uma tristeza". "O fato de nenhum homem me achar atraente a esta altura da vida é muito duro", reconheceu, sem autopiedade. Assim como admitiu casos extraconjugais com Paulo Autran, o amigo maior, e Rubem Braga, quando era casada com Carlos Thiré, que também a traía.

Combinação de beleza, talento e personalidade - para quem acompanha sua trajetória, está aí a razão do sucesso de Maria Antonietta Portocarrero Thedim, nascida Mariinha, com cabeleira castanha, "nariz chatinho, a boca pequenininha". O registro carinhoso e detalhado do livro do bebê abre Tonia Carrero - Movida Pela Paixão, de Tânia Carvalho, lançado há três anos. "Não disfarço mais nada. Não quero que me achem linda ou brilhante. Hoje, estou acima do bem e do mal", ela afirmou à época.

Na festa de hoje, cada um dos presentes levará um exemplar do livro O Monstro de Olhos Azuis, memórias que Tonia lançou em 1986 e Cecil mandou reimprimir agora, levado pela efeméride.

A última das 54 peças que encenou foi Um Barco para o Sono, em 2007, que teve a direção do neto Carlos Thiré. Na TV, fez uma participação na novela Senhora do Destino, no ano seguinte. No cinema - onde estreou, em 1947, vinda de cursos de formação em Paris -, interpretou uma senhora com problemas de memória em Chega de Saudade, em 2008.

A memória de Tonia é traiçoeira há algum tempo, trazendo dificuldade para decorar textos e a impossibilitando de dar entrevistas. Ela fala através das lembranças dos amigos.

"Tonia sempre foi assustadoramente franca e tem um caráter afetivo imenso. Nunca foi narcisa, é de uma beleza que enxerga o outro", diz Camila Amado. Para ela, perdeu um Molière, em 1967. "Tonia fazia Navalha da Carne e eu, De Brecht a Stanislaw. Tivemos a mesma votação, mas o prêmio foi para ela por sua história. Tonia merece tudo."

A montagem de Navalha foi um marco também para o então diretor iniciante Fauzi Arap, chamado por Plínio Marcos para a tarefa. Fauzi e Tonia se estranharam de início, mas logo ele estaria deslumbrado: a mulher de imagem ultrassofisticada fez uma Neusa Sueli inesquecível, desglamourizada como não se poderia supor.

E, graças a Tonia, a peça enganou a censura. "Já com muito prestígio, ela foi lá e disse que faria a personagem, e, portanto, não poderia ser nada pornográfico", ele diz. "Lembro dela chegando como se fosse A Visita da Velha Senhora e saindo com a liberação. Quando estreou, a plateia não respirava."

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