Captura de Tela/Instagram
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Atriz revela que foi estuprada por um diretor 'famoso'

Em depoimento publicado pela revista 'Cláudia', Juliana Lohmann descreve incidente em São Paulo há 12 anos

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

14 de julho de 2020 | 19h41
Atualizado 14 de julho de 2020 | 21h20

Em um depoimento publicado pela revista Cláudia, a atriz Juliana Lohmann, de 30 anos, revela em detalhes como sofreu um abuso sexual "por um famoso que dirigia seu primeiro longa". "Exponho esse relato no intuito de que outras mulheres possam ler, talvez se identificar, e refletir sobre suas existências e seus relacionamentos. E, falando sobre o meu ofício: nós, atrizes, que trabalhamos com a exposição de nossos corpos, precisamos ser protegidas e respeitadas de fato. Não pode mais haver espaço para que sejamos assediadas por diretores, atores, produtores, ou qualquer homem que esteja em uma situação de poder maior que a nossa, seja pela desigualdade estrutural de gênero ou pela posição hierárquica que habita", escreve a atriz.

A atriz, que comeceu na televisão como uma personagem infantil em Malhação aos 11 anos, voltou à novela teen da Globo em 2011, aos 22 anos, como a personagem Débora, filha da personagem interpretada por Letícia Spiller. O relato da atriz guarda muitas semelhanças com os primeiros depoimentos do movimento americano #MeToo, que expôs diversos predadores sexuais na indústria do entretenimento dos EUA. 

No relato publicado nesta segunda-feira, 13, a atriz conta que, há 12, foi chamada para uma conversa com o diretor sobre um papel em um longa-metragem. "Passei a madrugada estudando a personagem, cheguei com a cabeça cheia de ideias e perguntas. Me instalei no quarto do hotel e, em seguida, a convite dele, nos encontramos em seu apart, no último andar desse mesmo hotel, pra conversarmos um pouco sobre o roteiro enquanto esperávamos um sinal dos produtores para a realização do teste."

O então diretor, segundo o depoimento da atriz, começou a fazer movimentos que ela considerou inadequados, e em seguida sugeriu que ambos usassem maconha. Depois, ele tentou beijá-la e a atriz disse não. "Foi uma completa surpresa acreditar que aquele homem, com sua boa imagem midiática de família margarina, pudesse se aventurar com outras mulheres."

Ela relata então seu nervosismo e diz que as investidas, agora já físicas, foram escalando em violência. "Eu fui tentando respirar e acalmar o pânico do pensamento de que eu estava a centenas de quilômetros de casa. Entendi que não tinha saída. Fiquei quieta. Fiz o que ele queria. Tive que insistir muito pra ele pelo menos colocar a camisinha, o que fez somente depois de algum tempo de penetração", escreve. Lohmann diz, porém, que ele retirou o preservativo antes de ejacular dentro dela. O estupro voltou a acontecer na manhã seguinte, de acordo com a atriz.

Ela também conta que silenciou sobre o assunto por se sentir pressionada socialmente e profissionalmente, e disse que a culpa pelo ocorrido a acompanhou nos últimos 12 anos. Lohmann também relata um relacionamento posterior, abusivo, e conta como a experiência da violência sexual influenciou suas decisões.

"Este diretor usou de sua posição de poder, não só por ser um homem branco muito mais velho, mas principalmente por ser o diretor do filme, responsável por decidir se eu trabalharia ali ou não. Eu, uma atriz de dezoito anos recém-feitos e que ainda começava a entender como me posicionar profissionalmente sem minha mãe por perto. Ele me enganou, me drogou e me estuprou, violando minha dignidade sexual e deixando marcas que carregarei pro resto da vida", escreve.

O intuito é divulgar seu relato para que outras mulheres em situações similares se inspirem para buscar ajuda. "É preciso que falemos sobre as estruturas e relações de poder às quais todas as mulheres, em diferentes formas e intensidades, estão invariavelmente submetidas."

Recentemente, a atriz Júlia Konrad também compartilhou relatos de abusos conjugais que sofreu no passado.

Nas redes sociais, colegas e profissionais da TV comentaram o assunto, elogiando a coragem da atriz:

 

 


A própria Juliana Lohmann falou sobre o assunto em seu Instagram: "Ajo movida pela força da certeza de que não podemos mais nos calar". Nos comentários, outros colegas manifestaram apoio, inclusive a atriz Maytê Piragibe, que também disse que sofreu abusos. "Mana, também sofri abusos e ainda junto os cacos para quem sabe um dia ter essa coragem como a tua em expor", escreveu Maytê..

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Falar sobre o estupro que vivi aos 18 anos e as agressões provenientes de uma relação abusiva de tempos depois é resultado de um processo muito longo de elaboração. São acontecimentos que habitam meu íntimo de maneira muito profunda e constituem grande parte da mulher que me torno a cada dia. Essas memórias perduraram por tempo demais no silêncio e na dúvida que a estrutura patriarcal nos faz ter acerca das próprias marcas que nos infringem. Ajo movida pela força da certeza de que não podemos mais nos calar. Precisamos falar sobre as estruturas de opressão sob as quais as mulheres estão submetidas, sobre o machismo, sobre violência doméstica, sobre relacionamento abusivo, sobre estupro. Exponho esse relato no intuito de, além de jogar luz nessas questões, fazer com que outras mulheres, que talvez possam se identificar com tais acontecimentos, tenham mais clareza acerca das próprias experiências. Meu desejo, ao expor esse relato pessoal, é de denúncia. Não apenas da forma de operar desses homens, mas principalmente de um sistema. Esse isolamento me levou ao reencontro da coragem. Mas, nessa caminhada, tive pessoas que me deram a mão com muito amor. Obrigada @sayonarasarti @novacomunicacao pela confiança, escuta e parceria, e @claudiaonline @isadercole por ter me aberto esse espaço tão precioso. O link pra ler a matéria completa está na bio.

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Novelas

Juliana Lohmmann também participou de diversas outras novelas da Rede Globo e de outras emissoras, além das duas passagens por Malhação. Entre elas, O Beijo do Vampiro (2003), Mandrake (2007), Joia Rara (2013), e mais recentemente Amor Sem Igual, da Record.

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