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Atriz Marília Pêra morre aos 72 anos

Artista estava em casa, no Rio; ela passava por um tratamento para um desgaste ósseo na região lombar

Cristina Padiglione e Constança Rezende, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2015 | 10h24

Atualizada às 19h41

Aos 72 anos, a atriz Marília Pêra morreu no sábado, 5, às 6 horas, em sua casa em Ipanema, zona sul do Rio. Na luta contra um câncer de pulmão há dois anos, ela passou recentemente por um tratamento contra desgaste ósseo na região lombar. Muito debilitada e andando de cadeira de rodas, Marília foi vista por vizinhos pela última vez há cerca de um mês. 

A doença a fez se afastar do trabalho por um ano e interromper a sua participação nas gravações da série Pé na Cova, da TV Globo. Em agosto, a atriz chegou a receber pessoalmente o troféu Oscarito do 43º Festival de Cinema de Gramado. Mas boatos sobre uma internação da atriz por conta de um câncer em estágio avançado levaram sua assessoria a desmentir em novembro, em seu perfil da rede social, que a doença de Marília tivesse piorado. “Sobre as notícias que vêm sendo veiculadas sobre o estado de saúde da Marília: ela está em casa e passa bem”, informaram.

Tanto o velório quanto o enterro da atriz foram reservados a amigos e parentes. Já por volta de 13 horas, começaram a chegar ao Teatro do Leblon, na zona do Rio, Cássia Kiss, Marcos Frota, Nicete Bruno, Andréa Beltrão, o diretor Daniel Filho, Marieta Severo, Cláudia Jimenez, Stênio Garcia, e a escritora Nélida Piñon, amiga de Marília.

Por volta das 14h30, o corpo da atriz chegou ao teatro. O velório foi na Sala Marília Pêra. Alguns fãs se aglomeraram na galeria onde está instalado o teatro, mas o local não chegou a ficar lotado. Por volta de 15h30, as portas do teatro foram abertas para os fãs que ali estavam.

O velório terminou por volta de 16h30, horário em que o corpo foi levado ao cemitério São João Batista, onde chegou antes das 17 horas. Amigos como a atriz Maitê Proença e o jornalista Nelson Motta, ex-marido de Marília e pai de suas filhas Nina e Esperança, já aguardavam no cemitério. A família preservou a intimidade e o cortejo com amigos e familiares seguiu em seguida para o último adeus.

Em setembro, pouco antes da estreia da atual temporada de Pé na Cova, Marília deu uma de suas últimas entrevistas, justamente ao Estado, por telefone. Falou sobre o disco que começaria a gravar para a Biscoito Fino, com repertório pautado pelo amor, e sobre sua afinidade com Miguel Falabella, com quem mais contracenou nos últimos dias de trabalho. “Miguel comprou meu passe total. É meu coronel”, divertia-se. “Ele me falou que, depois de Pé na Cova, vai escrever uma série para mim. Serei a protagonista. E continuo mulher do Miguel. É a esposa de um cara que se envolve em corrupção e assuntos sexuais sinistros. O cara vai preso e a mulher é uma santa. E o que fica da vida dessa mulher, depois que descobrem que esse homem tão poderoso se envolveu em coisas tão horríveis, é um castelo que vai caindo.”

Falabella revelou ontem, durante o velório, que a última temporada de Pé na Cova, que vai ao ar em 2016, já está toda gravada. “Pelo menos, a gente vai poder ainda vê-la até o final, dando show de bola”, disse.

Ainda na entrevista ao Estado, em setembro, Marília fez questão de dizer que estava ótima, que a reclusão de dois anos antes, em função de um tratamento para sanar o desgaste ósseo dos quadris, era algo completamente superado. E que estava cheia de projetos. “Não estou reclusa”, insistiu. Até o último instante, fez questão de disfarçar sua fragilidade e as condições apontadas há cerca de um mês pela colunista Hildegard Angel, que publicou em seu blog que a atriz sofria de câncer de pulmão – “ela mesma me falou”, informou Angel, desmentida por Sandra Pêra, irmã da atriz.

Marília Pêra poderia ser só mais uma dessas herdeiras de artistas que, fascinada pelo universo frequentado pelos pais, virou atriz. O caso é que dificilmente ela escaparia desse destino. Artista completa, capaz de atuar, cantar e dançar com maestria, pisou no palco pela primeira vez aos 4 anos, incentivada pela mãe, Dinorah Marzullo, e pelo pai, Manuel Pêra.

Foi bailarina dedicada a coreografias, sapatilhas e pas-de-deux, dos 14 aos 21 anos. Esteve em musicais e espetáculos de revista, peças, filmes, novelas e seriados. Polêmica como só os gênios podem se dar ao luxo de ser, Marília Pêra fascinou grandes plateias e descontentou alguns colegas de profissão. De temperamento impositivo, fazia valer sua vontade. Um dos episódios que vieram à tona, nesse contexto, foi sua escalação para a minissérie Cinquentinha, de Aguinaldo Silva. Após várias cenas gravadas, desistiu do papel, causando desconforto entre os profissionais da Globo e sendo substituída por Betty Lago.

Em 1989, ao tomar partido por Fernando Collor para a presidência da República, foi vítima de agressores que apedrejaram a porta do teatro onde ela se apresentava. Desde então, não mais se manifestou politicamente.

O episódio foi um contraste no seu histórico político, já que no passado, chegou a ser vista como comunista. Foi presa durante a apresentação da peça Roda Viva, de Chico Buarque, em 1968, e teve a casa invadida pela polícia pouco tempo depois, quando novamente foi presa.

Foi ainda engatinhando como atriz que esteve no mesmo palco de Bibi Ferreira, em Minha Querida Lady (1962). Costumava dizer que passou nos testes porque os diretores procuravam alguém capaz de fazer acrobacias, coisa rara na época. Em 1963, foi Carmen Miranda em O Teu Cabelo Não Nega, biografia de Lamartine Babo, e voltou a encarnar a cantora em outras ocasiões, como no espetáculo A Pequena Notável (1966), dirigido por Ary Fontoura, e A Tribute to Carmen Miranda, no Lincoln Center, em Nova York (1975), dirigido por Nelson Motta, e na única apresentação de A Pêra da Carmem, no Canecão, em 1986. Em 2005, fez o musical Marília Pêra canta Carmen Miranda (2005), dirigido por Maurício Sherman.

Em 1964, derrotou Elis Regina em um teste para o musical Como Vencer na Vida sem Fazer Força.

Chegou à TV ainda em 1965, em Rosinha do Sobrado, já na Globo e depois, em A Moreninha. Em 1967 fez sua primeira apresentação em um espetáculo musical, A Úlcera de Ouro, de Hélio Bloch. Em 1969, cativou críticos e públicos como protagonista de Fala Baixo Senão eu Grito, primeira peça da dramaturga Leilah Assumpção. Levou o Molière e o APCA do ano.

Em 1975, gravou o LP Feiticeira, pela Som Livre. Com aulas de ópera no currículo, interpretou Maria Callas na primeira montagem de Master Class. Disse ao Estado que se identificava com a diva.

Com a mesma competência que a levava a atuar e a cantar tão bem, dirigia com mão firme. Era seu o comando de Marco Nanini e Ney Latorraca em O Mistério de Irma Vap, um hit de bilheteria da história teatral brasileira.

Casou-se aos 17 com o músico Paulo da Graça Mello, morto num acidente de carro em 1969 e pai de Ricardo Graça Mello, seu primogênito. Paulo Villaça, o segundo marido, foi seu parceiro no palco. Depois, veio Nelson Motta. Era casada, desde 1998, com o economista Bruno Faria.

O grande musical Elas por Ela, para a Globo, veio em 1992. Em 2008, foi protagonista do longa Polaroides Urbanas, de Miguel Falabella, onde interpreta duas gêmeas. Ainda de Falabella, fez A Vida Alheia – além de Pé na Cova. / COLABOROU VINICIUS NEDER


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