Atriz Irene Ravache volta à cena com 'A Reserva'

Na peça, que se passa num restaurante, embora relações familiares estejam presentes, elas não são o principal

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

02 de julho de 2008 | 18h42

Na tarde de domingo, Irene Ravache faz um ensaio aberto do espetáculo A Reserva, que tem texto de Marta Góes e direção de Regina Galdino, para um público de amigos. O objetivo desse trio de mulheres é assumidamente detectar reações e, assim, testar a montagem para melhor efetuar ajustes finos na reta final dos ensaios. A noite de estréia para convidados de A Reserva, que tem ainda Patrícia Gasppar e Evandro Soldatelli no elenco, será no sábado no Teatro Cosipa Cultura. Veja também:Irene Ravache fala sobre a peça 'A Reserva'   Ao fim da apresentação, a julgar pela reação detectada na platéia, lágrimas em algumas cenas, riso em outras -, A Reserva tem tudo para ser mais uma parceria bem-sucedida entre Irene Ravache e Regina Galdino, também diretora do espetáculo anterior, Intimidade Indecente, de autoria de Leilah Assumpção. Mas que ninguém espere da atriz uma repetição de temas, a busca pela fórmula de sucesso. Pelo contrário. Nesta nova peça, cuja ação se passa num restaurante, uma espécie de Ratatouille teatral, embora relações familiares estejam presentes, elas não são o tema central. O ângulo de visão se inverte - agora é de fora para dentro - e volta-se para a forma como a engrenagem social afeta as relações humanas. O que está em jogo é como os valores coletivos influenciam, por vezes manipulam mesmo, o comportamento individual. Vera, vivida por Irene, é uma dona de casa que após a morte do marido se vê obrigada a sustentar a casa e o filho. Criada para não pensar nisso, a única coisa que sabe fazer é cozinhar. Abre um restaurante, mas dessa forma acaba por descobrir o próprio potencial. Cozinha por ofício e prazer. O contraponto aparece na figura de uma personagem que nem está em cena, a nora, uma dona de restaurantes administrados com outro pensamento empresarial. "Quando recebi o texto da Marta, a primeira coisa que me atraiu foi a possibilidade de colocar três diferentes sonhos em cena", diz Irene. Madalena (Patrícia) é a empregada doméstica de Vera que se torna sua assistente no restaurante. "Ela queria ir para casa todo dia, não dormir no emprego, e comprar a casa própria, pagar a faculdade do sobrinho, um sonho de sua classe social", diz Irene. Vera, sua personagem, nem sabia que tinha um sonho, até realizá-lo. Já seu filho (Soldatelli) quer ser cineasta, chega a estudar no exterior, mas sua vida segue outro rumo. "A geração dele sofre uma pressão muito grande para ganhar dinheiro. E ele acaba seduzido", diz Irene. Embora o espectador também seja seduzido por quitutes entrevistos - toda a ação se passa no espaço de trabalho, porém uma sala quase íntima, no caminho entre a cozinha e o salão -, a peça parece fazer do restaurante um pretexto para provocar uma reflexão crítica sobre a inversão de valores no mundo contemporâneo. "A gastronomia é um ótimo território para falar de outras coisas", diz Marta Góes. "Da luta pela vida, da ameaça de fracasso, das imposições do mercado." Algumas frases de Vera como - "pior é não saber se alguém vai se interessar por aquilo que você cria" - são ditas de um tal jeito que soam como se a atriz falasse de sua arte. "E é isso mesmo", diz Irene. "Mas, nos ensaios abertos, percebi que algumas pessoas também associam a suas próprias profissões quando ouvem." Vera preocupa-se em fazer boa comida. Mas seu restaurante, ao longo do tempo, sofre com a concorrência de outros que se tornam ‘lugares da moda’, freqüentados por celebridades, e por isso lotam, independentemente do sabor. Na tentativa de convencer a mãe a ‘acompanhar’ os tempos, o filho diz: "Não basta fazer comida boa, é preciso gritar que é boa, pessoas bacanas têm de dizer que é boa." Marta chama atenção para outros aspectos. "As pessoas têm de comer no restaurante "x" para se acharem bacana. O ruim é isso, quando a grife te confirma socialmente", diz. Ela enfatiza que não tentou contrapor realização de sonho versus possibilidade de ganhar dinheiro. "As duas coisas podem até vir juntas, tudo bem. Não é feio ganhar dinheiro. Mas que isso não seja em detrimento de seu sonho." Posso gostar? Marta brinca com a pergunta para tocar no cerne da questão que gostaria de ver discutida com a peça. "O que incomoda é a submissão à moda, à grife, à tendência." Será que posso gostar dessa roupa, desse frango de padaria, dessa peça de teatro? Serei considerado alguém ignorante, de mau gosto, ‘out’?  Regina Galdino chama atenção para o fato de Irene valorizar textos contemporâneos de autoras brasileiras. "Claro que um clássico pode perfeitamente falar de nossa época. Mas com sua intuição de atriz ela escolhe textos que têm uma delicadeza feminina para falar de temas atuais." A verdade é que, como atriz e produtora, Irene Ravache poderia sair atrás daquele jovem autor irlandês da moda, mas nos últimos anos preferiu apostar no ponto de vista de mulheres do Brasil.Até agora, sua escolha recebeu enfática aprovação do público.

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