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Atriz deixa momentos únicos

Do primeiro nu frontal do cinema nacional ao teatro e à TV

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2013 | 10h57

O amigo e cineasta Sílvio Tendler, conta que Norma Bengell desistira da vida. Abalada pela falta de trabalho, pelo descrédito que a acompanhou após o caso O Guarani e pela perda da companheira Sônia Nercessian – cujo sofrimento testemunhou –, Norma se isolara e recusava tratamento para o câncer que a consumia. Tudo isso é muito triste – Amor ao vivo, e não na mise-en-scène de Michael Haneke –, mas para o cinéfilo a Norma da tela será eterna.

Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães d’Áurea Bengell nasceu no Rio, em fevereiro de 1935. No Brasil dos anos 1950, midiatizado pelo Repórter Esso da Rádio Nacional, a jovem Norma despontou como vedete. Em 1959, quando o reinado da chanchada chegava ao fim, Carlos Manga fez dela a sua Brigitte Bardot na paródia O Homem do Sputnik. Norma tentava seduzir Oscarito, a quem chamava de ‘chérrri’, com muitos Rs. Seu namoro com a câmera prosseguiu em filmes que fizeram história.

Protagonizou o primeiro nu frontal do cinema brasileiro e o filme virou clássico – Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Foi a prostituta de rua de O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, e a garota de programa de Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri. O filme de Anselmo abriu-lhe portas na Europa e ela foi ser atriz de Alberto Lattuada na Itália (O Mafioso) e de Patrice Chéreau no teatro, em Paris. De volta ao País, foi atriz de Glauber (A Idade da Terra).

Objeto de desejo dos machos brasileiros, casou-se com um italiano, o belo Gabriele Tinti, mas seu grande amor foi uma mulher – Sônia. Norma atuou, cantou, dirigiu, e a última função foi, talvez, a única coisa que fez sem brilho. Não deve ter sido fácil somar a tantos desafios e percalços a decadência física. Já não se deslocava a não ser em cadeira de rodas. Tudo foi vivido publicamente – a glória como a miséria. Ela poderia fazer sua a frase de Blanche Dubois, também vivendo da caridade (de amigos, não de estranhos) como a heroína de Tennessee Williams. E ainda não disse a última palavra – sua biografia, Norma, que ainda vai sair, poderá ajudar a lembrar como foi grande.

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