Atriz concilia estilo elegante com apego à literatura

O crítico Décio de Almeida Prado (1917-2000) chamava Nathália Timberg de a mais "europeia" das atrizes brasileiras. A percepção considerava, obviamente, a formação da artista, que estudou em Paris sob a tutela de grandes mestres, como Jean-Louis Barrault. Mas também não menosprezava o estilo que se tornou marca da intérprete: a elegância em cena, a aversão a qualquer traço histriônico, a precisão técnica no manejo da voz e do corpo.

O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2014 | 02h08

À carreira extensa na TV, Nathália conciliou uma profícua trajetória teatral. Nunca interrompida. Sua primeira peça profissional data de 1954, Senhora dos Afogados, de Nelson Rodrigues. Ali, já estava expresso o seu comprometimento com um teatro que valorizasse a palavra. "Existe hoje um esvaziamento terrível da palavra e um consequente empobrecimento do pensamento. O uso da palavra na sua riqueza vem sendo abandonado", observa a atriz. "Isso sempre me interessou. E, cada vez menos, percebo diretores interessados em trabalhar em torno da literatura."

Para acompanhar o seu percurso profissional é preciso atentar também a sua passagem pelo TBC - Teatro Brasileiro de Comédia entre os anos 1950 e 60. Nathália Timberg desenvolveu-se como atriz ao lado de Ítalo Rossi, Sergio Britto, Eugenio Kusnet. Faz parte de uma geração que encarava o ofício com rigidez, disciplina, dedicação.

Foi durante esse momento que participou de marcantes encenações, como Um Panorama Visto da Ponte (1958), de Arthur Miller, Pedreira das Almas (1958), de Jorge Andrade, e As Almas Mortas (1961), de Nicolau Gogol. Com companhias da época, como a de Maria Della Costa, perseverou pelo caminho e esteve em montagens como a de Anjo de Pedra (1960), de Tennessee Williams.

Nos anos 1980, a aproximação com o Teatro dos Quatro rendeu trabalhos significativos, com incursões por Tchekhov, em O Jardim das Cerejeiras (1989), e Pirandello em Assim É...(Se lhe Parece)(1985).

A predileção pelos grandes dramaturgos universais não a afastou, contudo, do contato com a cultura popular. Na década de 1970, Nathália Timberg criou o Circo do Povo, teatro baseado em uma lona de circo onde encenou de Martins Pena a adaptações da literatura de cordel. "O Brasil é um país de dimensão continental, a mitologia de uma região não se comunica com a de outra. Esse projeto foi das coisas mais importantes que fiz", conta ela. "Era um momento difícil, havia a ditadura, muitos colegas não conseguiam acompanhar porque precisavam sobreviver de outras formas. Mas foi bonito ter virado as costas ao teatro que eu prefiro, que é o da discussão de ideias, para ir até as fábricas e levar esse sonho."

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