Atrium exibe um século de cerâmica

Correu muito perigo a exposição Cerâmicas do século 20 - 100 anos em 100 peças, que abre hoje na loja Atrium, que inaugura seu espaço de exposições. Afinal, seu curador e proprietário das peças que serão expostas e vendidas, o colecionador, marchand e jornalista João Pedrosa começou sua história de apreciador de objetos colecionáveis comprando uma granada da Segunda Guerra Mundial. Ele tinha apenas 12 anos e comprou o que os jornais da época chamavam de artefato bélico numa kombi, na Praia das Cigarras, em São Sebastião. Mais prudentes, seus pais confiscaram a granada por três dias para se certificarem de que o futuro colecionador não sofria o risco de voar pelos ares. Parece que nada aconteceu, pois João Pedrosa transformou-se num nome respeitado na área e multiplicou-se como colecionador. A coleção de cerâmicas que ele exibe agora é apenas uma de várias que mantém. São 100 peças que abrangem o período de 1890 a 1990. A intenção da mostra, mais que ser cronológica, ano a ano, foi dar um painel da cerâmica, uma das mais antigas e nobres artes aplicadas, nestes últimos 100 anos, com a presença de seus estilos mais marcantes. Embora a exposição seja, digamos, com fins lucrativos, Pedrosa enfatiza sua importância: "Esta exposição serve para que qualquer leigo tenha uma visão do que foi a cerâmica no século 20, o que é difícil ver, pois aqui não temos um museu de Artes Decorativas". O ponto alto dela, destacado pelo próprio curador, é a área de peças de Art Déco, cobrindo o período dos anos 20-30, um estilo de muita influência orientalizante, com desenhos rebuscados e de acabamento perfeito. A maioria das peças é de vasos, de tamanhos grande, médio e pequeno, mais jarras, conjuntos para chá ou café, cinzeiros, vasos de parede, conjuntos de suco e mais uma série de objetos utilitários de cerâmica, como molheiras, fruteiras, pratos de aperitivo, bombonières, caixas, castiçais, luminárias. Todas as peças são datadas e um terço delas têm assinaturas ilustres como Gaillard, Pierrefonts, Rosenthal, Carlton Ware, Kermais -Boch Frères e a brasileira Ars Bohemia. João Pedrosa é daqueles colecionadores compulsivos, desde que montou sua primeira coleção infantil, de caixas de fósforos, mas é uma exceção nesse mundo no qual quem tem, guarda. Ou seja, aquela sensação da posse, do ter uma peça apenas para si, não é o que o motiva. Pedrosa se diz um comerciante de arte, sentindo prazer no desfrutar transitório de um objeto que, depois de vendido, ele vai encontrar na casa de um amigo. Segundo Pedrosa, esta foi a melhor forma que encontrou para poder ter dinheiro a fim de colecionar. "Se eu fizesse uma casa com as 50 melhores coisas que passaram pelas minhas mãos, seria um lugar fabuloso." Ele guarda cerca de mil peças em casa, distribuídas por 10 coleções: a de cerâmica, a de brinquedos, a de fotografias, a de arte contemporânea, a de mobiliário, a de arte primitiva, a de livros, etc. Para isso, ajudado por um assistente, mantém uma constante atividade para garimpar peças aqui e no exterior. O trabalho de manutenção, transporte, embalagem e catalogação é grande, reconhece. Mas mesmo assim, encontra tempo para o jornalismo: é editor de estilo da revista Casa Vogue. Frisa, porém, que as coleções não são um hobby, mas uma atividade que demanda muito tempo e esforço, absolutamente profissional. Seu plano é ter uma galeria, infelizmente ainda prejudicado pelas incertezas da economia. Enquanto isso, como bom colecionador, ele reúne com exposições como a de hoje, um acervo de experiências. 100 Cerâmicas de 100 Anos - Loja Atrium: Al. Gabriel Monteiro da Silva, 642. Até 7/12. De segunda a sexta, das 10h às 19h; sábado, de 10h ás 15h.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.