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Ignácio de Loyola Brandão
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Atravessando o país dos desorientados

Ao amigo Antônio Abujamra

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2015 | 06h22

Vivo há semanas aqui, desorientado, sem poder sair. Todas as placas que indicam as saídas são falsas, dão em lugar nenhum, me conduzem de volta, me levam a passar dezenas de vezes pelo mesmo lugar, me deixam em pontos que não estão nos mapas. Porque os mapas são falsos, as ruas neles desenhadas nada têm a ver com as ruas reais. Os nomes não batem, ou quando correspondem a uma avenida que existe, ela se encontra em lugar diferente. Olho duas, três vezes para me certificar de que os mapas são da cidade onde estou. E se pergunto da cidade, me dizem: não, esta é outra, o senhor veio à cidade errada. Estou conversando e pergunto o nome, a pessoa responde:

– Falcowski, mas dentro de dez minutos poderá ser Varnhagen, e se conversarmos à tarde, poderei atender como Antuerpe, porque aqui os nomes não pertencem às pessoas. Ainda não sei meu nome verdadeiro. Usei vários, por muitos anos, até que chegava alguém e reivindicava na Justiça: esse nome é meu. Então precisava entregá-lo. Chama-se Ato de Restituição e gasta-se uma fortuna de cada vez, comprando juízes, escrivães, tabeliães, notários. É uma grande indústria neste país e o protótipo de tal modelo de governança foi criado em Brasília, naquele período que ficou na história como Herança da Papuda. Parece que Papuda era o apelido da amante de um grande político. Portanto, saiba, que nesta cidade, neste país, todos os nomes são provisórios, de pessoas e de ruas e de logradouros públicos. Há pessoas que vivem anos com uma cara, depois fazem cirurgia e continuam a viver com outra, ao morrer tiveram dez caras. Qual a verdadeira?

Segui em frente, não posso acreditar em um homem que diz logradouros públicos. É um imbecil. Não sei há quanto tempo estou aqui, não tenho relógio, os relógios públicos deixaram de existir. Confesso que nem adianta vocês acreditarem neste texto, porque não posso dizer a verdade ou estarei sujeito a penas máximas, a sanções insuportáveis para um ser humano. Como a que ocorreu com o pintor Alceste (tenho de ocultar seu nome verdadeiro, nem sequer posso pensar nele), uma semana atrás. Ele chegou até aqui, porque as estradas que vêm são verdadeiras, existem, são belas, atravessam vales verdes, cortados por riachos de água fresca, a mesma qualidade de água que se encontra na região de Spey, na Escócia (nunca acreditei nisso, é coisa de marqueteiro de governo e todos são tranqueiras), onde se faz um uísque muito bom. Há tempos não tomo um uísque verdadeiro, aqui só entra produto falso, bebidas batizadas, feitas em fundo de quintal, fornecidas por contrabandistas nos quais não se pode confiar, porque são falsos contrabandistas, os verdadeiros são eliminados na entrada falsa feita especialmente para os chamados contraventores no mundo verdadeiro.

A estrada era à direita da via expressa, e não à esquerda, como tinham me indicado. Vi as placas indicando, mas considerei que deviam ser a saída da cidade, mais à frente eu daria com a entrada, à esquerda. Mas, depois de percorrer quilômetros, retornei, decidido a entrar mesmo que fosse pela saída, andando na contramão. Quem sabe no mapa que eu tinha em mãos havia um erro de impressão? Percorri a estradinha, mesmo vendo as setas que me diziam estar na contramão, no entanto vários carros passavam por mim, na mesma direção, de maneira que considerei haver acerto nos erros.

Sabemos como essas coisas são no Brasil. Executam obras numa estrada e mesmo anos depois de as obras terem terminado, quando terminam, porque jamais foram feitas para serem terminadas, as placas nas quais lemos: OBRAS ou DESVIO, continuam no lugar, esquecidas. A estrada terminou e me vi na cidade diante de um impasse. Todas as setas mostravam que eu continuava na contramão. Era uma via única que se bifurcou, mas as duas ruas continuavam mão única. Se obedecesse à sinalização, teria de sair outra vez. Prossegui. Parei numa pracinha, entrei num estacionamento. Diária: grátis. Doze horas: 20 reais. 6 horas: 40 reais. 3 horas: 80 reais. 1 h 30: 160 reais. Meia hora: 300 reais. Estadas abaixo de meia hora implicarão no guinchamento do veículo. Bem, não sei quanto tempo fico na cidade, vou optar por uma diária, assim não pago nada. Sorri, espertamente, e o funcionário registrou uma diária e me entregou o ticket devolvendo o sorriso. Segui pela rua das Acácias e na próxima quadra a rua se transformou em Tilburi, mais uma quadra era Calêndula, e depois se tornou, seguidamente, dos Anjos Exterminados, das Mãos Queimadas, do Presidente Parlamentares Xifópagos (porque o presidente do Senado e o da Câmara tinham nascido grudados, ainda que de mães diferentes), Hot Springs, Hardsoft, Central, Nove de Julho, Sete de Setembro, 15 de Novembro, 31 de Julho. Perguntei a um vendedor de hot-dogs

– Que rua é esta, com tantos nomes? Que nome vale?

– Nenhum vale. Nenhum vale para qualquer das ruas, mesmo porque o nome de hoje pode estar amanhã em outro bairro, depende da vontade dos moradores. As placas de bronze são roubadas, volta ao nome anterior, porque as placas são pregadas umas sobre as outras. Quem fabrica as placas é o prefeito, de modo que ele enche a Câmara com decretos mudando os nomes. A verdadeira é um mistério igual o enigma: quem é o dono daquele gigantesco frigorífico?

Como é que nos orientamos então?

– Ninguém se orienta, este é o país dos desorientados.

Mas, ao menos, estou ainda no Brasil?

O senhor esteve. Mas pode não estar.

Ninguém faz nada, diz nada? E o governo?

– Hoje é um, semana que vem outro, está terceirizado, governa quem pagar mais.

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