Filipe Araújo/ Estadão
Filipe Araújo/ Estadão

Atrasado, teatro vira espaço para o crack

Terreno do complexo Cultural da Luz está cercado por cerca de 80 barracos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2013 | 02h08

Lixo jogado a céu aberto, usuários de crack, barracos construídos com restos de plástico e papelão. Isso é o que se vê no terreno que deveria sediar o Complexo Cultural da Luz. Lançado em 2008, o projeto viria a transformar o bairro, que já conta com a Pinacoteca e a Sala São Paulo, no maior distrito cultural da cidade. Passados 5 anos, porém, a proposta ainda não saiu do papel.

De acordo com o Secretário de Estado da Cultura, Marcelo Araújo, o cronograma segue em ritmo normal. Há um mês, ocorreu uma audiência pública sobre o projeto. A confecção do edital de licitação está em fase final, momento em que os preços são estipulados. E a expectativa é de que ele seja concluído e lançado ainda este ano. "As obras devem começar no primeiro semestre de 2014", disse ele, em entrevista ao Estado.

Os moradores de rua que hoje cercam a área usam a grade de um alambrado como apoio para construir seus barracos. Há cerca de 80 dessas habitações. A reportagem realizou duas visitas ao terreno. Em ambas, dois postos policiais e um carro da Guarda Civil Metropolitana estavam no local. "Não temos orientação para intervir", comentou um policial militar que não quis se identificar.

Do lado de dentro da cerca, não há casas levantadas. Mas uma abertura na grade permite a entrada dos usuários de crack. Também se pôde observar o despejo de lixo no terreno. "Não estamos fazendo nada errado. Só tentando conseguir um lugar aqui do lado de fora", comentou um homem, que se identificou apenas como Pedro. Ele relata estar há cerca de três semanas na região e nega que utilize drogas.

O secretário de Cultura, que trabalha no edifício da Sala São Paulo, exatamente em frente à área, relata ter percebido um crescimento do número de usuários de crack nas proximidades. "Nas últimas semanas, houve um aumento notável", diz ele. "É uma preocupação para todos na cidade. Um grande problema social."

Mudanças de datas. Aproximadamente R$ 170 milhões já foram gastos no Complexo, entre desapropriações e o desenvolvimento de projetos. Quem assina a proposta são os renomados arquitetos Jacques Herzog e Pierre De Meuron, vencedores do Pritzer - a mais importante premiação da arquitetura mundial - e autores de criações contemporâneas marcantes, como o estádio Ninho de Pássaro, em Pequim, e a Tate Modern, em Londres. Quem também já está trabalhando é a TPC - Theatre Projects Consultants, uma empresa britânica de consultoria, que orienta a construção de teatros em todo o mundo.

Sucessivos adiamentos marcam o Complexo Cultural da Luz. Foi anunciado durante a gestão do governador José Serra, em novembro de 2008. À época, a perspectiva do então secretário João Sayad era entregar o teatro concluído em 2010. Mas foi apenas naquele ano que começou a demolição dos prédios que existiam no lugar, entre eles a antiga rodoviária. Apenas o galpão que abriga o corpo de bombeiros permanece até hoje ocupando uma fatia na parte central do terreno.

A troca na secretaria de Cultura, que passou às mãos do atual vereador Andrea Matarazzo (PSDB) em 2010, trouxe novas mudanças. O prédio foi redimensionado e perdeu 30% de sua área original: os 101 mil m² de área construída tornaram-se 71 mil m².

Nesse período, as datas de inauguração também foram sendo gradativamente proteladas: em 2011, estava prometido para 2015; em 2012, passou a ser esperada para 2016. Agora, fala-se em 2017. Os valores também se modificaram com o tempo. Acreditava-se, no início, que custaria R$ 300 milhões. A conta passou a ser estimada em até R$ 600 milhões. Hoje, porém, o governo afirma que apenas após o edital de licitação poderá estimar o custo da obra.

Perspectivas. Quando concluído, o Complexo Cultural da Luz deverá reunir um teatro para dança e ópera, com 1.750 lugares, um teatro experimental de 400 lugares e uma sala para recitais, em formato oval, para 500 pessoas. Servirá também de sede para vários dos corpos estáveis da Secretaria, como a São Paulo Cia. de Dança, Escola de Música Tom Jobim e a Orquestra Sinfônica Jovem do Estado.

Diferentemente da Sala São Paulo, que é uma ilha de excelência fechada em si mesma, a proposta do novo edifício é se manter aberto permanentemente ao público. A concepção do escritório Herzog & De Meuron se inspira justamente nas ruas da cidade. Traz os vários pavimentos organizados como lâminas, pensados para convidar quem está passando a entrar. Quer, portanto, oferecer um espaço em que todos poderiam estar juntos. Em entrevista ao Estado, em 2009, o arquiteto Jacques Herzog disse que criou o projeto "para ser literalmente atraente, para atrair e receber bem todo o povo de São Paulo."

Contrução só será concluída em nova gestão. Se houver mudança no governo do Estado nas eleições do próximo ano, o Complexo Cultural da Luz dependerá do aval de um novo governador e de um outro secretário de Cultura do Estado. Sobre o assunto, o atual secretário de Cultura do Estado, Marcelo Araújo, diz não acreditar que uma troca do gestor interrompa os planos do novo teatro, que poderá receber um público de mais 2.200 espectadores e contará com tecnologia inédita no País. "É uma obra com uma visibilidade e uma importância que transcendem os mandatos. Não creio que seja interrompida."

NÚMEROS

170 milhões

de reais já foram gastos, entre desapropriações e projetos

2010

foi a primeira data definida pelo governo para a entrega do

complexo cultural

71 mil metros

quadrados é a área a ser ocupada pelo futuro Complexo Cultural da Luz, quando estiver pronto

600 milhões

de reais poderiam ser gastos, segundo recentes previsões

 

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