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Sérgio Augusto
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Atrás do arame farpado

As pessoas de bem com a razão, em escala mundial, se perguntam, estarrecidas, como o histrião demagogo Donald Trump conquistou e ainda mantém tantos adeptos. E mais: a quem compará-lo? 

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2016 | 02h00

Na história recente, nem ao velho e ultradireitista senador republicano Barry Goldwater. Noves fora a austeridade, Goldwater nem de longe ameaçou a vitória (afinal acachapante) do democrata Lyndon Johnson nas eleições de 1964, como Trump ainda ameaça a de Hillary. No mundo do imaginário, precursores não lhe faltam. 

O misto de Al Capone e Ricardo III de A Resistível Ascensão de Arturo Ui, sátira alegórica à ascensão de Hitler que Brecht ambientou na Chicago dos anos 1930, já foi lembrado, assim como a figura de Berzelius “Buzz” Windrip, o ditador criado por Sinclair Lewis no romance It Can’t Happen Here (Isso Não Pode Acontecer Cá, na tradução portuguesa). Também cabe nesse molde outro ditador ficcional: o Nathan “Shagpoke” Whipple de A Cool Million, que Nathanael West lançou em 1934, um ano antes de Lewis publicar sua distópica fantasia sobre a fascistização da América. 

Por ordem de entrada em cena, temos, primeiro, Shagpoke Whipple. Ele não começa protagonista, mas ascende a esse patamar. A Cool Million é uma sátira voltairiana à mitificação do otimismo na sociedade americana e seu protagonista inicial, Lemuel Pitkin, um amálgama de Cândido com o Joseph K. de Kafka. Antítese dos heróis otimistas de Horatio Alger (aquele mesmo que consagrou o mote colonizador “Vá para o oeste, rapaz, e cresça com o país”), Pitkin sofre o diabo: é explorado, perseguido, destroçado; nem morto o deixam em paz. Depois de enterrado, exploram-no como mártir do Partido Revolucionário Nacional, como um Horst Wessel do totalitarismo ianque. 

Líder do PRN, Whipple troca a Casa Branca pela banca e reinventa-se como um déspota racista, xenófobo, inimigo feroz do marxismo e do capitalismo internacional (como o então recém-eleito chanceler alemão Adolf Hitler) e tenaz baluarte da supremacia dos americanos “genuínos”, brancos e protestantes (como a então muita ativa Ku Klux Klan). Teria sido inspirado na figura de Calvin Coolidge, presidente americano entre 1923 e 1929, mas seu modelo mais translúcido foi o fanático supremacista William Dudley Pelly, criador dos Camisas Prateadas (Silver Shirts), grupo fascista equivalente aos camisas negras de Mussolini e aos camisas verdes do nosso Plínio Salgado. Sua retórica, puro oba-oba corporativista, foi comparada à de Ronald Reagan por Harold Bloom, que põe o romance nas alturas, merecidamente.

O que primeiro me impressionou em It Can’t Happen Here foi a capa. Diversas capas o romance ganhou nos seus 80 anos de livraria, mas a da edição em pocket que comprei na década de 1970 nunca me saiu da cabeça: uma cerca de arame farpado nas cores da bandeira americana. Ela sintetizava à perfeição o conteúdo do romance: a hipotética tomada do poder na América por um demagogo, no dorso de uma plataforma isolacionista, racista e chauvinista. Buzz Windrip e sua “revolução rotariana” submetem o país a uma ditadura facilitada pelo disseminado temor de que os comunistas e os banqueiros judeus tramam destruir o “verdadeiro espírito americano”.

“Minha única ambição é fazer com que todos os americanos acreditem que são e precisam continuar sendo a maior raça sobre a face da Terra”, apregoa Windrip em seu livro de campanha, Zero Hour, uma caricatura de Minha Luta. Com apoio do clero católico mais retrógrado, impõe-se como “Chief” (variação local do duce e do führer) e não dispensa a truculência dos que pretendem fazer a América prosperar na marra. Seus condottieri, metidos em uniformes iguais aos dos cavalarianos sulistas de 1870, ostentam no peito uma minúscula hélice, pois a estrela que a princípio o enfeitava (de cinco pontas, para não ser confundida com a de Davi) também fora abandonada para não lembrar a estrela comunista. 

Windrip persegue judeus, proíbe que negros votem, trabalhem em órgãos públicos, exerçam advocacia e o magistério além do primeiro grau, consegue banir divorciados e estrangeiros da indústria de entretenimento, torna obrigatório o culto à Bíblia e à bandeira. Nada disso poderia acontecer na América, mas no romance de Lewis acontece. 

Na vida real, em 1932 o democrata Franklin Delano Roosevelt vencera as eleições, deixando o republicano Herbert Hoover a latir sozinho contra a caravana do New Deal, graças ao qual a América logrou sair da crise social e econômica herdada do hooverismo. 

Três vezes eleito presidente, sucessivamente, FDR sofreria outra derrota fictícia na distopia de Philip Roth, O Complô Contra a América. Republicanos simpatizantes do nazismo, contrários à entrada dos EUA na guerra e açulados por uma tropa de choque similar, até na cor da camisa, à do ditador de A Cool Million, lançam a candidatura do herói da aviação Charles Lindbergh na eleição de 1940. FDR perde e ainda acaba preso, junto com o prefeito Fiorello La Guardia, depois que Lindbergh monta um arremedo de 3.º Reich no país, confinando judeus em guetos, “reeducando” negros em comunidades cristãs, assinando um pacto de não agressão com a Alemanha nazista. Antissemita confesso e detentor de uma medalha de ouro presenteada por Hitler, o Lindbergh real chegou a ter sua candidatura cogitada por alguns falcões republicanos. No romance de Roth, sua ditadura dura 28 meses. Antes do Natal de 1942, FDR volta à Casa Branca. Happy end.

O pioneiro nesse gênero de prosa especulativa sobre a degeneração da democracia americana foi Jack London. Em 1907, com o republicano Theodore Roosevelt (primo em quinto grau de FDR) na presidência, publicou um romance em que a palavra fascismo nem en passant é citada porque não existia. Não existia mas London captou a pestilência no ar com uma década de antecedência. A ditadura de O Tacão de Ferro (Iron Heel) é uma plutocracia em sua encarnação mais agressiva e pervasiva – uma tirania oligárquica que toma conta da América, do Canadá, México e Cuba, enquanto o Japão conquista a China e a Europa torna-se socialista. 

Algumas profecias do escritor de algum modo se concretizariam nas décadas seguintes ao período abordado no romance, 1912-1932. O socialismo europeu é um overstatement da social-democracia que no velho continente vicejou. Narrado na primeira pessoa por uma mulher, O Tacão de Ferro só foi traduzido aqui neste século, pela Boitempo. 

London nem sequer o iniciara quando Teddy Roosevelt, já presidente, ensinou aos estudantes de Direito de Harvard a maneira mais eficaz de ajudar os ricos a burlar as leis. Teddy, como Trump, era “very smart”. 

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