ATRÁS DE UMA GRANDE MULHER

Helen Mirren rouba a cena e diz que se inspirou em livro da filha dos Hitchcocks

PEDRO CAIADO, ESPECIAL PARA O ESTADO / LONDRES, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h11

Mais que um filme sobre o mítico diretor Alfred Hitchcock (1899-1980), o longa que estreia hoje é o primeiro a focar na vida conjugal do diretor, além da sua relação obsessiva com a estrela de seu filme de maior sucesso, Psicose, de 1960. No papel de Hitchcock, Anthony Hopkins, sob pesada maquiagem, e sua mulher e fiel escudeira, Helen Mirren - excelente como a mulher relegada, mas tão importante na vida do lendário diretor.

O filme é baseado livremente no livro de Stephen Rebello, que faz um estudo sobre o diretor e os bastidores de Psicose, tendo por base entrevistas com o próprio em 1980 e, depois desta data, até 1989, com pessoas que conviveram com ele. O novo longa mostra a tenacidade do diretor em sua batalha para convencer executivos e levar adiante o filme mais aterrorizante dos últimos anos, além de virar o holofote para seu tumultuado casamento. Apesar de ignorado na festa do Oscar - o filme foi indicado na categoria maquiagem e perdeu para Os Miseráveis -, Hitchcock é agradável de assistir e prova-se sim, revelador.

Diretor de primeira viagem, o londrino Sacha Gervasi, também jornalista e roteirista, tem como experiência anterior um documentário sobre a obscura banda de metal canadense Anviil. Não fosse esse grupo que pouca gente conhece, não existiria Hitchcock. Em entrevista em Londres, ele explicou como foi parar na direção do novo filme. "O documentário chamou a atenção dos produtores Tom Pollack e Ivan Reitman. Eles queriam apostar em um diretor novo", explicou o britânico de 46 anos, que também foi roteirista de O Terminal, de Spielberg.

"O projeto não caiu no meu colo. Precisei convencê-los e expliquei a minha identificação com a história. Como Hitchcock, eu também gastaria todo o meu dinheiro para levar um filme adiante", explica ele se referindo à obstinação do diretor. Gervasi mostra como Hitchcock enfrentou dificuldades e ceticismo para ter seu projeto aprovado, entre constantes negativas dos executivos da Paramount, censores e a descrença dos produtores, que o queriam, na realidade, no comando do primeiro filme de James Bond.

No fim, o próprio diretor estava descrente no sucesso do trabalho. No entanto, Psicose foi considerado um dos melhores filmes já realizados, com faturamento acima de US$ 50 milhões e quatro indicações para o Oscar, abrindo portas para um novo estilo no cinemão hollywoodiano. "Foi um fenômeno mundial. Eu acho que todo mundo que viu Psicose, como eu quando era mais jovem, sofreu um grande impacto. O lado negro e a violência eram chocantes", diz o diretor, acrescentando que a produção deveria ser proibida para menores de 19 anos, pelo menos.

Hitchcock joga luz em um outro lado do mestre, mas talvez a maior surpresa não venha de sua figura excêntrica, vivida por Anthony Hopkins, mas de sua mulher, Alma Reville, desconhecida do grande público e com quem foi casado por 54 anos.

"Nunca tinha ouvido falar nela. Estudei Hitchcock na universidade e sabia que ela existia, mas não tinha conhecimento da enorme influência dela sobre ele e a produção de Psicose", informa Gervasi. "Apesar do sucesso do filme, ela ficou na sombra por anos. Se você procurar na internet, não vai achar quase nada. Ela ficou longe dos holofotes de propósito. Não queria aparecer", recorda. "Queria trazê-la para a história e mostrar como esta mulher permaneceu firme ao lado de Hitchcock em diversos momentos, não só como esposa, mas também como colaboradora de confiança. Acho que ela era a única pessoa em quem Hitchcock confiava."

Em vários filmes de Hitchcock, Alma está nos créditos como corroteirista. É o caso de Suspeita, de 1941, e A Sombra de Uma Dúvida, de 1943. Ela é interpretada por Helen Mirren, que rouba a cena como a mulher ignorada e vítima das obsessões e transtornos do diretor durante as filmagens de Psicose. Mirren explicou que, também por ser casada com um diretor na vida real (Taylor Hackford, de Ray e O Advogado do Diabo), se identificou bastante com Alma em certos aspectos. "Ser ignorada em festas, por exemplo, é algo que eu passei muitas vezes. As pessoas só querem falar com seu marido", disse a atriz inglesa de 67 anos. "Mas em termos de colaboração no trabalho, não tenho com meu marido aquele tipo de relacionamento de Alma com Hitchcock. Nós nunca atrapalhamos o trabalho um do outro", esclareceu.

Para viver Alma, Mirren se inspirou em um livro escrito pela filha do casal, Patricia Hitchcock. "É a obra de alguém que viveu tudo aquilo de perto e conhecia os dois como ninguém. Ela relata a vida deles como comum, como a de qualquer outro casal. E ela escreveu o livro focando a história em Alma e não em Hitchcock", explicou. "Sem o livro, eu ficaria perdida."

A atriz também reflete sobre o papel do ator em produções cinematográficas. "Você é parte desta grande máquina de fazer filmes, mas as pessoas mais importantes são o diretor e o diretor de fotografia. Estes são os artistas, assim como Alma", defende ela, respondendo se trabalharia com Hitchcock. "Gostaria de atuar com ele hoje em dia, se isso fosse possível, mas não quando era jovem", garante a atriz que conheceu o diretor em teste para o filme Frenesi, de 1972, mas não foi selecionada.

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