Atrás da trilha de Lévi-Strauss

Um ano após a morte do antropólogo, documentário refaz sua expedição em busca de tribos brasileiras há 80 anos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2010 | 00h00

Exatamente um ano após a morte do antropólogo e filósofo franco-belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009), o canal ESPN Brasil exibe amanhã um documentário inédito, Viajantes Radicais: Pelo Caminho de Lévi-Strauss, sobre suas primeiras viagens pelo Brasil, entre 1935 e 1939. Pode parecer estranho um canal especializado em esportes dedicar um documentário ao homem que estudou as sociedades indígenas, mas nem tanto quando se vê a produção dirigida por Jader Lago. Nela, há espaço de sobra para antropologia e esportes radicais, até mesmo porque a expedição de Lévi-Strauss enfrentou temporais na serra da Bodoquena, no Mato Grosso do Sul, tendo de procurar abrigo em suas cavernas e enfrentar corredeiras perigosas para chegar às quatro tribos indígenas visitadas por ele, do Pantanal a Roraima.

Lévi-Strauss, que gostava de aventura, teve de fazer esse percurso de 4 mil quilômetros em velhos caminhões, mulas, cavalos e canoas. Obviamente, não faria sentido refazer esse caminho usando os mesmos recursos. O diretor Lago, seis décadas depois da histórica expedição antropológica, montou uma equipe de 20 esportistas radicais - profissionais do rafting e mergulhadores, entre eles - para explorar os territórios por onde passou Lévi-Strauss, um apaixonado também pela geologia.

Seguindo seus passos, a equipe do programa descobriu impressionantes cavernas na região da serra da Bodoquena, como o abismo Anhumas e a gruta do Mimoso, revelando formações calcárias sob a água cristalina que se assemelham a gigantescas esculturas, algumas com quase 20 metros de altura. "O documentário usa o esporte radical para mostrar que a aventura é tanto uma prática esportiva como a busca do conhecimento", justifica o diretor Jader Lago, paulistano de 29 anos que ficou fascinado ao ler Tristes Trópicos há dois anos.

Em busca das tribos estudadas por Lévi-Strauss, ele analisou os documentários e fotos deixados pelo antropólogo para refazer não só sua expedição pelo território brasileiro como refilmar as cenas captadas no passado, concluindo que as tradições indígenas foram mantidas desde os anos 1930, como o ritual fúnebre dos bororos, a ornamentação facial das mulheres da tribo kadiwéu e a festa da menina moça dos nambikwara. O próprio Lévi-Strauss aparece em fragmentos de outros documentários inéditos na TV brasileira, comentando essa expedição. Ele fala, inclusive, dos costumes dos nambikwara, que fascinaram o antropólogo por sua simplicidade. Uma das cenas mais bonitas mostra o conjunto de cachoeiras de Utiariti, visitado por Lévi-Strauss em 1938 - tão paradisíaco que sua expedição parou um dia só para observar a paisagem.

Segundo o diretor Jader Lago, foram três expedições feitas no segundo semestre de 2009, exigindo um investimento de quase R$ 500 mil, usado também para entrevistas com antropólogos franceses que foram colegas de Lévi-Strauss, como o professor e filósofo Philippe Descola, do Collège de France, autor de As Lanças do Crepúsculo, sobre sua convivência com os índios Achuar da Amazônia equatoriana, entre 1976 e 1978.

VIAJANTES RADICAIS: PELO CAMINHO DE LÉVI-STRAUSS

ESPN Brasil - Amanhã, às 21h30.

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