Jeff Zelevansky/AP-20/3/2000
Jeff Zelevansky/AP-20/3/2000

Atração e repulsa pelo mistério

Joyce Carol Oates conta como se interessou em escrever livro a partir de caso real e fala dos desafios impostos pela ideia

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2011 | 00h00

Entrevista

Joyce Carol Oates

Escritora

As famílias disfuncionais são todas iguais. Idem quanto aos "sobreviventes" - assim se inicia Minha Irmã, Meu Amor, em que Joyce Carol Oates dramatiza um fato real: o terrível assassinato de Jon Benet Ramsay, garota de 6 anos que se tornou um fenômeno na patinação no gelo. Sua morte, ocorrida há 15 anos nos Estados Unidos e até hoje não solucionada, desestabilizou a família, que vivia em função do sucesso da filha caçula.

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Prudente, a escritora trocou nomes (Jon se transformou em Bliss Rampike) e centralizou a narrativa em um longo depoimento de Skyler, o negligenciado irmão mais velho da garotinha, o remanescente de uma família em ruínas. No momento em que conta a história, ele está com 19 anos e relembra o crime acontecido uma década antes.

O período deveria ajudar a sedimentar os fatos, trocando suspeitas clamorosas iniciais por conclusões mais embasadas. Mas Skyler exibe uma narrativa frenética e fragmentada, o que o torna pouco confiável. Às vezes persuasivo e convincente, em outras irônico ao extremo, o discurso do jovem é a forma ideal encontrada pela escritora para detalhar a situação de um rapaz que foi explorado pela mídia, perseguido por colegas e distanciado da família. Um desajustado, enfim.

É sob sua visão parcial que se observa também a doentia construção de mitos infantis, algo infelizmente comum em pais socialmente frustrados - Bliss é obrigada a tomar injeções para adquirir rapidamente formas que a pouca idade ainda não lhe trouxe, além de usar trajes apertados, uma desesperada busca por uma sensualidade ainda incipiente. Por trás disso está a mãe dos garotos, que buscava injetar nos filhos o sucesso não conquistado em sua juventude.

Não fosse uma advertência da autora de que se trata de uma obra de ficção, o livro poderia se passar como escrito por Skyler: até a dedicatória é em homenagem a Bliss. Também sugestiva é uma das citações, de autoria de Kierkegaard, que reflete o espírito opaco do narrador: "O desespero é uma doença do espírito, do eu, e por isso pode assumir três formas: o desespero por não se ter consciência de ser um eu; o desespero pelo desejo de não ser um eu próprio; o desespero pelo desejo de ser um eu próprio".

Não se trata, no entanto, de um romance em que bate um coração frio - Joyce Carol Oates não esconde sua compaixão por personagens cruéis mas também danificados, como revela na seguinte entrevista ao Estado, realizada por e-mail.

Por que o interesse no caso de Ramsey? Ele estava relacionado à cultura do mundo dos tabloides?

Minha intenção era dramatizar a agudeza e o pathos particulares de uma vítima da cultura do tabloide - uma criança filha de pais famosos, cujo nome se transformou em algo familiar em todo o mundo. No começo, considerei escrever sobre um jovem cujo pai teria cometido um duplo homicídio, como aconteceu no caso de O. J. Simpson. Mas, mais tarde, resolvi escrever sobre um caso como o dos Ramsey, uma vez que ele segue sem solução e contém elementos tão trágicos - e o principal deles me parece ser a exploração e a vitimização de uma criança.

Um de seus livros, Zombie, é narrado a partir do ponto de vista de um serial killer, enquanto Minha Irmã, Meu Amor, por um sujeito suspeito, Skyler. Como você conseguiu relatos tão apurados?

Não acho que Skyler seja suspeito, talvez a palavra seja inseguro, alguém que se questiona demais, que se destrói. Na verdade, ele é um indivíduo totalmente inocente - seus pais são monstruosos. Tenho fé nos jovens em geral - Skyler é uma espécie de jovem velho, uma vez que já sofreu tanto e precisou crescer na sombra de pais famosos. Quentin P, de Zombie, é bastante diferente - ele é um assassino incapaz de se arrepender, envolvido em fantasias obsessivas. Mas ele não mente ao leitor, a quem fala com honestidade dolorosa e um tipo cruel, sutil, de humor.

Mais do que indigno de confiança, Skyler é um narrador instável. É um personagem capaz de inspirar tanto empatia como exasperação. Você acha que os leitores se identificarão com ele? Como você se identificou com ele?

A preocupação obsessiva de Skyler é com sua irmã Bliss. Ele a ajudou tanto quanto ela precisava ou a abandonou com sua mãe? Será que ele teve algo a ver com sua morte? Skyler me pareceu imensamente compassivo e sincero, de sua maneira oblíqua.

Famílias tem suas características, próprias, como os Rampikes, mas você acredita que existem verdades universais que podem ser aplicadas a todas elas?

A "família" está em constante transformação como termo sociológico nos Estados Unidos, assim como no mundo todo. Há agora famílias compostas de parceiros que não se casaram e seus filhos, incluindo filhos adotivos. O núcleo familiar à moda antiga parece estar no limite da dissolução.

Minha Irmã, Meu Amor parece particularmente desconcertante, uma vez que é uma comédia de humor negro inspirada em um caso de assassinato jamais resolvido. Foi difícil escrever um texto cômico sobre um crime tão recente e aflitivo?

Eu vejo o romance como "tragicamente cômico". Obviamente não há nada puramente engraçado no assassinato e na exploração de crianças, de jeito nenhum. Eu também estava interessada em tratar da tendência, cada vez maior na América, de encher as crianças de remédios, para que elas se "ajustem" à sociedade. Isso inclui os esteroides dados a jovens atletas.

Crimes envolvendo famílias sempre renderam boa literatura - me vêm à mente agora um clássico como A Sangue Frio, de Truman Capote. Como você explicaria isso?

Há algo de muito irresistível e único no mistério - para muitos de nós, essa atração é algo que já nasce conosco. Somos levados ao mistério mesmo quando a experiência será perturbadora e incômoda - e mesmo quando ele pode ficar sem resolução.

Essa temática também requer uma escrita violenta, como parece ser a de Skyler? Por que isso acontece?

A escrita de Skyler não é violenta, mas meditativa, analítica, ela busca desconstruir. O romance tem a forma de uma memória, de uma confissão, na qual toda a violência está no passado. Mas o fardo desse passado é vivido agora, é no presente que ele precisa ser compreendido. Este é o desafio, que Skyler enfrenta com coragem. No final, vemos que ele está pronto para seguir em direção ao futuro e deixar o passado trágico para trás.

Minha Irmã, Meu Amor

Tradução: Vera Ribeiro

Editora: Alfaguara (624 págs., R$ 67,90)

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