Atores negros abrem caminho nos palcos e nas telas

Quatro atores. Todos na plenitude de sua arte, interpretando bons papéis em teatro, cinema e televisão. De temperamentos, idades e tipos físicos diferentes entre si, os quatro têm em comum um evidente talento, o que deveria ser determinante nas suas carreiras. E têm outra característica em comum - Ailton Graça, Eduardo Silva, Guilherme Sant´Anna e Lázaro Ramos são negros. Será que a cor da pele limita ou limitará o que o talento não limitou? Afinal, por motivos óbvios (razões históricas amplamente conhecidas), a imensa maioria dos bons personagens do teatro ocidental são brancos. Portanto, se eles não encontrarem diretores que ousem colocar um ator negro para interpretar um personagem branco, seus currículos poderão ficar bem aquém de seu potencial.No momento, Ailton Graça, o Majestade do filme Carandiru, é o protagonista de uma bem-sucedida montagem de Otelo, de Shakespeare. Lázaro Ramos é o protagonista dos filmes Madame Satã e O Homem Que Copiava. Eduardo Silva integra o elenco da comédia As Nuvens e/ou um Deu$ Chamado Dinheiro, adaptação de duas peças de Sófocles. E pode ser visto ainda no papel de Bongô, nas reprises do Castelo Rá-Tim-Bum. Guilherme Sant´Anna viaja pelo País com A Importância de Ser Fiel, de Oscar Wilde, um dos maiores sucessos de público do repertório do Grupo Tapa, companhia na qual Guilherme atua desde sua fundação."Se a carreira de ator não é fácil para ninguém no Brasil, torna-se ainda mais difícil para o negro. Nós precisamos matar dois leões por dia", afirma Ailton Graça. "Eu comecei minha carreira muito cedo. Fiz muito papel de filho de escravo e bandido. Hoje, mais velho, interpreto escravo e bandido. Só espero não terminar a carreira fazendo pai e avô de escravo e bandido", brinca Eduardo Silva."O negro ainda é melhor aceito fazendo comédias do que dramas ou tragédias", observa Ailton Graça, cujo desejo é viver no teatro o protagonista em Macbeth, de Shakespeare. "Se a gente é pagodeiro, jogador de futebol ou bobo da corte, tudo bem. Se aparece de outra maneira, ainda provoca estranhamento." A verdade é que dificilmente um ator negro assume no teatro, cinema ou televisão o papel de um personagem branco. Quando isso ocorre, em geral é em algum tipo de adaptação, coisas como uma "leitura afro" de Hamlet. "Os caras só escalam um negro se estiver especificado na rubrica do autor. Falta ousadia. Quando o diretor ousa, o público aceita", observa Eduardo Silva.Papel de bandido - "Eu considero isso um atraso na cabeça do contratante", diz Lázaro Ramos. "Na minha cabeça, nada é limite. Esse é um dos princípios da arte", argumenta. Caçula da turma, ele vive no filme O Homem Que Copiava um papel que poderia perfeitamente ser interpretado por um ator branco. O diretor Jorge Furtado deixa bem claro que o ator é negro, mas o personagem não necessariamente, atitude que foi motivo de crítica, como se o cineasta, por ignorância, não tivesse levado em conta o preconceito racial que cercaria o personagem. "Jorge Furtado fez teste com 60 atores. Queria ator para um personagem jovem e tímido. Escolheu-me pela adequação ao papel. O fato do racismo não ser tema do filme acaba fazendo dele um tema. De outra forma. Até mais ousada."O diretor Roberto Santos também não procurava um negro quando testou Ailton para integrar o elenco do filme Contra Todos. "Fiz muitos testes. Precisava de um ator capaz de interpretar extremos, do simpático ao terrível, do cativante ao assustador. Era um papel difícil, ninguém satisfazia. Mas como havia um clima de violência no filme, eu temia colocar negros em papéis centrais. Ao testar Ailton, cheguei à conclusão de que seria preconceito às avessas não aproveitá-lo. Ele fez o teste no último dia. E ficou com o papel. "A onda do "politicamente correto" nem sempre abre caminhos, pelo contrário. "Eu já fui criticado pelo movimento negro por fazer papel de bandido", lembra Eduardo. "Eu soube que já deixaram de me chamar para fazer um comercial porque o papel era de um assaltante. E não ficava ´bem´ chamar um ator negro", completa Guilherme. Eduardo fala de seu conflito interno quando atuou na peça infantil A Dama e o Vagabundo. "Por mais que eu fizesse o vagabundo de um jeito charmoso, ficava sempre em dúvida se a associação entre o personagem e o negro não seria ruim." Um ator branco jamais viveria esse dilema."Uma das soluções, seria mesmo a lei de cotas, a obrigatoriedade de empregar negros", diz Eduardo. E o risco da ´paternalização´ com atores negros sem talento sendo contratados? "Ao menos teríamos atores negros ruins. Só brancos têm esse direito? Eu quero tudo, inclusive o direito de errar. Por que negros têm de ser sempre muito talentosos? Não, todos temos o direito de errar, de aprender, de exercitar", argumenta Lázaro. "De início, reclamaram da obrigação da exibição de filmes brasileiros (a chamada cota de tela). Atualmente, estamos estourando a cota e ninguém mais reclama de exibir Carandiru ou Cidade de Deus."

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