Atores de Brasília dão voz a "Os Miseráveis"

Adaptação do romance homônimo de Victor Hugo, o musical Les Misérables vem conseguindo a proeza de manter em cartaz sessões diárias de quarta a domingo - duas no sábado e ainda eventuais apresentações extras às terças, como é o caso de amanhã à noite. Há quem viaje cinco ou mais horas saindo de cidades como Marília ou São José do Rio Preto, em ônibus fretados especialmente para ver o espetáculo em temporada no Teatro Abril.Esse deslumbramento não é unânime. Com canções traduzidas para o português por Cláudio Botelho, o espetáculo é reprodução fiel da montagem londrina e, mesmo entre os amantes do gênero, entre assíduos freqüentadores de musicais da Broadway ou do West Side, há quem faça restrições à qualidade musical e à diluição do romance original, à fragilidade da dramaturgia de Les Misérables. Porém, mesmo quem não morre de amores pelo espetáculo sai da sessão elogiando a competência da montagem brasileira e o bom nível dos atores/cantores. Todos desconhecidos do grande público. "De onde saiu tanta gente boa?", perguntam-se os espectadores à saída da apresentação.A investigação sobre a origem do elenco revela uma interessante curiosidade. A forte presença de atores/cantores de Brasília. São nove. Pode não parecer muito num elenco de 35. Mas o pouco vira bastante quando se constata que são apenas 11 os papéis principais - incluindo-se aí duas crianças com pequena, mas importante, participação - e seis brasilienses estão nesses papéis. E um sétimo é o eventual substituto do protagonista.Coincidência? Não é bem assim. Antes de mais nada a maioria fez sólida formação na Universidade de Brasília (UnB). E mais. Todos passaram pela orientação de um mesmo professor - Marconi Araújo, diretor musical e maestro de Les Misérables, um pernambucano de 31 anos, que se mudou para Brasília aos 12. Formado em composição e regência, ele tem verdadeira obsessão pela formação de atores para musicais. E, garante, um método próprio.Em 1992, Marconi fundou a Associação Coro Feminino e Masculino de Brasília e, em 1997, a Companhia de Musicais de Brasília com a qual realizou algumas montagens, entre elas de Jesus Cristo Super Star. Recentemente, planejou a montagem de O Fantasma da Ópera, mas não conseguiu patrocinadores. No ano passado, praticamente todos os atores vieram a São Paulo para fazer audições para Les Misérables. E passaram.A coincidência da cidade de origem também chamou atenção dos responsáveis pela seleção de elenco. E justamente por isso Marconi acabou sendo convidado para a direção musical do espetáculo. "Quando descobriram que eu tinha formação de maestro, colocaram-me também para reger a orquestra." Melhor - ou pior - para seus alunos. De frente para o palco, Marconi observa sua turma a cada noite. E tem sempre reparos a fazer. "Todo mundo pode errar, menos os alunos dele. Ele faz cara feia ao mínimo deslize", diz o tecladista da orquestra, Marcelo Castro, um carioca que saía do Rio, nos fins de semana, para ter aula com Marconi em Brasília. "Ele é obsessivo com a formação. Mesmo nos dias de folga do elenco, ele dá aulas o dia inteiro", comenta Saulo Vasconcelos, o intérprete do implacável policial Javert.Marconi sonha com uma escola de canto. Mas não uma escola qualquer e sim uma especificamente voltada para musicais. "No Brasil, não conheço especialistas nesse tipo de canto, que é diferente do canto lírico. A ópera, que mais se aproxima do musical, nasceu da música. Na ópera, a música se tornou teatro. No musical, o teatro se tornou música", distingue. "O que eu trabalho é uma emissão vocal relacionada estritamente com o texto. É o texto que diz de onde a voz deve vir."Segundo ele, no bom musical o público não deve "perceber" que o ator está cantando. Como no teatro, o que deve sobressair são os diálogos. "O que o espectador quer e deve ouvir, em Les Misérables, é a história de Victor Hugo." A julgar pela reação do público, Marconi alcançou seu intento.Les Misérables. Musical. Baseado em romance de Vítor Hugo. Direção Ken Caswell. Duração: 3 horas. Quarta a sexta, às 20h30; sábado, às 17 e 22 horas; domingo, às 18 horas. De R$ 20 00 a R$ 120,00. Teatro Abril. Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411, tel. 3115-4771. Amanhã (10), sessão extra às 19h. Até dezembro.

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