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Ator talentoso, Claudio Marzo teve trajetória marcante no cinema, teatro e televisão

Artista morreu neste domingo, 22, devido a problemas pulmonares; veja galeria de imagens

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

22 Março 2015 | 14h28

O paulistano Claudio Marzo desenvolveu extenso trabalho como ator no teatro, no cinema e na TV. Se o grande público não o esquece como o Velho do Rio na novela Pantanal, da Manchete, o de cinema tem na memória o guerrilheiro de Nunca Fomos Tão Felizes (1984), de Murilo Salles, talvez o seu trabalho mais profundo na tela grande.

Marzo trabalhou também numa infinidade de filmes. O primeiro, O Mundo Alegre de Helô, em 1966. O mais recente, A Casa de Mãe Joana, de 2008.

Fez parte do elenco de filmes notáveis como Lira do Delírio (1973), de Walter Lima Jr., e de grande sucesso, como A Dama do Lotação (1977), que Neville D'Almeida adaptou de Nelson Rodrigues e se transformou numa das maiores bilheterias do cinema nacional em todos os tempos.

Trabalhou com Hugo Carvana em várias ocasiões. Na comédia Se Segura Malandro (1977), na refilmagem de O Homem Nu (1997) e, por fim, em A Casa da Mãe Joana. Essa constância no elenco de um diretor que valoriza a comédia, constata o óbvio - Marzo tinha senso cômico, que usava com a mesma parcimônia de seu tino para o drama. Sem exageros, numa interpretação cool. No riso como no choro.

Sua carreira começou meio por acaso, como acontece com muitas delas, senão com a maioria. Marzo, muito jovem e sem experiência, inscreveu-se em 1957 para trabalhar como figurante na antiga TV Paulista, que então promovia um teleteatro muito popular. Era ainda a fase heroica, de desbravamento da TV brasileira, que havia chegado ao País em 1950, e as peças televisionadas faziam muito sucesso. O iniciante deu-se bem e acabou se transferindo para a TV Tupi, onde se incorporou ao elenco do programa fixo Teatro de Comédias. Quer dizer, as primeiras experiências de Marzo deram-se no espaço exíguo da televisão, mas exercitando-se no teatro transmitido pelo novo veículo.

Desse trabalho contínuo na TV nasceu o convite para o Teatro Oficina, de José Celso Martinez Corrêa, no qual participou de uma encenação que entrou para a história do teatro nacional - Os Pequenos Burgueses, marco dos anos 1960. Essa participação deu-lhe o prêmio de ator revelação em 1964 e, no ano seguinte, transferiu-se para a TV Globo.

Ao mesmo tempo em que participa de novelas como Rainha Louca, Véu de Noiva e Minha Doce Namorada, funda, com sua então mulher, a atriz Betty Faria, a Companhia Teatral Brasileira.

No cinema, os primeiros passos não são lá muito notáveis, mas destaca-se a partir de Os Condenados (1973), de Zelito Viana, e Parahyba Mulher Macho (1982), de Tizuka Yamasaki. Faz um papel sensível, um professor retraído, em Fulaninha (1984), de David Neves, mas os dois trabalhos que o tornam mais notável, em termos de cinema, são o do escritor Sílvio Proença, na refilmagem de O Homem Nu, feita por Hugo Carvana, e o ativista político de Nunca Fomos Tão Felizes, de Murilo Salles.

Neste, um filme ainda realizado na fase final da ditadura, temos um encontro minimalista entre pai e filho num despojado apartamento na Avenida Atlântica. O pai (Marzo) aparece e some sem maiores explicações e não pode dizer para onde vai, e nem o que faz, por motivos de segurança. O filho, vivido por Roberto Bataglin, fica sozinho, com uma TV, sua guitarra e seus sonhos. A mãe já morreu. É um trabalho de sutilezas, de tempos mortos, porém cheios de significado.

Fala do problemático reencontro entre pai e filho, separados pela contingência da luta política. Fala também de um momento terminal da história brasileira, um clima de saturação da ditadura, mas sem saídas à vista. Filme de estreia de Murilo Salles, já então um fotógrafo conhecido no meio cinematográfico, revela um diretor sensível e antenado no momento histórico do País. O longa é baseado no conto Alguma Coisa Urgentemente, de João Gilberto Noll.

Já em O Homem Nu temos a refilmagem do conto de Fernando Sabino, cuja primeira versão se deve ao diretor paulista Roberto Santos (o mesmo de a obra-prima A Hora e a Vez de Augusto Matraga). A situação é bem conhecida. Um homem vai pegar o pão deixado à porta da casa, enrolado apenas em um roupão. Por descuido, a porta fecha-se à sua costa, e o roupão fica preso. Está nu e, por uma série de circunstâncias vê-se obrigado a sair à rua, tentando resolver de algum modo a situação. Na versão de Roberto Santos, de 1968, o ator é Paulo José, e o tom, a angústia diante dessa situação mais que incômoda, de fato kafkiana.

Claro que tudo evoca algo que vai além da vergonha diante da nudez. O clima político da época era sufocante e todos sentiam-se, por assim dizer, nus e sem esperança. O relato foi a maneira de o artista que era Roberto Santos expressar aquele sentimento geral.

Bem diferente é a época em que Hugo Carvana resolve voltar ao texto de Sabino e reinterpretá-lo. Se o país de 1997 ainda tem muitos problemas, pelo menos pode-se discuti-lo na esfera pública sem risco de acabar no calabouço ou coisa pior. Desse modo, Carvana, fiel ao seu estilo, pode impor ao relato um tom resolutamente de comédia. Marzo é o professor, já meio entrado em anos, que se vê às voltas com a incômoda situação. Com seu talento, proporciona boas risadas, embora haja na história um travo de angústia. Afinal, ver-se nu ainda é um pesadelo recorrente para muitas pessoas.

De qualquer forma, o tom é de farra. O escritor de meia idade Silvio Proença vai lançar seu livro em São Paulo, mas no Santos Dumont fechado por mau tempo, ele encontra um grupo de amigos, servem-se de bebidas, aparecem uns músicos e ele conhece uma senhorita muito interessante. No apartamento onde acorda, deixa a moça na cama, vai buscar o pão na porta...e o pesadelo tem início. Não dá para esquecer de Claudio Marzo e nas peripécias que virão a seguir. Grande ator.

Veja o trailer de O Homem Nu:

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