Silvana Garzaro/Estadão
Silvana Garzaro/Estadão

Ator Sérgio Mamberti morre aos 82 anos em São Paulo

Conhecido como Dr. Victor do 'Castelo Rá-Tim-Bum', ele estava internado com infecção nos pulmões e teve falência múltipla de órgãos

André Carlos Zorzi, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 06h49

O ator Sérgio Mamberti, de 82 anos, morreu na madrugada desta sexta-feira, 3, em São Paulo. Ele estava internado com uma infecção nos pulmões em um hospital da rede Prevent Sênior e teve falência múltipla de órgãos.

Em julho deste ano, o ator já havia sido hospitalizado para tratar de uma pneumonia e chegou a passa por uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

O velório acontecerá nesta sexta, entre 12h e 14h, no Teatro Sesc Anchieta (R. Dr. Vila Nova, 245), conforme seu desejo, e será fechado para a família e amigos próximos, devido às limitações impostas pela pandemia. O corpo será sepultado no Cemitério da Consolação, após às 15h.

Ator, diretor e artista plástico, deixou sua marca na dramaturgia brasileira no teatro, cinema e televisão. Também se notabilizou como ativista político, chegando a ocupar cargos ligados ao Ministério da Cultura durante os governos Lula e Dilma, como o de presidente da Funarte.

Seu papel mais lembrado é provavelmente o do personagem Dr. Victor, de Castelo Rá-Tim-Bum (1994), que marcou gerações de pais e filhos com o bordão "Raios e trovões". Em entrevistas, costumava citar o personagem como um “alter ego”, que causava simpatia e lembranças nos mais variados grupos de pessoas, como crianças, membros da comunidade LGBT ou indígenas.

Outra interpretação marcante foi a do Mordomo Eugênio, o culto funcionário de Odete Roitman (Beatriz Segall) na novela Vale Tudo (1988). O personagem fez sucesso além do público brasileiro: no começo dos anos 1990, durante uma viagem a Cuba (onde uma versão dublada havia acabado de ser exibida), Mamberti foi recepcionado como hóspede oficial de Fidel Castro e chegou a ser ovacionado pelo público nas ruas.

Mamberti nasceu em 22 de abril de 1939 e,durante a juventude, frequentou a Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (USP). Foi à época em que estava no primeiro ano de seus estudos que seu nome figurou no Estadão pela primeira vez, em 12 de dezembro de 1958, quando interpretou o “Moço da Cadeira” em montagem de Auto da Barca do Inferno.

"Nasci em Santos e era cinéfilo de frequentar clube; com uns 14 anos, conheci e fiquei amigo da Pagu (a escritora Patricia Galvão) que, na época tinha cerca de 50, sem saber quem ela era. Nós éramos vizinhos e acabamos nos aproximando - ela estava muito apaixonada por teatro nessa época. Quando vim para São Paulo, convivi muito com os reflexos do modernismo na perspectiva histórica de reconstrução do País após a ditadura de Getúlio Vargas, com a possibilidade de fazer reformas de base. O teatro tinha adquirido uma aura muito especial a partir do trabalho do TBC [Teatro Brasileiro de Comédia]. Os grandes diretores que vieram da Itália moldaram gerações de atores. Tudo isso estava muito presente quando cheguei", relatou Mamberti, em texto publicado na Folha de S. Paulo, em 2019.

"Eu vim da Escola de Arte Dramática e tinha uma formação bem tradicional de teatro. Foram quatro anos de escola moldada nos padrões do Conservatório Dramático francês, muito rigorosa. Trazia os diretores internacionais que vieram para o TBC, mas também os uspianos, como Décio de Almeida Prado", continou o ator.

Na peça Antígone América, de Carlos Henrique Escobar e dirigida por Antonio Abujamra, fez sua estreia profissional e também contracenou pela primeira vez com o irmão, Claudio Mamberti (morto em 2001, aos 60 anos). Na década de 1960, Sérgio Mamberti fez parte do Grupo Decisão, do qual também participaram nomes como Antônio Abujamra, Jardel Filho e Glauce Rocha. A peça O Inoportuno, em que contracenou com Fauzi Arap e Emílio di Biasi, lhe rendeu o prêmio Saci, entregue pelo Estadão em 1965, de melhor coadjuvante masculino.

Sua atuação na peça Réveillon (1975), que chegou a encenar dias após a morte do pai, lhe rendeu prêmios como o Molière, APCA e Governador do Estado. Uma montagem de Navalha na Carne foi outro ponto marcante na trajetória do ator nos palcos.

Em 1997, questionado sobre a reação de familiares e amigos à sua atuação do personagem gay da peça, Veludo, revelou ao Estadão: "Já tinha dois filhos e eles eram muito pequenos na época. Ganhei muito dinheiro, montando minha casa na Rua dos Ingleses com o salário da peça. Aceitei o papel, contrariando o alerta de amigos. Considero o Veludo um dos grandes papéis de minha carreira".

"Mas recebi telefonemas e cartas me ameaçando de morte, logo depois de Roda Viva, porque minha casa virou enfermaria dos atores espancados no teatro. De qualquer modo, as ameaças eram muito mais por causa do Veludo de Navalha na Carne", continuava.

Sérgio Mamberti também esteve em espetáculos como O Balcão (1969), O Jogo do Poder Segundo Shakespeare (1974), A Noite dos Campeões (1977), Chuva (1978), Hamlet (1984), Tartufo (1984), O Drácula (1986), Pérola (1995), A Tempestade (2002), Visitando o Sr. Green (2018), Um Panorama Visto da Ponte (2018) e O Ovo de Ouro (2019). Em agosto de 2019, foi tema da exposição Comandante Mamberti, que trouxe colagens e fotos históricas de sua carreira na Galeria São Paulo Flutuante.

Durante a pandemia de covid-19, Sérgio Mamberti continuou trabalhando. Esteve nas peças online A Semente da Romã e Novo & Normal, estrelou um solo digital baseado na obra de Plínio Marcos e leu A Mosca Verde como parte do projeto Rede de Leituras. Ao Estadão, em maio de 2021, destacava: "Me mantive produtivo, mas nossa classe foi a que mais sofreu e ainda sofre com a pandemia e o desmonte da cultura. Nossos governantes temem os artistas e grandes pensadores, porque deixamos os reis nus. Eles nos atacam e tentam nos destruir, mas nós resistimos".

Em 1997, analisava, ao jornal: "Eu fiz toda uma gama de personagens em 70 peças ao longo desses 35 anos de carreira. Fiz desde tragédia grega a musicais, passando por espetáculos tradicionais e de vanguarda. Fiz muito Shakespeare e tenho me especializado em dramaturgia brasileira nos últimos anos".

No teatro, também esteve à frente de diversas peças como diretor, como Coraçãonaboca (1983), Minhas Mulheres Loucas (1989), Luar em Preto e Branco (1991) e Os Bichos Refeitos (1992). Durante alguns anos, dirigiu o projeto Cult Crowne e também o Projeto Balanço Geral, de 1985, que buscava sintetizar 20 anos de teatro brasileiro. Também em 1997, falava sobre seu trabalho mais gratificante até então: "A primeira, uma peça muito difícil, Concerto nº 1, que falava da morte de um ativista político. Fiz essa peça em 1976, juntando a contracultura e a esquerda. Tanto que os esquerdistas, na época, ficaram bravos comigo, porque achavam que eu estava confundindo o revolucionário com o maconheiro".

Começou a carreira televisiva em novelas da Record, com Ana, em 1969. Na sequência vieram Algemas de Ouro (1969), As Pupilas do Senhor Reitor (1970), Os Deuses Estão Mortos (1971), Quarenta Anos Depois (1971). Fez Dinheiro Vivo (1979) na Tupi e Brilhante (1981) e Transas e Caretas (1984) na Globo. Nos anos seguintes, foi para a Manchete, onde atuou em Dona Beija (1986) e Helena (1987). Interpretou o Mordomo Eugênio em Vale Tudo (1988) e variou de emissora mais algumas vezes até retornar em definitivo à Globo a partir de 1992. Teve participação em produções marcantes mais recentes como O Clone (2001), O Profeta (2006) e O Astro (2011). Em Flor do Caribe (2013), reprisada durante a pandemia em 2021, deu vida ao vilão nazista Dionísio. Três anos depois, fez uma participação em Sol Nascente, como Manfredo, ex-namorado da personagem Geppina (Aracy Balabanian) que a reencontra anos depois. Em 2016, também esteve no elenco de 3%, série brasileira da Netflix.

O convite para o Castelo Rá-Tim-Bum veio na década de 1990. Ao todo, gravou durante um ano e meio, que Mamberti relembrava como períodos de convivência como uma "grande família" - apesar de dificuldades como o calor nos estúdios, por vezes sem ar-condicionado. Os episódios foram exibidos originalmente pela TV Cultura entre 1994 e 1997, com extensos períodos de reprise posteriormente. Na trama, vivia o tio do protagonista, Nino (Cássio Scapin). Sempre que se aproximava do castelo mágico, um relógio próximo à porta anunciava: "O Dr. Victor está chegando... O Dr. Victor chegou!"

Assita ao vídeo:

No cinema, esteve em filmes como Parada 88 (1978), Sonho Sem Fim (1985), O Mentiroso (1987), A Dama do Cine Shangai (1988) a cinebiografia Bachianas Brasileiras - Meu Nome É Villa-Lobos (1979), O Olho Mágico do Amor (1981), Hans Staden (1999), Xuxa Abracadabra (2003). Também reviveu o personagem Dr. Victor em Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme (2000).

Ao longo das décadas, Sérgio Mamberti se manteve como ativista político ligado à esquerda, principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT). Durante os governos federais petistas, chegou a ocupar cargos do Ministério da Cultura como secretário de Música e Artes Cênicas, secretário da Identidade e da Diversidade Cultural, presidente da Funarte e secretário de Políticas Culturais.

Ao Estadão, em outubro de 2000, explicava: "A minha militância partidária só aconteceu por eu achar que a cultura tem um papel muito importante na construção de uma sociedade realmente democrática. É através do processo cultural que se constroem os valores sociais. É através da garantia da expressão do cidadão que você começa a pensar em cidadania cultural".

Sérgio Mamberti foi casado com Vivian Mahr entre 1964 e 1980, ano em que ficou viúvo após a atriz sofrer com uma insuficiência respiratória. "Tivemos três filhos e ela foi muito importante em minha vida. Era uma figura extraordinária. Numa viagem de ácido, Vivian mudou seu nome para Hard Smile e, durante a temporada de Labirinto com o Walmor Chagas, em Goiânia, um técnico que não sabia pronunciar Hard Smile a chamou de Dona Rata. Aí, no final da vida, ela resolveu assinar a direção de seus filmes com o nome de Riacho Reluzente. Todos os meus filhos seguiram a carreira artística", relembrava sobre a mulher, ao Estadão, em 1997.

Seus filhos, Duda, Carlos e Fabrício Mamberti, tinham, respectivamente, 14, 12 e 10 anos à época da morte da mãe. Em entrevista ao Estadão, em 1996, o ator relembrava o período difícil: "Tinha de viajar a trabalho para o Rio e ficava com o coração apertado em deixar o Duda, o mais velho, cuidando do caçula. A educação é uma responsabilidade muito grande e mais de uma vez eu me senti só, questionando se estava no caminho certo. Foram muitas crises, brigas com namoradas, dor de cotovelo, mas, com afeto e diálogo, construí uma relação forte e saudável, preservada até hoje". Em determinado momento, Sérgio também chegou a apadrinhar Danielle, então aos 11 anos, filha de uma antiga empregada que trabalhava em sua casa.

Anos depois da morte de Vivian, o ator entrou em um relacionamento com Ednardo Torquato, com quem passou a viver junto em 1985. O casal permaneceu unido pelos 37 anos seguintes, até a morte de Torquato, em 2019.

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