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Ator Sérgio Britto morre aos 88 anos

Ator foi responsável pela direção da primeira novela da Rede Globo, 'Ilusões Perdidas', em 1965

17 de dezembro de 2011 | 11h09

Morreu neste sábado no Rio de Janeiro aos 88 anos o ator e diretor de teatro Sérgio Britto. Internado há um mês por problemas cardiorespiratórios no hospital Copa D'or, em Copacabana, zona sul do Rio, Britto faleceu por volta das seis da manhã, por insuficiência respiratória aguda. O governador do estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, decretou luto oficial de três dias em memória ao artista.

 

O corpo do ator Sérgio Britto será velado a partir das 14h deste sábado na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. O enterro deve acontecer às 11h do domingo, no Cemitério de São João Batista, no bairro de Botafogo, zona sul do capital fluminense.

 

Aplaudido também por seu trabalho como empresário e diretor de teatro e ópera, o ator Sérgio Britto pode ser definido como um artista bem-sucedido em todos os aspectos de sua carreira. Em vez de acomodar-se sob a imagem de medalhão, sua inquietação de artista o levou a criar desafios para si próprio ao longo da vida, entre eles, a ensaiar nu sob a batuta do argentino Victor Garcia em Autos Sacramentais ou a convidar o diretor Gerald Thomas para dirigir Quatro Vezes Beckett no seu na época prestigiado Teatro dos Quatro. Consagrado no chamado teatrão, ao longo de sua vida fez algumas intensas e significativas incursões pelo chamado teatro experimental.

 

Outro aspecto libertário - para os homens de sua geração - foi ter assumido sua homossexualidade com naturalidade, sem levantar bandeiras, com elegância e sem hipocrisia.

 

Britto nasceu no dia 29 de junho de 1923, na Rua da Alfândega, centro do Rio, e viveu sua infância e juventude no bairro de Vila Isabel. A paixão pela ópera e pelo teatro começou cedo, levado por seu pai. Mas nem por isso sentiu-se atraído pela carreira artística. Era um estudante de medicina quando, por acaso, passando por um corredor da Escola Nacional de Música, foi chamado pela diretora Jerusa Camões para atuar no Teatro do Estudante. No dia 22 de novembro de 1945, sobe ao palco pela primeira vez no papel de Benvoglio, numa montagem de Romeu e Julieta, sob a batuta da 'ensaiadora' Esther Leão. Achou tudo muito curioso, interessante, mas continuou seus estudos.

 

Formou-se em Medicina, no Rio. Em 2 de janeiro de 1948 recebeu o diploma. Quatro dias depois, estréia no papel de Horácio na montagem de Hamlet, também no Teatro do Estudante criado por Paschoal Carlos Magno, que projetaria o jovem ator Sérgio Cardoso. O sucesso de público levaria à platéia um espectador especial - seu pai, que ao final vai até o camarim cobrar-lhe dedicação à medicina. Não dormiu aquela noite, mas pela manhã a decisão estava tomada: ficou com o teatro.

 

E junto com Sérgio Cardoso e outros dez atores, fundou o Teatro dos Doze, que só duraria oito meses. O fiasco da companhia resultou num convite para integrar o elenco do cobiçado Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em 1950. Em entrevista ao 'Estado', anos depois, contou ainda nessa época ainda não se sentia um ator de verdade, tinha muitas inseguranças sobre a carreira e o seu próprio talento. Isso mudou em 1953 com um convite do diretor José Renato que acabara de fundar o Teatro de Arena, então ainda itinerante. Sob sua direção, criou o personagem Crokson, da peça Uma Mulher e Três Palhaços, de Mrozeck. "Eu fazia um tipo, uma composição; dançava, pulava, tinha uma atuação estilizada, não realista, desafiante, totalmente diferente do que vinha fazendo até então", disse ele na mesma entrevista. "Então senti que era um ator."

 

No ano seguinte, na companhia de Maria Della Costa, trava conhecimento com um diretor que será importantíssimo em sua carreira, o italiano Gianni Ratto, que a atriz convidara para inaugurar seu teatro na direção do espetáculo O Canto da Cotovia. Com ele, voltaria ao TBC, teatro onde atuou em peças importantes como Panorama Visto da Ponte, de Arthur Müller e Pedreira das Almas, em ambas contracenando com Nathália Timberg, companheira de muitas atuações no futuro, entre elas, Assim É se lhe Parece, de Pirandello e O Jardim das Cerejeiras, de Chekhov, ambas no Teatro dos Quatro, no Rio. A mais recente contracena foi na remontagem de O Querido Mentiroso, que estreou em 1999 em São Paulo, trazendo o ator à cidade depois de 30 anos de afastamento.

 

Homem de teatro de muitas facetas - ator de teatro, teleteatro e novelas; diretor de teatro e ópera -, conseguiu ser bem-sucedido em todas elas. Embora a arte teatral tenha se mantido como a grande musa de sua vida, Sérgio Britto não se furtou em flertar com outras. A televisão foi uma delas. Foi criador do Grande Teatro Tupi, programa de teleteatro da extinta TV Tupi, que exibia peças famosas adaptadas para televisão. Participou de mais de 30 obras televisivas como ator e diretor. No cinema, atuou em mais de 15 filmes, sendo dirigido por nomes como Cacá Diegues (em "O Maior Amor do Mundo) e Paulo Cesar Saraceni ("O Desafio").

 

Mas o teatro foi sua grande paixão. Fundador da companhia Teatro dos Sete com Fernanda Montenegro e Ítalo Rossi, na década de 50, Britto idealizou o Teatro dos 4, que se tornou conhecido por seu repertório experimental. Ao receber em 2009 o Prêmio Shell de melhor ator, pela atuação no espetáculo duplo A última gravação de Krapp e Ato sem palavras I, foi aplaudido de pé pela platéia que lotava o teatro Oi Casa Grande, no Rio. Costumava dizer que o teatro era maior do que a vida. E a vida, pouca, para tão grande experiência.

Repercussão. Juca de Oliveira, ator. "Foi uma perda terrível. Sérgio Britto foi uma das maiores vocações do teatro brasileiro de todos os tempos. Foi um amigo excepcional, culto, que deixou às gerações futuras ensinamentos valiosos sobre teatro. Deixa um buraco enorme em nossa alma".

 

Walmor Chagas, ator . "Tinha grande conhecimento sobre teatro, conhecimento internacional. Ele amava o teatro. Vai fazer uma falta enorme".

 

Rodrigo Pandolfo, ator. "Foi uma grande referência para nosso trabalho, para nosso palco. O que ele deixa para as próximas gerações de atores é o amor à arte".

 

Sérgio Cabral, governador do Estado do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho. "Morre um dos maiores atores da história da dramaturgia brasileira. Culto, elegante, sarcástico, explorou todos os canais de comunicação para a sua arte. Entretanto, no teatro foi o maior". 

 

Suely Franco, atriz. "Eu não vou dizer que estou triste, porque ele estava sofrendo muito. Acho que chega uma hora que temos que descansar. Foi uma honra enorme ele ter sido meu professor".

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