JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Ator que vive Gonzaguinha surpreende pela semelhança com o cantor

Júlio Andrade deixou a própria família do artista em choque com sua atuação no filme 'Gonzaga - De Pai pra Filho'

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

06 de novembro de 2012 | 02h10

Júlio quem? Andrade. Embora seja um dos atores brasileiros mais apreciados da nova geração, com talento provado em cinema, teatro e TV, o gaúcho Júlio Andrade talvez tenha dificuldade para se fazer (re)conhecer justamente pela forma como 'cola' aos mais diferentes personagens. Fez Cão Sem Dono com Beto Brant, é o Gonzaguinha de Gonzaga - De Pai pra Filho, de Breno Silveira, em cartaz nos cinemas, e em breve será visto como um crente em Éden, de Bruno Safadi. Na TV, entre outros personagens, foi o mordomo Arthurzinho de Passione, novela de Sílvio de Abreu.

O diretor Silveira testemunhou como a mulher e os filhos de Gonzaguinha reagiram à interpretação de Andrade numa sessão de Gonzaga para a família, no Rio. A mulher teve violenta comoção. Os filhos não conseguiam entender como, mais que a semelhança física, Andrade conseguiu incorporar a singularidade de Gonzaguinha. Certos gestos mínimos. A arrogância que, nele, era uma forma de defesa. Gonzaga não está sendo o estouro de bilheteria que Silveira e a empresa Conspiração, em parceria com a Downtown e a Paris, esperavam para seu filme grande (e por que não grande filme?) sobre a difícil relação entre Gonzagão e Gonzaguinha. O filme vai muito bem no Nordeste, e não tão bem no Sul Maravilha, mas em dez dias já atingiu 566 mil espectadores.

Existem explicações para o relativo fracasso em São Paulo - o filme estreou no fim de semana do segundo turno da eleição para prefeito e em plena Mostra. Como se não bastasse a concorrência do maior evento de cinema na cidade, ainda havia o novo James Bond, 007 - Operação Skyfall, com sua fama (justificada) de ser o melhor filme da série. Silveira ainda aposta numa reação do público em São Paulo, e lembra que seu megahit 2 Filhos de Francisco já havia estourado no País inteiro, quando o público paulista (e paulistano) começou a despertar para a saga de Zezé Di Camargo e Luciano.

Gonzaga tem tudo o que Breno Silveira gosta - emoção, música, uma história de pai e filho. Gonzaga, o rei do baião, teve sempre uma relação difícil com o filho. O filme conta a história de uma reconciliação e se o baião dá o tom de boa parte do relato, a apoteose é com Gonzaguinha - "Viver, e não ter a vergonha de ser feliz...". Como se conta uma história dessas? Nem dez filmes dariam conta de Gonzagão, diz o diretor. Ele apostou na imagem, na trilha - e no elenco. Gonzagão é interpretado por Land Vieira, Chambinho do Acordeon e Adélio Lima. Gonzaguinha também possui três intérpretes, mas, por melhores que sejam o garoto e o adolescente - Alison Santos e Giancarlo di Tommaso são bons -, você vai ficar siderado com Júlio Andrade.

"Que cara é esse?", perguntou o próprio Silveira quando Júlio Andrade foi fazer o teste. A escolha dos atores, tanto para Gonzagão quanto Gonzaguinha, foi um processo difícil. Júlio tinha uma amiga que era amiga da produtora. Ela o apresentou, Márcia Braga ficou impressionada e o encaminhou para o teste. Júlio Andrade jogou pesado. Incorporou o personagem e entrou no set como se fosse ele, a arrogância inclusive. Silveira não acreditava no que via (e ouvia). Só descobriu depois que Andrade tinha uma longa história com Luiz Gonzaga Jr.

A música sempre fez parte da vida de Júlio. Seu avô era amigo do lendário Lupicínio Rodrigues, o rei da fossa ("Você sabe o que é ter um amor, meu senhor..."). Vestia-se de branco, em Porto Alegre, como se fosse um malandro carioca. Vivia em rodas de samba. O velho estimulava o neto a ser galinha. Queria que ele transasse com todas as mulheres do mundo, ou pelo menos as do Rio Grande do Sul. Júlio se aplicava, até descobrir que era monogâmico. Mais importante era uma mulher que personificasse todas as demais - como Leila Diniz, para Paulo José, em Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos Oliveira.

Tudo isso era verdade, mas se o avô amava Lupicínio, a Lapa e a malandragem, o pai de Júlio era devoto de Gonzaguinha. Seu coração explodia a cada nova música do cantor e compositor. Júlio sabia todas, de tanto ouvir em casa. Seu pai quase morreu de emoção ao saber que o filho ganhara o papel. Como se faz para interpretar um mito? Aplicação, dedicação, estudo, mas chega uma hora em que o ator tem de deixar fluir a emoção. Em vez de representar, tem de ser. Tem sido assim na carreira de Júlio Andrade. Ele lembra que teve a mais louca das preparações para Cão Sem Dono. Morava na própria locação e uma manhã acordou com a câmera de Beto Brant e Renato Ciasca na cara. Não havia mais distância entre o personagem e ele. Eram Ciro e Júlio, tudo a mesma a coisa.

"O que há de mais apaixonante nessa profissão é o desafio", avalia Júlio Andrade. Há uma nova geração brasileira - João Miguel, Júlio Andrade e outros -, que gosta de mudar de papel para papel. Havia a geração de Paulo César Pereio e Jece Valadão, que buscava a variação dentro do mesmo personagem. Entre as duas tendências situa-se Selton Mello, o ator que deu cara ao cinema brasileiro da Retomada. Júlio Andrade tem uma explicação simples para definir como e por que se tornou ator. "Uma vizinha me convidou para fazer uma peça e eu fui. Me deixei levar pela maré. Entrei para o Depósito de Teatro (companhia de Porto Alegre). Minha formação foram as pessoas com quem trabalhei."

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