Ator escolhido é o pior alter ego do diretor

RUIM

Não Gostei: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Larry David é o pior de todos os Woody Allens, e isso contamina Tudo Pode Dar Certo. Mas o novo longa talvez não fosse muito melhor, se Allen tivesse conseguido outro ator como alter ego. Pode parecer implicância, é verdade. Todo grande autor se repete, mas Allen, com raríssimas exceções, há tempos não é mais o autor denso e profundo que, nos anos 1970 e 80, produziu tantos grandes filmes.

Pesquisas de linguagem e política, exploração do inferno das relações, há um Woody Allen que marcou a história da comédia (e do cinema) com filmes como Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo, Hannah e Suas Irmãs, Crimes e Pecados, Manhattan. Alguns espectadores com certeza acrescentariam Noivo Neurótico, Noiva Nervosa à série. A fase da união com Soon Yi produziu o que não deixa de ser um paradoxo. Allen, após a tempestade da separação de Mia Farrow, encontrou na esposa vietnamita um porto seguro. Isso foi ótimo para o homem, não tão bom para o artista. Woody Allen era melhor com seus demônios à flor da pele.

Claro, pode-se gostar de Dirigindo no Escuro, de Match Point, até de Vicky Cristina Barcelona (apesar da oposição entre os mundos saxão e latino ser baseada em estereótipos). Mas Tudo Pode Dar Certo é jogo duro. Larry David não ajuda. Como outras vezes em sua carreira, Allen, só diretor e roteirista, coloca outro ator para interpretar seu papel. Larry David é hipocondríaco, falastrão, nutre verdadeiro ódio pela humanidade. E é antipático. Frases que Woody Allen diria com certa graça ele deixa agressivas, quase ofensivas. Isso termina por anular o encanto que poderia representar o retorno do cineasta a Nova York, após suas experiências europeias (em Londres e Barcelona).

Boris, é o nome do personagem, foi "quase" Prêmio Nobel. Ele se envolve com uma mulher mais jovem, acolhe a mãe dela em sua casa. O pai separou-se da mulher para viver com outro homem. Tudo isso poderia configurar uma outra coisa na grande fase, mas a tese do Allen atual, pacificado, é que tudo termina dando certo.

Passeio ao sol. Boris é suicida em potencial. Até o ato de buscar a morte leva à afirmação da vida. O pessimismo mais atroz reveste-se de otimismo. Poderia ser interessante. Ingmar Bergman, que Woody Allen ama, fez de um passeio ao sol, no fecho de Gritos e Sussurros, a remissão de uma vida de sofrimento. O que é que banaliza a conclusão do seu filme? O roteiro estava há anos na gaveta de Woody Allen, quando ele resolveu retomá-lo, para celebrar seu retorno à cidade da qual virou o maior cronista.

Nem o reciclou. A aceitação da diferença é feita num tom meio ofensivo, filtrada pelo desprezo, consciente ou não, de Boris pelo outro. É possível que os tietes do diretor se divirtam, pois algumas piadas são mesmo engraçadas. Mas Allen já foi tão melhor. A conclusão é que, na arte, algumas coisas, definitivamente, não dão certo. Querer transformar Larry David em Woody Allen é uma delas.

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