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Ator e cineasta Hugo Carvana morre aos 77 anos no Rio

Cineasta, que estava internado no Rio, teve complicações em decorrência de um câncer de pulmão

Roberta Pennafort, Fernanda Nunes, Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

04 de outubro de 2014 | 13h37

Atualizado às 16h49

RIO - Morreu neste sábado, 4, no Rio, aos 77 anos, o cineasta e ator Hugo Carvana, em decorrência de câncer no pulmão, que apareceu havia muitos anos e voltou há cerca de seis meses. Ele convivia com o mal de Parkinson desde 2011, mas, segundo a família, a doença era de baixa intensidade.

Carvana estava internado desde domingo no Hospital Pró-Cardíaco, com insuficiência respiratória, e morreu por volta de 11 horas. O corpo será velado no domingo, 5, no Parque Lage, na zona sul do Rio, a partir das 9 horas.

O ator Antônio Pedro, que atuou em seis dos nove filmes do amigo, disse que a volta do câncer havia deixado família e amigos apreensivos. “É uma falta imensa. Ele tinha ótimas ideias. A gente se conheceu nos anos 1950 e ficou amigo nos anos 1960, no período das passeatas. Hugo é uma parte da minha vida”, afirmou, abalado, no hospital.

“Nem sabia que o Carvana estava internado, ele não estava saindo muito de casa. Sempre teve problema de coração, era fraquinho de saúde. Éramos muito amigos, desde o Cinema Novo. Fiz vários filmes com ele e admirava seu trabalho. Era um comediante que criou um personagem, como Cantinflas, como Charlie Chaplin: seu malandro é um ícone do cinema brasileiro”, disse o cineasta Cacá Diegues.

Repercussão. Marcos Flaksman, diretor de arte dos três últimos filmes de Carvana – os dois Casa da Mãe Joana (2008 e 2013) e Não se Preocupe, Nada Vai Dar Certo (2011) –, iria visitá-lo no hospital, mas foi surpreendido pela notícia de sua morte. “Ele adorava trabalhar. Era um homem cheio de vida, que teve um câncer que veio, foi curado e depois voltou com muito mais força do que a gente esperava. Estava enfraquecido. Sempre tratou todas as doenças, mas isso foi uma circunstância, ele era muito maior do que isso, um cineasta brasileiro muito importante, comparável a um (Mario) Monicelli (o rei da comédia ‘à italiana’). Tinha olhar fresco, bem humorado e juvenil sobre a vida, a existência humana e sua insignificância”, disse.

A disposição para o ofício foi confirmada pelo ator Paulo Betti, que já estava com o roteiro do próximo filme de Carvana nas mãos – não havia data ainda para que fosse rodado, pois estava na fase de captação de recursos.

O ator destacou o “perfil único” de Carvana, que, na visão dele, era o “último remanescente de um estilo de interpretação, o último representante da malandragem no cinema”. Betti também lembrou o Carvana ator. Ele estava comemorando 60 anos de carreira no cinema este ano – a estreia foi em Trabalhou Bem, Genival. De lá para cá, foram mais de 90 filmes como ator, sendo o último Giovanni Improtta, do ano passado, dirigido pelo amigo José Wilker, também morto neste ano.

Carvana chegou a dar entrevista falando serenamente sobre o mal de Parkinson. O diagnóstico foi há cinco anos, porém, segundo a família, a doença tinha baixa intensidade e atrapalhava apenas o caminhar, levando Carvana a usar bengala. “A única coisa que lamento (do processo de envelhecimento) é não ter mais agilidade’’, declarou.

O diretor era casado havia 40 anos com Martha Alencar, e acreditava ter se tornado, com a idade, “mais amoroso e afetuoso”. Segundo dois de seus quatro filhos, Carvana teve o primeiro câncer em 1996, no pulmão direito, parou de fumar, fez o tratamento e ficou curado. Há seis meses, o cineasta recebeu novo diagnóstico de câncer no mesmo pulmão. “Ele lutou muito, tinha muita esperança que ia sobreviver. Na semana passada, o quadro piorou”, disse a filha Maria Clara, produtora de cinema.

A atriz Tássia Camargo lamentou a morte do colega. Em nota divulgada à imprensa, a atriz diz que foi surpreendida de manhã com a “triste notícia do falecimento de um grande amigo”, que “também era um excelente ator, diretor e cineasta”.

Tássia lembra que trabalhou com Carvana na novela O Dono do Mundo (1991), da TV Globo; e no seriado Plantão de Polícia (1979 a 1981), também da emissora. “Há algum tempo tive a honra de encontrar o Hugo num encontro de artistas e intelectuais aqui no Rio. Estou muito triste com a notícia, é uma perda muito grande para a classe artística, o Brasil e a cultura brasileira”, diz a nota assinada por Tássia.

Festival. Carvana está sendo homenageado pelo Festival Internacional de Cinema do Rio, que realizou uma sessão de gala do clássico Vai Trabalhar, Vagabundo, em cópia restaurada, há sete dias. Com o filme, Carvana ganhou o Kikito de Ouro de Melhor Filme no Festival de Gramado. Segundo o filho Júlio, que trabalha na produtora de Carvana (MAC, cujas atividades terão continuidade), o pai viu a cópia restaurada. “Ele estava muito feliz com o restauro e com a homenagem”, disse. / COLABOROU VINICIUS NEDER

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