Ator contracena com máquina em teatro eletrônico

Roberto Santos, o cineasta, afirmava com gosto que seu trabalho tinha a marca de mostrar o homem sem saída, encurralado pelo cotidiano. Foi assim em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de 1965, não o primeiro trabalho do diretor, mas sua obra-prima. E sua paixão pelos personagens errantes era tamanha que sonhava vê-los na vida real acompanhando suas atitudes e reações. "Gostaria de tomar ônibus, por exemplo, com o Matraga, e, ao seu lado, ouvir suas impressões sobre nosso dia-a-dia", dizia.Fascinado com o desejo do pai de transportar a ficção para a realidade, o matemático Cláudio Pinhanez conseguiu, anos depois, iniciar a transformação - Ph.D. em Comunicação Artística e Ciência pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (em inglês, MIT), realiza pesquisas na área de informação digital, buscando formas de representação teatral que juntem atores em imagens contracenadas com o computador. "Não quero que as pessoas assistam passivamente às apresentações na frente do micro", comenta Pinhanez, cientista-pesquisador da IBM. "Espero passar a emoção conseguida por um ator no palco".Conhecido pela ousadia e pioneirismo, o MIT também avança na criação de um teatro eletrônico em que os atores reais contracenam com personagens virtuais, criados a partir de um projetor, e que reagem conforme as falas desses atores. A proposta de Pinhanez é desenvolver computadores, softwares e modelos que consigam interferir com os componentes básicos do teatro: ação, expressão, conflito, destino. "Na verdade, a proposta é explorar, principalmente, os personagens que os homens não podem fazer em palco", explica. "Não quero recriar uma Julieta, porque a de Shakespeare já é perfeita".A fusão entre tecnologia e arte necessita da criação de novas opções dramáticas, com novas soluções e estruturas. O matemático brasileiro busca, no momento, autores que consigam corresponder a esse anseio. Seu primeiro trabalho, por exemplo, SingSong, mostrava um palhaço contracenando com quatro atores-cantores computadorizados. "Trata-se, na verdade, de um tradicional esquete de teatro de rua, no qual um maestro tenta reger um coro em que um cantor não quer cooperar".SingSong utiliza uma câmera para monitorar os movimentos do palhaço, um telão gigante para mostrar os cantores virtuais, um sintetizador para produzir a voz desses cantores e dois computadores - um que reconhece os gestos do maestro e outro para controlar os atores computadorizados. "Realizei o trabalho em 1996, nos laboratórios de Kyoto, no Japão, e, como primeira experiência, foi bem produtiva", lembra Pinhanez, que cursou teatro e dança.Reações virtuais - O trabalho seguinte, desenvolvido um ano depois, foi It/I, uma pantomima para dois personagens (um homem e o computador), que conversam sobre como é viver em um mundo cada vez mais dominado pela tecnologia, em que o personagem virtual, por suas capacidades técnicas, é onipresente e manipula os desejos do personagem humano por informação e diversão. "O computador ´interpreta´ o It e reage de acordo com os movimentos do homem, que personifica o I", conta o matemático. "No final do espetáculo, o público é convidado a interagir com a máquina".A peça estreou na área de Vivência Experimental do MIT e apesar de contar com apenas um ator (Joshua Pritcherd), necessitou de uma equipe de aproximadamente 30 pessoas. As experiências acumulavam-se e permitiam resolver os problemas de ajustes. No trabalho seguinte, The Kids Room (A Sala das Crianças), um quarto infantil foi transformado em um mundo de fantasia, em que as crianças transformavam os objetos com simples toques ou comando de voz. "A maior dificuldade foi trabalhar com os garotos, que reagem naturalmente e nem sempre de acordo com nossas necessidades", conta o pesquisador, que para tanto utilizou três câmeras e seis computadores.No ano passado, Pinhanez explorou outra faceta do teatro eletrônico, ao criar a HyperMask - máscaras projetadas no rosto dos atores, que usavam um capuz branco como tela. Com isso, o ator pode mudar a face projetada quando quiser, assumindo um novo visual, assim como alterar suas expressões. Graças a pontos de recepção em infravermelho instalados no rosto, a projeção adaptava-se de acordo com a mexida de cabeça. Também a movimentação dos lábios é projetada em sincronia com a voz do ator em tempo real, garantindo a autenticidade.E a primeira experiência será realizada no Brasil: Pinhanez negocia a apresentação de Valsa n.º 6, de Nélson Rodrigues, interpretada pela atriz Denise Milfont. "Atualmente, poucos usam os computadores para se entreter", afirma. "Espero tornar o aparelho algo que as pessoas liguem ao voltar do trabalho, cansadas, como hoje fazem com a televisão".

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